Nesta semana de Dia de Finados, um convite às equipes das ILPI: olhar para a morte não como fracasso, mas como parte da vida que também merece cuidado.
Artigo inspirado nos ensinamentos da Dra. Silvia Bitar, médica geriatra, e de Maria Laura Barretto, assistente social sênior, ambas do Residencial Israelita Albert Einstein, no workshop “Ajude-me a morrer bem”, apresentado no MPC Brasil 2026 – Meeting dos Profissionais de Cuidar, em São José do Rio Preto (SP).
Ela pediu mingau. Sabia que seria sua última refeição. Escolheu a blusa que queria vestir, beijou as mãos da cuidadora e pediu perdão. Disse que amava todos do residencial e pediu um quarto ao lado da filha, porque sabia que estava indo embora.
Dona S., 92 anos, faleceu no seu quarto, ao lado da filha, como desejou. O relato da cuidadora, trazido por Silvia e Maria Laura ao MPC Brasil, fez a sala silenciar. Ali estava a pergunta que abriu o workshop: o que é morrer bem em uma instituição de longa permanência?
Finados também é dia de quem cuida
No 2 de novembro, o Brasil acende velas e lembra nomes. Nas ILPI, a lembrança tem rostos próximos: o senhor da cadeira perto da janela, a senhora que cantava no banho, a residente que chamava a técnica de “minha filha”. Quem trabalha em ILPI convive com a morte como poucos, e quase sempre sem espaço para falar dela.
Aprendemos a combater doenças. Quando a cura deixa de ser possível, muitas equipes sentem que não há mais nada a fazer. Há muito.
Cuidado paliativo não é desistir
A Organização Mundial da Saúde define cuidados paliativos como a abordagem que promove qualidade de vida de pacientes e familiares diante de doenças que ameaçam a vida, prevenindo e aliviando o sofrimento físico, psicossocial e espiritual. Não é abandono, não substitui tratamentos que ainda fazem sentido, não é exclusivo dos últimos dias e nunca é “não fazer nada”.
Três palavras que toda equipe precisa distinguir:
- Eutanásia: provocar a morte, ainda que por compaixão. É crime no Brasil e vedada ao médico pelo Código de Ética Médica (Resolução CFM 2.217/2018, art. 41).
- Distanásia: prolongar o processo de morrer com tratamentos inúteis, a obstinação terapêutica que esquece a pessoa.
- Ortotanásia: permitir a morte natural, sem sofrimento e sem medidas extraordinárias, como autoriza a Resolução CFM 1.805/2006, respeitada a vontade da pessoa ou de seu representante.
Já a Resolução CFM 1.995/2012 reconhece as diretivas antecipadas de vontade (DAV): o registro do que a pessoa deseja, e do que não deseja, para quando não puder mais decidir.
Planejar antes da crise
A história de Dona S. mostra por que conversar cedo muda tudo. Viúva, lúcida, com câncer de pulmão metastático, teve complicações graves com a quimioterapia e escolheu interromper o tratamento oncológico. Com a piora da falta de ar, ficou ríspida, exigente, por vezes agressiva.
Por trás do “comportamento difícil” havia medo: de morrer, do escuro, de ficar sozinha. E a preocupação com a filha, que também vivia no residencial após um AVC. Em reunião com ela e o filho, as diretivas ficaram claras: não queria ir para o hospital, não aceitava medidas invasivas e queria ficar perto da filha. O filho prometeu que cuidaria da irmã. A equipe construiu um plano individual de fim de vida, o Plano Lilás, e ofereceu sedação paliativa quando o sofrimento exigiu.
O Planejamento Antecipado de Cuidados é isso: residente, família e equipe conversando sobre valores, preferências, espiritualidade e desejos para o fim da vida. É a autonomia da pessoa idosa levada a sério. No exercício do Plano Bem Querer, cada participante respondeu para si: o que você gostaria que as pessoas soubessem sobre você? O que importa para você?
O luto que ninguém vê
Quando um residente morre, a ILPI inteira sente: a família, os outros residentes e a equipe. Impotência, tristeza e a lembrança da própria finitude chegam juntas. Cuidar do pós-óbito também é cuidar. Algumas práticas apresentadas no MPC Brasil:
- Reunião com a equipe após o óbito, para acolher angústias, sem esquecer o plantão noturno.
- Carta de condolências com mensagens escritas pela equipe.
- Treinamento periódico em comunicação, acolhimento e cuidado de quem cuida.
- Apoio à família: serviço social, apoio espiritual, presença da equipe no sepultamento, uma ligação após uma semana e ajuda com os pertences.
E um alerta: quando a resposta para “quantos anos ela tinha?” é 90, parece que a família perde o direito à dor profunda. Não perde. A idade não atenua o luto; uma árvore centenária que tomba deixa um buraco gigante. E o luto não é linear nem controlável. Isso é normal.
“Ajudar alguém a morrer bem é o último ato de cuidado.”
O que você poderia fazer diferente?
Nem sempre podemos curar, mas sempre podemos cuidar e diminuir o sofrimento. Às vezes, o cuidado mais preciso é um mingau servido sem pressa, uma blusa escolhida, uma mão que fica.
Neste 2 de novembro, a Revista Cuidar convida cada equipe a se reunir e fazer duas perguntas: como nos sentimos quando um residente parte? E o que poderíamos fazer diferente na nossa instituição? Não importa a resposta certa. Importa a conversa que a pergunta abre.
Aos residentes que partiram: suas histórias continuam morando em nós.
Às profissionais e aos profissionais das ILPI: obrigada por cada vigília, cada despedida acompanhada, cada presença oferecida quando já não havia o que dizer. Sua presença é o presente mais precioso que se pode dar a outro ser humano.
Nosso agradecimento à Dra. Silvia Bitar e a Maria Laura Barretto, que nos ensinaram que falar da morte é um ato de cuidado.
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Nesta semana de Dia de Finados, um convite às equipes das ILPI: olhar para a morte não como fracasso, mas como parte da vida que também merece cuidado.
Artigo inspirado nos ensinamentos da Dra. Silvia Bitar, médica geriatra, e de Maria Laura Barretto, assistente social sênior, ambas do Residencial Israelita Albert Einstein, no workshop “Ajude-me a morrer bem”, apresentado no MPC Brasil 2026 – Meeting dos Profissionais de Cuidar, em São José do Rio Preto (SP).
Ela pediu mingau. Sabia que seria sua última refeição. Escolheu a blusa que queria vestir, beijou as mãos da cuidadora e pediu perdão. Disse que amava todos do residencial e pediu um quarto ao lado da filha, porque sabia que estava indo embora.
Dona S., 92 anos, faleceu no seu quarto, ao lado da filha, como desejou. O relato da cuidadora, trazido por Silvia e Maria Laura ao MPC Brasil, fez a sala silenciar. Ali estava a pergunta que abriu o workshop: o que é morrer bem em uma instituição de longa permanência?
Finados também é dia de quem cuida
No 2 de novembro, o Brasil acende velas e lembra nomes. Nas ILPI, a lembrança tem rostos próximos: o senhor da cadeira perto da janela, a senhora que cantava no banho, a residente que chamava a técnica de “minha filha”. Quem trabalha em ILPI convive com a morte como poucos, e quase sempre sem espaço para falar dela.
Aprendemos a combater doenças. Quando a cura deixa de ser possível, muitas equipes sentem que não há mais nada a fazer. Há muito.
Cuidado paliativo não é desistir
A Organização Mundial da Saúde define cuidados paliativos como a abordagem que promove qualidade de vida de pacientes e familiares diante de doenças que ameaçam a vida, prevenindo e aliviando o sofrimento físico, psicossocial e espiritual. Não é abandono, não substitui tratamentos que ainda fazem sentido, não é exclusivo dos últimos dias e nunca é “não fazer nada”.
Três palavras que toda equipe precisa distinguir:
- Eutanásia: provocar a morte, ainda que por compaixão. É crime no Brasil e vedada ao médico pelo Código de Ética Médica (Resolução CFM 2.217/2018, art. 41).
- Distanásia: prolongar o processo de morrer com tratamentos inúteis, a obstinação terapêutica que esquece a pessoa.
- Ortotanásia: permitir a morte natural, sem sofrimento e sem medidas extraordinárias, como autoriza a Resolução CFM 1.805/2006, respeitada a vontade da pessoa ou de seu representante.
Já a Resolução CFM 1.995/2012 reconhece as diretivas antecipadas de vontade (DAV): o registro do que a pessoa deseja, e do que não deseja, para quando não puder mais decidir.
Planejar antes da crise
A história de Dona S. mostra por que conversar cedo muda tudo. Viúva, lúcida, com câncer de pulmão metastático, teve complicações graves com a quimioterapia e escolheu interromper o tratamento oncológico. Com a piora da falta de ar, ficou ríspida, exigente, por vezes agressiva.
Por trás do “comportamento difícil” havia medo: de morrer, do escuro, de ficar sozinha. E a preocupação com a filha, que também vivia no residencial após um AVC. Em reunião com ela e o filho, as diretivas ficaram claras: não queria ir para o hospital, não aceitava medidas invasivas e queria ficar perto da filha. O filho prometeu que cuidaria da irmã. A equipe construiu um plano individual de fim de vida, o Plano Lilás, e ofereceu sedação paliativa quando o sofrimento exigiu.
O Planejamento Antecipado de Cuidados é isso: residente, família e equipe conversando sobre valores, preferências, espiritualidade e desejos para o fim da vida. É a autonomia da pessoa idosa levada a sério. No exercício do Plano Bem Querer, cada participante respondeu para si: o que você gostaria que as pessoas soubessem sobre você? O que importa para você?
O luto que ninguém vê
Quando um residente morre, a ILPI inteira sente: a família, os outros residentes e a equipe. Impotência, tristeza e a lembrança da própria finitude chegam juntas. Cuidar do pós-óbito também é cuidar. Algumas práticas apresentadas no MPC Brasil:
- Reunião com a equipe após o óbito, para acolher angústias, sem esquecer o plantão noturno.
- Carta de condolências com mensagens escritas pela equipe.
- Treinamento periódico em comunicação, acolhimento e cuidado de quem cuida.
- Apoio à família: serviço social, apoio espiritual, presença da equipe no sepultamento, uma ligação após uma semana e ajuda com os pertences.
E um alerta: quando a resposta para “quantos anos ela tinha?” é 90, parece que a família perde o direito à dor profunda. Não perde. A idade não atenua o luto; uma árvore centenária que tomba deixa um buraco gigante. E o luto não é linear nem controlável. Isso é normal.
“Ajudar alguém a morrer bem é o último ato de cuidado.”
O que você poderia fazer diferente?
Nem sempre podemos curar, mas sempre podemos cuidar e diminuir o sofrimento. Às vezes, o cuidado mais preciso é um mingau servido sem pressa, uma blusa escolhida, uma mão que fica.
Neste 2 de novembro, a Revista Cuidar convida cada equipe a se reunir e fazer duas perguntas: como nos sentimos quando um residente parte? E o que poderíamos fazer diferente na nossa instituição? Não importa a resposta certa. Importa a conversa que a pergunta abre.
Aos residentes que partiram: suas histórias continuam morando em nós.
Às profissionais e aos profissionais das ILPI: obrigada por cada vigília, cada despedida acompanhada, cada presença oferecida quando já não havia o que dizer. Sua presença é o presente mais precioso que se pode dar a outro ser humano.
Nosso agradecimento à Dra. Silvia Bitar e a Maria Laura Barretto, que nos ensinaram que falar da morte é um ato de cuidado.
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