Você está prestes a ler o texto da nossa newsletter mensal, editado por GIULIA DAPERO. Na última sexta-feira de cada mês, divulgamos uma reflexão filosófica para os leitores da Revista Cuidar.

É uma noite chuvosa no final do século XIX e uma jovem está fazendo seu trabalho habitual no balcão de um bar.

Piada, estou brincando.

Não sei se era realmente uma noite chuvosa, nem se aquela mulher realmente existiu.

Mas O Bar das Folies-Bergère, de Edouard Manet, é uma pintura que eu adoro.

Adoro o jogo de perspectiva que ele coloca na cena.

Em primeiro plano está a garçonete ; atrás dela há um espelho que reflete para o observador toda a vida que acontece no local; incluindo o homem à sua frente e que, sem o espelho, não poderíamos ver de jeito nenhum.

Parece que Manet está nos dizendo:

Não são apenas as roupas que ela veste, a postura que ela mantém ou o papel que ela desempenha que definem a identidade da garçonete… mas também todo o seu “ ambiente relacional ”, que vemos e não vemos.

Junho de CUIDAR

Temos dificuldade em enxergar o universo de histórias e relacionamentos em que os outros estão imersos, mas talvez tenhamos ainda mais dificuldade em nos ver como simples fios de uma trama.

É mais simples – e mais coerente com a cultura individualista disseminada – pensar em ser O Fio, isto é, trabalhar para tecer a própria trama, ou ainda, aspirar a ser o Número 1 em alguma coisa.

Os artigos deste mês, por outro lado, têm o mesmo olhar refinado de Manet, por exemplo:

Gentileza: o antídoto para o abuso
Nada impacta tanto quanto um gesto inesperado de respeito. Neste artigo descobrimos como protocolos simples de gentileza como um olhar demorado, um “como você está hoje” antes de servir o remédio ou um chá extra sem que se peça, ajudam a prevenir o abuso em ILPI. Fomos tocados pelo Concurso Nacional: Gentileza que Protege – Arte e Cuidado nas ILPI, uma iniciativa inédita no Brasil que emocionou a todos. A ação mostrou que valorizar o cuidado é também inspirar a mudança. Há tantos trabalhadores dedicados e anônimos que, todos os dias, mantêm vivo o universo do Cuidar.(https://revistacuidar.com.br/concurso-gentileza-que-protege-premiacao/).

Contenção do idoso: além dos estereótipos e pressupostos culturais
Para entender quando a contenção é realmente necessária, o primeiro passo é ouvir. Familiares, cuidadores e, sempre que possível, os próprios residentes compartilham suas histórias e medos. Ao escutarmos essas vozes, deixamos de lado o rótulo de “idoso difícil” e construímos planos de cuidado mais humanos. Ainda assim, muitos profissionais, por hábito ou comodidade, recorrem à contenção como primeira escolha, sem antes tentar abordagens mais empáticas e respeitosas.

Desafios do gestor de ILPI: as experiências do Residencial Longevité
No Residencial Longevité, cada desafio de gestão virou chance de reforçar o cuidado: o acolhimento inicial foi transformado em momento de conhecer histórias individuais, a comunicação com as famílias se tornou contínua e transparente, e a formação da equipe ganhou foco em empatia e escuta ativa, criando um ambiente integrado onde cada passo reforça a cultura do cuidado.

Corpo ou pessoa: refletindo o sentido do cuidar nas ILPI
Comovente e reflexivo, este texto pede que deixemos de tratar a pessoa idosa como um corpo a ser mantido. Enfrenta questões profundas: o isolamento, a perda de sentido, a demência. Revela que, quando abrimos espaço para que a pessoa conte sua história, mesmo nos breves intervalos do cuidar, resgatamos o tempo Kairos, e devolvemos ao espaço institucional uma humanidade que, sem esse gesto, fica invisível.

A Vida do Número Zero

Em suma, a abordagem dos autores deste mês não é a dos ” números 1 “, mas a dos ” números 0 “.

Se 1 é o número que “ está na cabeça ” de todos os números positivos, 0 é o número que “ está no meio ” dos números negativos e positivos, sem fazer alarde.

Os números zero são sutis – não inexistentes – e geralmente vivem em paz.

O CUIDAR realmente precisa que TODOS NÓS nos comprometamos a viver mais como uma vida de número Zero.(Gente que não almeja o pódio, mas que segura a rede para que outros não caiam.)

Mas acho que já “dei voltas” o suficiente sobre meus sentimentos críticos em relação ao nosso modelo econômico-social dominante. 😉

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