Por Eliane Kreisler, em reflexão com Aline Salla
Era quase meio-dia quando Dona Conceição, 84 anos, pediu que a cuidadora esperasse um momento. Com as mãos levemente trêmulas, ela foi até o peitoril da janela do seu quarto e regou a samambaia que havia ganhado da filha no dia em que chegou à ILPI. Aquele gesto silencioso, repetido toda manhã desde então, era mais do que um hábito. Era o fio que a conectava à vida.
Histórias como a de Dona Conceição existem em cada instituição de longa permanência para idosos do Brasil. Mas nem sempre são reconhecidas como o que de fato são: expressões vivas de propósito.
Quando se fala em propósito, ainda é comum associá-lo à produtividade, ao trabalho ou à capacidade de planejar o futuro. Mas essa visão exclui justamente quem mais precisa dele: pessoas que vivem em ILPI, com diferentes níveis de autonomia, fragilidade ou que convivem com a demência. A pergunta que se impõe não é se elas têm propósito, mas se ainda somos capazes de reconhecê-lo, sustentá-lo e respeitá-lo.
Porque propósito não desaparece com a mudança de endereço, com a perda de papéis sociais ou com o avanço da idade. Ele apenas muda de linguagem.
Propósito não é desempenho, é vínculo com a vida
Ao longo da vida, o propósito costuma se expressar por escolhas, projetos e conquistas. Na velhice, especialmente em contextos institucionais, ele se manifesta de outra forma: no pertencimento, na rotina com significado, na relação com o outro e na possibilidade de ainda importar.
Isso não é metáfora. A ciência confirma. Estudos longitudinais apontam que o senso de propósito está associado a desfechos positivos de saúde física e mental em pessoas idosas. Uma pesquisa publicada na revista Psychosomatic Medicine (Boyle et al., 2009), com mais de 1.200 participantes acompanhados por até cinco anos, mostrou que aqueles com maior senso de propósito apresentaram risco de mortalidade significativamente menor – com razão de risco de 0,60. Outra revisão sistemática publicada na International Journal of Environmental Research and Public Health (AshaRani et al., 2022) identificou que propósito está associado a menor risco de doenças crônicas, menor incidência de depressão e maior longevidade. Ter um propósito não é um algo extra ou um ‘adicional’ ao cuidado; é uma necessidade humana fundamental.
Para uma pessoa idosa moradora de uma ILPI, propósito pode ser:
- cuidar de uma planta,
- esperar por um café preparado do seu jeito,
- participar de uma roda de conversa,
- cantar uma música conhecida,
- ser chamada pelo nome,
- sentir-se útil ao ajudar alguém,
- manter um hábito que atravessou a vida.
Esses gestos, muitas vezes pequenos aos nossos olhos, são âncoras de sentido. São eles que sustentam o elo entre a pessoa e o mundo, entre o passado que a formou e o presente que ainda a abriga.
Autonomia não é tudo, mas dignidade é sempre
Mesmo pessoas idosas com boa autonomia funcional podem experimentar um profundo esvaziamento de sentido ao ingressar em uma ILPI. A perda do lar, da rotina anterior e da identidade construída ao longo de décadas pode gerar luto, silêncio e retraimento. Há quem chegue à instituição ainda capaz de caminhar, cozinhar, conversar e ainda assim se pergunte, todas as manhãs, para que está acordando.
Nesse contexto, propósito não nasce de grandes atividades, mas da escuta e da personalização do cuidado. Respeitar escolhas simples: horário, roupas, preferências, histórias é uma forma concreta de sustentar o sentido de vida. Quando uma pessoa idosa pode escolher o que vai vestir, quando pode dizer que prefere o chá ao café, quando pode recusar uma atividade que não lhe agrada, ela está exercendo algo muito mais profundo do que uma preferência: está afirmando que ainda existe.
Uma revisão publicada na Ageing International (Pinquart, 2002), que sintetizou dados de 70 estudos, identificou que propósito de vida está fortemente associado à qualidade das relações sociais e ao bem-estar psicológico e que seu declínio tende a ser mais acentuado em contextos de maior isolamento. Isso coloca a ILPI diante de uma responsabilidade concreta: não apenas cuidar do corpo, mas sustentar os vínculos que mantêm o sentido de viver.
Autonomia não é apenas capacidade física ou cognitiva. É também sentir que ainda se tem voz. E voz, em uma ILPI, começa na escuta de quem cuida.
Cuidar com presença e não apenas com procedimentos é o que transforma uma instituição em um lugar onde ainda vale a pena estar. A diferença entre uma rotina que apaga e uma rotina que sustenta está, muitas vezes, em detalhes que só aparecem quando alguém realmente olha para a pessoa que está à sua frente.
E quando há demência? O propósito não some, ele muda de lugar
Talvez o maior equívoco seja acreditar que pessoas que convivem com a demência perdem seu propósito. O que se perde, muitas vezes, é a forma tradicional de expressá-lo – não a necessidade de sentido.
Mesmo quando a memória falha, permanecem as emoções, as sensações, os afetos, os padrões de identidade e as respostas ao cuidado recebido. O Seu Antônio pode não saber o nome da cuidadora que o ajuda todas as manhãs. Mas seu corpo relaxa quando ela entra no quarto, porque reconhece o cuidado antes mesmo de reconhecer a pessoa.
Estudos na área de musicoterapia e neurociência demonstram que pessoas que convivem com a demência respondem positivamente a estímulos significativos. Uma revisão publicada na Frontiers in Medicine (Ray & Götell, 2018) mostrou que intervenções com música familiar reduziram sintomas depressivos em moradores com demência moderada a grave, com melhora significativa do bem-estar. Uma revisão de literatura conduzida pela Universidade de Pittsburgh (Coxey et al., 2021) confirmou que a música personalizada, ligada às preferências e à história de vida do morado, é uma intervenção não farmacológica eficaz para reduzir comportamentos de agitação, porque atua sobre memórias e respostas emocionais que permanecem preservadas mesmo em estágios avançados da doença.
Objetos familiares, rotinas previsíveis, toque respeitoso e relações afetivas consistentes também foram identificados como fatores protetores em estudos de cuidado centrado na pessoa, abordagem que coloca a história e a subjetividade do morador no centro das decisões clínicas e de cuidado.
Nesses casos, propósito pode estar em:
- sentir-se seguro,
- experimentar afeto,
- participar de algo coletivo,
- reviver emoções positivas,
- manter uma identidade emocional.
Cuidar com sentido é, muitas vezes, cuidar do invisível. É perceber que por trás da agitação há um pedido de presença. Que por trás do silêncio há uma história que ainda importa. Que uma mão que segura outra mão pode ser, em determinados momentos, o maior ato terapêutico de todo o dia.
O papel da ILPI: mais que cuidado, sustentação de sentido
Uma ILPI não é apenas um espaço de assistência. Ela pode (e deve) ser um território de continuidade de vida. Isso exige uma mudança de olhar: sair do modelo centrado apenas em rotinas e protocolos e avançar para um cuidado que reconheça histórias, trajetórias e subjetividades.
Esse deslocamento não é simples. Requer formação continuada das equipes, revisão dos processos institucionais e uma cultura organizacional que coloque a pessoa e não apenas o protocolo no centro das decisões. Mas os efeitos dessa transformação são concretos e mensuráveis: moradores mais engajados, famílias mais confiantes, equipes mais satisfeitas.
Instituições que trabalham com esse enfoque:
- valorizam a biografia do morador, compreendendo que quem ela foi importa tanto quanto o que ela precisa hoje;
- estimulam pequenas escolhas diárias, devolvendo à pessoa o controle sobre detalhes da própria vida;
- promovem vínculos entre moradores e equipe, construindo relações que vão além da tarefa;
- reconhecem familiares como parte da rede de sentido, não apenas como visitantes;
- compreendem que propósito também se constrói no presente, mesmo sem futuro planejado.
Propósito não é um projeto especial de fim de semana. É uma postura diária, construída em cada interação, em cada palavra dita com cuidado, em cada momento de presença genuína.
Para quem cuida: propósito também protege
Cuidar de pessoas idosas, especialmente em contextos de fragilidade e de convivência com a demência, é emocionalmente exigente. Quando o cuidado se reduz a tarefas, o desgaste é maior. Quando ele se conecta ao propósito de servir, acolher, preservar dignidade, o trabalho ganha outra dimensão.
A cuidadora que entende por que está ali, que percebe o impacto do seu trabalho no bem-estar de quem cuida, que consegue identificar um sorriso novo onde antes havia recusa, essa profissional tem mais recursos internos para atravessar os dias difíceis. Não porque o trabalho seja menos duro, mas porque o sentido sustenta onde a força por si só não chega.
Cuidadores que compreendem o sentido do que fazem tendem a apresentar:
- maior empatia nas interações cotidianas,
- menor esgotamento emocional ao longo do tempo,
- maior vínculo com os moradores e suas famílias,
- mais satisfação profissional e sentido de contribuição.
Propósito, aqui, não é romantização do cuidado. Não se trata de negar a dureza da profissão, os turnos longos, a escassez de recursos ou o peso emocional de acompanhar o fim da vida. É sustentação emocional real, que se constrói quando cada pessoa da equipe compreende que o seu trabalho importa e importa profundamente.
Quando quem cuida tem propósito, o cuidado que chega à pessoa idosa é diferente. Mais presente. Mais humano. Mais vivo.
Propósito até o fim da vida
Ter propósito na ILPI não significa negar a finitude, a dependência ou a dor. Significa reconhecer que a vida continua tendo valor em todas as suas fases. Que ninguém deixa de ser pessoa porque precisa de ajuda. Que o sentido não está apenas no que se faz, mas no modo como se é tratado.
A Dona Conceição que rega a samambaia todas as manhãs, o Seu Antônio que reconhece o cuidado antes de reconhecer o rosto, a moradora que aguarda a roda de canto toda terça-feira – todas essas pessoas estão dizendo, à sua maneira, que ainda pertencem ao mundo.
E cabe a cada um de nós: gestores, cuidadores, familiares garantir que essa mensagem seja ouvida.
Talvez, no fim, propósito seja isso:
sentir que ainda pertencemos,
que ainda somos vistos,
que ainda importamos.
Mesmo e especialmente
quando a vida se torna mais silenciosa.
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Muito bom, Eliane.
Assunto importantíssimo numa época em que nossa expectativa de vida está aumentada e nossa pirâmide etária demonstra claramente o aumento da proporção de idosos.
Parabéns pelo seu trabalho. -
Artigo maravilho.
Parabéns Eliane












Muito bom, Eliane.
Assunto importantíssimo numa época em que nossa expectativa de vida está aumentada e nossa pirâmide etária demonstra claramente o aumento da proporção de idosos.
Parabéns pelo seu trabalho.
Artigo maravilho.
Parabéns Eliane