Há semanas em que o mundo parece testar nossa fé.
Esta foi uma delas. E ao mesmo tempo, foi uma das semanas mais bonitas que vivemos desde que a Revista CUIDAR existe.
Deixa a gente contar o que aconteceu de verdade.
Não vão mexer com os lares coletivos de pessoas idosas enquanto estivermos aqui.
Quando a reportagem da Folha de São Paulo evidenciou o que estava acontecendo na Lapa, nós, em resposta, publicamos o artigo “Quando o bairro não quer os velhos”, em colaboração com o professor Alexandre Kalache nas redes, e milhares de pessoas pararam o que estavam fazendo para ouvir. Gerontólogos, geriatras, cuidadores, familiares, gestores. E cidadãos que nunca tinham parado para refletir sobre as ILPI e que, depois de saber o que estava acontecendo, sentiram que precisavam fazer algo.
Mas o que nos tocou de verdade não foram os números.
Foi o que aconteceu longe deles.
Silenciosamente, sem buscar holofotes, profissionais de todo o Brasil começaram a se mover. A se encontrar. A construir, juntos, uma resposta que não coube em nenhum reel. Pessoas emprestando seu conhecimento sem pedir crédito. Entidades do setor se posicionando. Ativistas da longevidade que carregam essa causa há décadas, antes de qualquer holofote, somando forças com quem chegou mais recentemente mas chegou de verdade.
Muitos nomes, alguns conhecidos, outros completamente anônimos, disseram a mesma coisa de formas diferentes:
Não vão mexer com os lares coletivos de pessoas idosas enquanto estivermos aqui.
Existe um tipo de pessoa que sente o mundo de forma diferente.
Não é fraqueza. Não é ingenuidade. É uma forma de perceber o que os outros ainda não viram, de sentir o que os outros ainda não nomearam. No setor do cuidado, essas pessoas são maioria. Não por acaso. Quem escolhe acompanhar a velhice, a fragilidade, a dependência, em geral carrega consigo uma forma de estar no mundo onde o outro importa antes de qualquer resultado.
Durante muito tempo, essa sensibilidade foi tratada como excesso. Como algo a ser administrado, direcionado para onde fosse mais útil ao sistema. E o sistema do cuidado aprendeu a fazer isso muito bem: coloca quem sente fundo nos lugares de maior desgaste, absorve o que essa pessoa tem de melhor, e raramente pergunta como ela está.
A gestora de ILPI que resolve sozinha o que deveria ter rede. O cuidador cuja profissão, em pleno 2026, ainda aguarda regulamentação definitiva no Brasil, como se o ato de cuidar precisasse provar que merece existir. O gerontólogo que pesquisa durante anos e vê seu trabalho ser ignorado enquanto influenciadores sem formação falam sobre envelhecimento com milhares de seguidores. A família que tomou uma decisão difícil e carrega uma culpa que ninguém precisava colocar nela.
Essas pessoas existem aos milhares. E na maior parte do tempo, existem em silêncio.
A Vida do Número Zero
Nossa co-fundadora Giulia Dapero, chama essas pessoas de números zero.
O zero não está no topo. Está no centro, exatamente onde os negativos encontram os positivos, onde o que foi perdido começa a ser recomposto. Não faz alarde. Não almeja o pódio. Segura a rede para que outros não caiam.
O setor do cuidado é feito, em sua grande maioria, de números zero. A cuidadora que acorda às cinco da manhã e chega sorrindo na ILPI porque sabe o quanto aquele sorriso importa para quem a espera. O fisioterapeuta que repete o mesmo exercício com a mesma paciência, dia após dia, sem câmera nenhuma apontada para ele. A assistente social que acompanha uma família em luto dentro de uma ILPI, sem holofote, mas mudando tudo.
Se você trabalha nesse universo, existe uma boa chance de que você seja um número zero. E esta semana nos mostrou que somos muitos. Muito mais do que a narrativa do escândalo, que só enxerga o setor quando há crise, nos faz perceber.
Toda causa que ganha visibilidade atrai diferentes formas de presença.
Há quem enxergue no momento uma oportunidade de aparecer vinculado a algo que está em evidência. Não necessariamente por maldade. Muitas vezes por um reflexo cultural que a nossa sociedade construiu durante décadas: o de que visibilidade é sinônimo de relevância, e que quem chega primeiro tem mais direito de falar.
E há quem já estava antes. Quem vai continuar depois. Quem não precisa do holofote para saber por que está aqui.
O envelhecimento não pode ser tratado como oportunidade de palco. Ele é grande demais, urgente demais, humano demais para isso. O que o Brasil precisa não é de salvadores. Precisa de pessoas que sabem trabalhar em rede, que entendem que a soma de muitos silêncios comprometidos vale mais do que o barulho de uma voz sozinha. Que as divergências podem ser colaborativas, ancoradas na ciência, e sempre a serviço de quem mais precisa.
Há uma história que nos ajuda a entender onde estamos.
Em 1973, a crise do petróleo forçou o mundo a levar a sério o que vozes sensíveis já diziam havia muito tempo. Não porque o mundo tivesse se tornado mais ético de repente. Porque ficou conveniente escutar. As vozes estavam lá antes. O que mudou foi o custo do silêncio.
O envelhecimento populacional no Brasil não é mais uma projeção. É presente. E o custo de ignorar esse universo está ficando alto demais para ser ignorado por muito mais tempo. O que hoje ainda parece utopia, a cultura do cuidar como valor central da nossa sociedade, vai se tornar conveniência. A questão é o que construímos antes que a urgência force a decisão por nós.
Mexeu com uma ILPI, mexeu com todos.
Quando uma ILPI é ameaçada, não é só aquela instituição que está em jogo. São as mais de 160 mil pessoas idosas que vivem em ILPI no Brasil. São os trabalhadores que sustentam esse sistema. São as famílias que fizeram escolhas difíceis e amorosas. É o campo científico da gerontologia e da geriatria. É a lei, que garante direitos e precisa ser respeitada. E é, no fundo, cada um de nós, que vai envelhecer, que já envelhece desde que nasceu, e que um dia vai precisar que alguém segure a rede.
A Revista CUIDAR vai continuar aqui. Compartilhando boas práticas. Dando voz a quem não busca holofotes. Sendo ponte entre as instituições brasileiras e a experiência de um dos países mais velhos do mundo, a Itália, onde o cuidado ao idoso já enfrentou os desafios que o Brasil está começando a viver agora. Somos a primeira revista nacional dedicada integralmente ao universo das ILPI, e isso não é um detalhe. É uma missão.
Uma missão que se realiza em duas direções ao mesmo tempo. De um lado, reunimos renomados profissionais nacionais e internacionais, pesquisadores, geriatras, gerontólogos, especialistas que constroem o conhecimento que o setor precisa. Do outro, abrimos espaço para quem atua no dia a dia, o cuidador, o gestor, o fisioterapeuta, o assistente social, a nutricionista, a enfermeira, e toda equipe, porque quem está dentro das ILPI todos os dias também tem muito a ensinar, e essa voz merece o mesmo espaço, a mesma dignidade, o mesmo respeito.
Contamos o mundo das ILPI através das palavras das pessoas que vivem nelas. E seguimos sendo o que sempre fomos desde o início: uma ponte. Entre o conhecimento e a prática. Entre o Brasil e o mundo. Entre quem cuida e quem precisa ser cuidado.
E em outubro, essa conexão vai ter um endereço.
Nos dias 1 e 2 de outubro de 2026, nas Chácaras Viva Águas Claras, em São José do Rio Preto, acontece o Meeting dos Profissionais de Cuidar – MPC Brasil. Um encontro que nasce exatamente dessa crença: que quem cuida precisa ser cuidado. Que quem segura a rede precisa, de vez em quando, sentir que a rede também o sustenta.
O MPC não é um congresso. É um espaço de imersão, de troca verdadeira, de encontro entre pessoas que vivem esse universo todos os dias e que raramente têm lugar para falar sobre como estão. A programação mergulha no que mais importa: a vulnerabilidade como ponto de partida, as doenças neurodegenerativas no cotidiano das ILPI, o fim de vida com dignidade, a saúde mental de quem cuida, a qualidade institucional que vai além dos protocolos. E a plenária de encerramento que nos lembra que somos colmeia, que o verdadeiro animal não é a abelha, mas a colmeia inteira.
E pela primeira vez, profissionais de ILPI públicas, privadas e filantrópicas vão estar juntos no mesmo ambiente, dividindo o mesmo microfone, com o mesmo peso e a mesma importância.
Porque o cuidado não tem CNPJ preferido. E quem cuida merece o mesmo espaço, independente de onde cuida.
As tarifas promocionais vão até junho. Você encontra todas as informações em revistacuidar.com.br/mpc.
Quem cuida merece ser cuidado. Quem defende o cuidado merece ser defendido.
Beauvoir dizia que a forma como uma sociedade trata seus velhos revela quem ela é. Kalache lembra que envelhecer é o único destino certo que temos, desde que nascemos.
Nós sabemos disso. E por isso estamos aqui, construindo juntos, com raízes fincadas, sem precisar de holofote para continuar.
E ninguém aqui está sozinho.
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Encontro Nacional dos Profissionais de Cuidar
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MPC – Encontro Inovativo entre Profissionais de ILPI
Dias 01 e 02 de outubro – Saiba mais clicando aqui.
A vida de cada pessoa idosa e de cada pessoa que cuida nas ILPI – importa.
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A importância do trabalho dos profissionais do cuidado em ILPIs que muitas vezes são percebidos e sentidos somente por quem é cuidado, pois não estão sob e nem em busca de holofotes. Trabalho desenvolvido no silêncio da rotina de uma instituição, que também representa conhecimento e que nem sempre encontra espaço para colaborar com melhor prática de cuidado.
Excelente!












A importância do trabalho dos profissionais do cuidado em ILPIs que muitas vezes são percebidos e sentidos somente por quem é cuidado, pois não estão sob e nem em busca de holofotes. Trabalho desenvolvido no silêncio da rotina de uma instituição, que também representa conhecimento e que nem sempre encontra espaço para colaborar com melhor prática de cuidado.
Excelente!