Artigo em parceria com: Letizia Espanoli – Sente-mente® e
Aline Salla – Revista Cuidar.
Publicado em 21/08/2025
No universo do cuidado, especialmente quando falamos de pessoas que vivem com demência — e também daquelas que não vivem, a palavra dignidade não é um detalhe – é um pilar, uma âncora, uma bússola.
Mas o que significa, de fato, cuidar com dignidade?
Significa ir além de suprir necessidades básicas. É um compromisso ético profundo com a individualidade, a autonomia e a presença da pessoa – mesmo quando a memória falha, mesmo quando as palavras parecem desaparecer.
E aqui vem a provocação: se você estivesse vivendo em uma ILPI, se fosse acompanhado ao banheiro por alguém que deixa a porta aberta, exposto aos olhares de desconhecidos, como se sentiria?
Reconhecido como pessoa ou reduzido a um corpo a ser higienizado?
A porta da dignidade: um gesto que fala mais do que palavras
Um gesto simples, quase invisível, pode revelar a grandeza ou a falha do nosso cuidado: fechar a porta.
Em algumas ILPI, muitas vezes pela pressa, pela rotina ou pela falta de tempo, a porta do quarto ou do banheiro permanece aberta. Parece detalhe, mas não é. Uma porta aberta nesse contexto é:
-
um limite violado,
-
uma intimidade traída,
-
uma dignidade comprometida.
O Modelo Sente-Mente®, por meio das reflexões de Letizia Espanoli, nos lembra: a dignidade não é opcional, não é luxo. É o coração pulsante do cuidar.
Fechar a porta não é técnica, é ética. É declarar silenciosamente:
“Eu respeito você. Eu reconheço você. Você ainda está aqui.”
Quando, ao contrário, a porta fica aberta, a mensagem é dura e desumanizadora:
“Sua intimidade não importa. Você é uma tarefa, não uma pessoa.”
E atenção: essa mensagem não fere apenas o residente. Ela fere também a nossa identidade profissional. Porque toda vez que escolhemos a pressa em vez do respeito, empobrecemos o valor do nosso trabalho e deixamos de honrar aquilo que nos fez escolher o cuidado como missão.
A ciência confirma: dignidade é biológica
A pesquisa é clara.
-
O senso de dignidade nasce do ser reconhecido como indivíduo, não como número.
-
Pessoas com demência, mesmo nas fases avançadas, sentem: percebem o tom de voz, a postura, o respeito (ou a falta dele).
-
As neurociências afetivas mostram que o cérebro registra sinais de respeito ou de violação mesmo sem palavras.
-
A psicologia da consciência, como ensina Ellen Langer, alerta: viver no piloto automático é matar a vitalidade. É roubar vida, em vez de oferecê-la.
Fechar a porta é, portanto, mais que cuidado. É neurociência aplicada ao respeito.
Do “para” ao “com”: a revolução silenciosa
Essa discussão da porta nos leva a uma questão ainda maior: quantas decisões tomamos, todos os dias, no lugar das pessoas que acompanhamos?
-
A que horas acordam.
-
O que comem.
-
Onde passam o tempo.
Sabemos que não é por maldade. É pela rotina, pela logística, pelos turnos. Mas o risco é gigante: transformar a pessoa em espectadora passiva da própria vida.
O Modelo Sente-Mente® propõe uma mudança revolucionária: sair do cuidado centrado na pessoa e evoluir para o cuidado guiado pela pessoa.
👉 No primeiro, ela está no centro, mas ainda somos nós que decidimos.
👉 No segundo, ela conduz — não apenas com palavras, mas com gestos, reações, expressões, olhares.
É a passagem do fazer para ao fazer com.
Pequenos gestos, grandes revoluções
Você pode estar pensando: “Mas como aplicar isso no dia a dia já tão cheio de demandas?”.
A resposta está nos pequenos gestos conscientes, que não custam nada além de atenção e respeito:
Para o cuidador individual
-
Pare um instante antes de agir.
-
Pergunte a si: “Isso respeita a vontade dele/dela?”
-
Observe: um músculo relaxado, um sorriso, um incômodo. O corpo fala.
-
Compartilhe: registre nas anotações de plantão, conte à equipe.
-
Feche a porta sempre.
-
Peça permissão: olhe nos olhos, explique o que vai fazer. Mesmo que você ache que a pessoa “não entenda”, faça. O gesto fala mais que as palavras.
Para a reunião de equipe
-
Reflitam juntos: em quais momentos sacrificamos dignidade pela pressa?
-
Listem pequenos gestos para devolver respeito (fechar portas, usar o nome da pessoa, pedir consentimento).
-
Escolham um compromisso coletivo para colocar em prática já.
O poder de FECHAR portas e de ABRIR as certas
As portas que queremos abertas são as dos portões das instituições, dos muros das ILPI, das barreiras que separam a sociedade da velhice e das pessoas que convivem com a demência.
Mas as portas que devemos fechar são aquelas que protegem a intimidade – como as do banheiro ou do quarto quando nele ocorre um cuidado íntimo, como a troca de fraldas ou o banho no leito.
É importante reconhecer: para muitos residentes, especialmente os acamados, o quarto também é espaço de socialização, de receber visitas, de compartilhar momentos com colegas. Nesses instantes, ele deve estar aberto, cheio de vida.
Mas quando a vulnerabilidade está exposta, o quarto se transforma em um espaço de privacidade. E é nossa responsabilidade ética garantir que esse espaço seja protegido.
Fechar essas portas não isola: protege.
É nesse gesto que mostramos quem realmente somos como cuidadores.
A verdadeira profissionalidade: poder “com” os outros
A cura evoluída, aquela que as ILPI precisam encarnar, não é exercer poder sobre alguém.
É compartilhar poder com ele.
Não é pilotar o navio sozinhos. A pessoa continua sendo o leme da própria vida. Nós somos a tripulação – atentos, respeitosos, prontos a apoiar a rota que ela indica.
Cada porta fechada, cada olhar oferecido, cada palavra respeitosa é um tijolo na construção da humanidade dentro das ILPI.
E se fosse você?
Voltemos à pergunta inicial:
Se fosse você no banheiro, com a porta aberta, como se sentiria?
A revolta que você sente agora é a energia que pode transformar o cuidado. Porque a dignidade não é luxo. É essência.
O verdadeiro CUIDAR é isso: não retirar da pessoa o poder de existir, mas devolver-lhe, a cada gesto, o direito de ser protagonista.
Então, leitor da Revista Cuidar, eu lhe pergunto:
Você está pronta(o) para se juntar à tripulação que escolhe fechar portas de privacidade e abrir portas de humanidade?
Esse é o convite. Essa é a revolução silenciosa que pode – e deve – começar hoje, em cada ILPI, no Brasil e no mundo. Somar com as vozes que atuam com responsabilidade.
3 Comments
O que você achou do artigo? Deixe um comentário!

Encontro Nacional dos Profissionais de Cuidar
Atua em ILPI?
Quer vivenciar uma jornada formativa em um formato inédito no Brasil?
Estamos chegando!
MPC – Encontro Inovativo entre Profissionais de ILPI
Dias 01 e 02 de outubro – Saiba mais clicando aqui.
A vida de cada pessoa idosa e de cada pessoa que cuida nas ILPI – importa.
CATEGORIAS
Eventos e cultura
3 Comments
-
Texto perfeito, de uma sabedoria e de uma sensibilidade maravilhosas.Tudo que sempre preconizei, e tudo que falta em todas as instituições, privadas ou públicas, e não somente com os idosos vulneráveis, mas com qualquer idoso, qualquer paciente, qualquer ser humano que dependa do outro.
-
Excelente texto para reflexão. Presto serviço em ILPIS e com frequência vivencio essa situação de portas abertas quando deveriam ser fechadas em respeito à privacidade.
-
-
Muito bom, é um problema que acontece diariamente nas IlPIs e passa como procedimento NORMAL, porque é considerado que a maioria dos residentes não percebem que estão sendo vistos em sua intimidade.











Texto perfeito, de uma sabedoria e de uma sensibilidade maravilhosas.Tudo que sempre preconizei, e tudo que falta em todas as instituições, privadas ou públicas, e não somente com os idosos vulneráveis, mas com qualquer idoso, qualquer paciente, qualquer ser humano que dependa do outro.
Excelente texto para reflexão. Presto serviço em ILPIS e com frequência vivencio essa situação de portas abertas quando deveriam ser fechadas em respeito à privacidade.
Muito bom, é um problema que acontece diariamente nas IlPIs e passa como procedimento NORMAL, porque é considerado que a maioria dos residentes não percebem que estão sendo vistos em sua intimidade.