Você está prestes a ler o texto da nossa newsletter mensal, editado por GIULIA DAPERO, traduzido e adaptado por ALINE SALLA. Na última sexta-feira de cada mês, divulgamos uma reflexão filosófica para os leitores da Revista Cuidar.

Na newsletter de junho, falamos sobre os “números zero”.

Era uma ideia que me rondava há pelo menos dois anos, mas eu ainda não tinha tido coragem de colocar no papel o que sentia – e muito menos de compartilhar isso com outras pessoas.

Disse que quem se sente um número zero não está na “cabeça” como os números um. Está no meio.

Era uma maneira um pouco extravagante de dizer que nós, números zero, encontramos mais alegria no tempo dedicado às relações. Tentamos andar pelo mundo com leveza, afinando o ego, cuidando para não pesar demais sobre o que nos cerca.

Não escrevi isso antes por várias razões.

Uma delas é que minha parte prática sempre hesita diante de ideias que correm o risco de virar só palavras soltas.

Você pode até se sentir um número zero e, com sorte, cruzar pelo caminho outras almas parecidasmas como lidar com o fato de que o mundo gira em sentido contrário? Que a lógica econômica em que todos vivemos pouco tem a ver com esse modo de ser?

Para me consolar, este mês revisitei alguns estudos antigos, e me lembrei da “economia do dom (do presente)”.

Quando falamos de CUIDAR ou de filosofia, tudo pode parecer belo, mas também abstrato e difícil de colocar em prática. Porém, quando surge a palavra “economia”, o clima muda.

Calma, não vou escrever um tratado sobre isso – até porque não sou capaz, mas quero dividir algumas reflexões sobre o dom(presente).

Julho de CUIDAR

Quero fazer isso porque cada artigo deste mês me parece, antes de tudo, um presente. Uma oferta feita por quem escreve, para alguém que pode estar se sentindo sozinho na própria situação.

Um presente para quem?

Para quem se debruça sobre os desafios éticos de uma ILPI, como no texto da Karla Giacomin “Além dos muros: lar ou prisão?”.

Para quem viu a casa deixar de ser um lugar seguro, como nos relatos de Ana Paula e Virgílio Garcia “Quando a casa deixa de ser segura”.

Para quem já passou a noite em uma ILPI e sentiu na pele a solidão institucional, como conta Mariana Tessarolo “Uma noite na ILPI”.

Para quem enfrenta surtos, epidemias e falhas na prevenção, como alerta Paulo Villas Bôas “Gripe em 2025: a tempestade que podemos evitar nas ILPI”.

Para quem sente o peso das normas mal compreendidas, como bem questiona “Empurrando a pedra da RDC 502/21”.

Ou para quem acredita que cuidar é mais que cumprir procedimentos, como escreve Thaís Teixeira em “O cuidado em Humanitude”.

Esses são alguns dos últimos textos publicados. Eles são presentes porque olham o outro com profundidade, porque se colocam no lugar de quem vive essas dores. Muitas vezes, o que é oferecido por quem escreve ou se expõe é justamente isso: uma janela aberta sobre o próprio sofrimento.

E a verdade é que a lógica do mercado não se dá muito bem com feridas abertas. Afinal, quem vai querer consumir o tempo todo depois de olhar para o que realmente importa?

Mas quando alguém deixa de silenciar a própria dor, muitas vezes oferece a outras pessoas a chance de se reconhecerem naquelas palavras. De se sentirem parte. De se abrirem também. Ou melhor: de seguirem juntas.

O poder generativo do dom (presente)

Essa é a força generativa do dom.

E atenção: isso não é uma versão disfarçada de escambo. O presente não é dado esperando algo em troca. Ele é gratuito. É livre. Não exige proporção. E o que mais se fortalece em um sistema baseado na lógica do dom? A confiança entre as pessoas, os laços sociais.

Ficamos mais tranquilas ao perceber que existem economistas discutindo justamente isso. E que muitos setores da nossa sociedade não funcionam bem porque estão mergulhados em uma estrutura econômica que não foi feita para eles.

E o CUIDAR?

Pois é. Não há dúvida: o campo do CUIDAR é um desses.

Talvez valha repetir: cuidar é um bem relacional. Seu valor não se mede em produtividade, mas na qualidade da relação entre quem cuida e quem é cuidado.

Queridos números zero – aqueles que são mais felizes no tempo dedicado à escuta, à companhia e à presença – não é a gente que está errado. É o sistema que se contradiz.

Ele afirma que “o tempo da relação é tempo de cuidado”, como reconhecem os códigos de ética e até a legislação brasileira. Mas continua cronometrando nossa atuação, como se cuidar fosse só tarefa com hora marcada.

Nosso convite é simples: valorize o presente. Valorize o tempo. Valorize o CUIDAR.

E lembre-se: mesmo silencioso, o número zero está bem no centro da linha, ligando tudo ao seu redor.

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