- O idoso é um cidadão portador de direitos
- O papel (fundamental) da formação
- A abordagem da demência: entre despersonalização e incompreensão
- Entre rejeição e compaixão: mas o idoso percebe tudo
- Formas de contenção e álibis
- Favorecer a dependência complica a relação entre o profissional e os idosos.
- Quer transformar a forma como cuida de pessoas idosas com demência?
A contenção do idoso com demência às vezes parece ser o único caminho para garantir a segurança. Mas será que é realmente assim? Ou trata-se, talvez, de um álibi enraizado em estereótipos e pressupostos culturais ligados à velhice? A reflexão de Mauro Cauzer sobre a abordagem atual, que privilegia apenas os aspectos assistenciais, sugere um modo de cuidado capaz de honrar a dignidade humana e os direitos das pessoas idosas.
Por: Mauro Cauzer, psicoterapeuta
Artigo Revista Cura.
Tradução: Aline Salla
A ideia de que as pessoas idosas não têm mais nada a oferecer e de que são um peso econômico para as gerações mais jovens está baseada no estereótipo segundo o qual as contribuições à sociedade são feitas apenas por indivíduos inseridos no sistema macroeconômico — ou seja, aqueles que ainda podem ser considerados força de trabalho disponível no mercado. Como a capacidade de produzir força de trabalho declina com a idade, os idosos passam a ser vistos como inúteis.
O idoso é um cidadão portador de direitos
Para sair desse impasse ideológico, é preciso deixar de considerar o idoso exclusivamente como uma categoria a ser protegida por meio de direitos especiais, e reconhecê-lo como um cidadão portador de direitos, em igualdade com todos os demais cidadãos do mesmo Estado. E, enquanto cidadão — e não uma espécie protegida — a pessoa idosa pode continuar a atuar dentro daquela mesma sociedade na qual foi ativo e participante do mundo produtivo, e na qual ainda pode representar um recurso, desde que se estabeleça — ou melhor, se restaure — “uma nova cultura do envelhecimento”.
Para além dos estereótipos…
Se o idoso saudável já não é mais considerado parte ativa pela sociedade capitalista, o que dizer então daqueles idosos colocados em instituições residenciais popularmente chamadas de “casas de repouso”, onde o termo “repouso” é sinônimo de inatividade, ou seja, inação, inércia, incapacidade de decisão?
… Em direção a uma cultura do envelhecimento
Para alcançar objetivos concretos e combater tais estereótipos, essa nova cultura do envelhecimento precisa adentrar todos os espaços da sociedade e tornar-se, ao mesmo tempo, formação contínua de todos os indivíduos — em especial dos profissionais da geriatria — que estão em contato constante com pessoas idosas e frágeis.
O papel (fundamental) da formação
A função desses profissionais é fundamental nas situações em que os usuários se encontram em condição de dependência e vulnerabilidade. As dificuldades de realizar com constância, competência e profissionalismo o trabalho com pessoas idosas evidenciam a importância de dois pontos fundamentais:
-
uma preparação técnico-profissional sólida e qualificada;
-
uma formação voltada ao desenvolvimento de uma capacidade específica de interação com o idoso, que privilegie o aspecto afetivo-relacional como instrumento de comunicação interpessoal.
A abordagem da demência: entre despersonalização e incompreensão
Na sociedade atual, observa-se pouca consideração pelo valor humano, pelos valores e pelos direitos das pessoas idosas, em particular daqueles que apresentam certo grau de deterioração, que são (ou deveriam ser) iguais aos dos outros. Por exemplo, na presença de pessoas com demência, frequentemente se assiste a uma abordagem dos profissionais que privilegia os aspectos meramente assistenciais e tende a despersonalizar como paciente. De fato, dá-se muita importância ao cumprimento das funções assistenciais (manutenção da higiene, alimentação, terapia medicamentosa administrada segundo esquemas pré-estabelecidos), mas não se preocupa em estabelecer uma relação com a pessoa com demência.
Na verdade, suas manifestações emocionais e afetivas não são vistas como tentativas de comunicação, mas sim como sintomas de um “emburrecimento”. Consequentemente, qualquer tentativa de expressar necessidades, sentimentos ou experiências — ainda que de forma atrapalhada e distorcida devido à deterioração orgânica — costuma se manifestar por meio de comportamentos que o profissional pode interpretar como agressivos. Essas expressões são então reprimidas, com o uso de terapias sedativas.
Entre rejeição e compaixão: mas o idoso percebe tudo
De forma geral, pode-se afirmar que o ambiente ao redor é pouco sensibilizado para perceber as necessidades dessas pessoas, para captar sua insegurança e sua fragilidade física e psíquica. Nota-se uma atitude de distanciamento que, às vezes, chega à rejeição e — na melhor das hipóteses — à compaixão, justamente por causa da incompreensão que se instala entre as gerações mais jovens e os idosos. Estes últimos percebem essa atmosfera e, como forma de defesa, acabam se retraindo, se isolando, recusando qualquer tipo de relação.
Formas de contenção e álibis
Nos piores casos, infelizmente, recorre-se indiscriminadamente às faixas de contenção e às mesinhas acopladas às cadeiras, às portas trancadas, à superdosagem de medicamentos. Esses comportamentos tornam-se habituais e são disfarçados com a justificativa de que servem para preservar a integridade e a segurança. Um álibi que limpa toda e qualquer forma de consciência e do qual o profissional acaba se convencendo.
Tudo isso gera situações conflituosas dentro da instituição, que reage com a estereotipia – sua principal forma de defesa – e que tende a restringir e uniformizar seus membros. A homogeneização, no fundo, facilita o controle.
Favorecer a dependência complica a relação entre o profissional e os idosos.
Quanto mais os membros da instituição, sejam eles profissionais ou as pessoas idosas, forem dependentes por estrutura de personalidade ou por fragilidade física, mais tenderão à regressão e à dependência.
Mas, quando se favorece a dependência, aumentam proporcionalmente as exigências, as frustrações, os atos de ingratidão e as situações persecutórias nas relações entre idosos e profissionais.
No momento em que o profissional se aproxima das pessoas que vivem nesse estado de dificuldade, mesmo com a intenção de melhorar ou superar essa situação, é necessário — antes de tudo — que se “tenha consciência” do outro e que se procure dar um sentido a certos comportamentos dele.
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- O idoso é um cidadão portador de direitos
- O papel (fundamental) da formação
- A abordagem da demência: entre despersonalização e incompreensão
- Entre rejeição e compaixão: mas o idoso percebe tudo
- Formas de contenção e álibis
- Favorecer a dependência complica a relação entre o profissional e os idosos.
- Quer transformar a forma como cuida de pessoas idosas com demência?
A contenção do idoso com demência às vezes parece ser o único caminho para garantir a segurança. Mas será que é realmente assim? Ou trata-se, talvez, de um álibi enraizado em estereótipos e pressupostos culturais ligados à velhice? A reflexão de Mauro Cauzer sobre a abordagem atual, que privilegia apenas os aspectos assistenciais, sugere um modo de cuidado capaz de honrar a dignidade humana e os direitos das pessoas idosas.
Por: Mauro Cauzer, psicoterapeuta
Artigo Revista Cura.
Tradução: Aline Salla
A ideia de que as pessoas idosas não têm mais nada a oferecer e de que são um peso econômico para as gerações mais jovens está baseada no estereótipo segundo o qual as contribuições à sociedade são feitas apenas por indivíduos inseridos no sistema macroeconômico — ou seja, aqueles que ainda podem ser considerados força de trabalho disponível no mercado. Como a capacidade de produzir força de trabalho declina com a idade, os idosos passam a ser vistos como inúteis.
O idoso é um cidadão portador de direitos
Para sair desse impasse ideológico, é preciso deixar de considerar o idoso exclusivamente como uma categoria a ser protegida por meio de direitos especiais, e reconhecê-lo como um cidadão portador de direitos, em igualdade com todos os demais cidadãos do mesmo Estado. E, enquanto cidadão — e não uma espécie protegida — a pessoa idosa pode continuar a atuar dentro daquela mesma sociedade na qual foi ativo e participante do mundo produtivo, e na qual ainda pode representar um recurso, desde que se estabeleça — ou melhor, se restaure — “uma nova cultura do envelhecimento”.
Para além dos estereótipos…
Se o idoso saudável já não é mais considerado parte ativa pela sociedade capitalista, o que dizer então daqueles idosos colocados em instituições residenciais popularmente chamadas de “casas de repouso”, onde o termo “repouso” é sinônimo de inatividade, ou seja, inação, inércia, incapacidade de decisão?
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Para alcançar objetivos concretos e combater tais estereótipos, essa nova cultura do envelhecimento precisa adentrar todos os espaços da sociedade e tornar-se, ao mesmo tempo, formação contínua de todos os indivíduos — em especial dos profissionais da geriatria — que estão em contato constante com pessoas idosas e frágeis.
O papel (fundamental) da formação
A função desses profissionais é fundamental nas situações em que os usuários se encontram em condição de dependência e vulnerabilidade. As dificuldades de realizar com constância, competência e profissionalismo o trabalho com pessoas idosas evidenciam a importância de dois pontos fundamentais:
-
uma preparação técnico-profissional sólida e qualificada;
-
uma formação voltada ao desenvolvimento de uma capacidade específica de interação com o idoso, que privilegie o aspecto afetivo-relacional como instrumento de comunicação interpessoal.
A abordagem da demência: entre despersonalização e incompreensão
Na sociedade atual, observa-se pouca consideração pelo valor humano, pelos valores e pelos direitos das pessoas idosas, em particular daqueles que apresentam certo grau de deterioração, que são (ou deveriam ser) iguais aos dos outros. Por exemplo, na presença de pessoas com demência, frequentemente se assiste a uma abordagem dos profissionais que privilegia os aspectos meramente assistenciais e tende a despersonalizar como paciente. De fato, dá-se muita importância ao cumprimento das funções assistenciais (manutenção da higiene, alimentação, terapia medicamentosa administrada segundo esquemas pré-estabelecidos), mas não se preocupa em estabelecer uma relação com a pessoa com demência.
Na verdade, suas manifestações emocionais e afetivas não são vistas como tentativas de comunicação, mas sim como sintomas de um “emburrecimento”. Consequentemente, qualquer tentativa de expressar necessidades, sentimentos ou experiências — ainda que de forma atrapalhada e distorcida devido à deterioração orgânica — costuma se manifestar por meio de comportamentos que o profissional pode interpretar como agressivos. Essas expressões são então reprimidas, com o uso de terapias sedativas.
Entre rejeição e compaixão: mas o idoso percebe tudo
De forma geral, pode-se afirmar que o ambiente ao redor é pouco sensibilizado para perceber as necessidades dessas pessoas, para captar sua insegurança e sua fragilidade física e psíquica. Nota-se uma atitude de distanciamento que, às vezes, chega à rejeição e — na melhor das hipóteses — à compaixão, justamente por causa da incompreensão que se instala entre as gerações mais jovens e os idosos. Estes últimos percebem essa atmosfera e, como forma de defesa, acabam se retraindo, se isolando, recusando qualquer tipo de relação.
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Nos piores casos, infelizmente, recorre-se indiscriminadamente às faixas de contenção e às mesinhas acopladas às cadeiras, às portas trancadas, à superdosagem de medicamentos. Esses comportamentos tornam-se habituais e são disfarçados com a justificativa de que servem para preservar a integridade e a segurança. Um álibi que limpa toda e qualquer forma de consciência e do qual o profissional acaba se convencendo.
Tudo isso gera situações conflituosas dentro da instituição, que reage com a estereotipia – sua principal forma de defesa – e que tende a restringir e uniformizar seus membros. A homogeneização, no fundo, facilita o controle.
Favorecer a dependência complica a relação entre o profissional e os idosos.
Quanto mais os membros da instituição, sejam eles profissionais ou as pessoas idosas, forem dependentes por estrutura de personalidade ou por fragilidade física, mais tenderão à regressão e à dependência.
Mas, quando se favorece a dependência, aumentam proporcionalmente as exigências, as frustrações, os atos de ingratidão e as situações persecutórias nas relações entre idosos e profissionais.
No momento em que o profissional se aproxima das pessoas que vivem nesse estado de dificuldade, mesmo com a intenção de melhorar ou superar essa situação, é necessário — antes de tudo — que se “tenha consciência” do outro e que se procure dar um sentido a certos comportamentos dele.
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Ótimo