Por: Letizia EspanoliSente-mente® modelo.
Artigo traduzido por: Aline Salla – autorizado para Revista Cuidar®

1. Quando uma dentadura vira uma bomba

Se você dirige ou coordena uma ILPI (Instituição de Longa Permanência para pessoas Idosas), sabe muito bem que os seus dias quase nunca explodem por grandes acontecimentos, mas por pequenos pavios: uma dentadura perdida, um casaco estragado, a segunda bateria do elevador de transferência que ninguém encontra.

A cena é clara: um familiar levantando a voz no corredor, um cuidador exausto se sentindo atacado, e você sendo chamado para “resolver a situação” enquanto sua agenda já está lotada.

Nesse exato momento, você pode escolher entre ficar preso à reatividade (“quem errou?”, “como defendo a instituição?”) ou usar a situação como um laboratório de liderança. Você não está lidando apenas com um objeto desaparecido, mas com uma mistura de emoções, interpretações e crenças que, se não forem percebidas, corroem lentamente o clima da sua unidade.

Este artigo nasce justamente para ajudar você a fazer essa mudança: desarmar a bomba transformando um episódio recorrente (“perdemos mais uma dentadura”) em um treinamento concreto de liderança adaptativa e cultura do Cuidado.

2. O que acontece no cérebro quando a dentadura desaparece

Para entender onde você pode intervir, primeiro é preciso compreender o que acontece, do ponto de vista neuropsicológico, com os diferentes envolvidos.

2.1. A onda dos 90 segundos

Sob estresse, a amígdala cerebral assume o comando: o nível de alerta aumenta, o sangue flui para as áreas responsáveis pela defesa (ataque, fuga ou paralisação) e o córtex pré-frontal — aquele de que você precisa para raciocinar, planejar e negociar — fica temporariamente “offline”.

Associação Cuidadosa

Jill Bolte Taylor nos lembra que o pico fisiológico de uma emoção intensa dura cerca de 90 segundos. Depois disso, o que mantém a emoção viva são as histórias que a mente continua repetindo.

Se você intervém nesses 90 segundos com explicações racionais (“estamos fazendo o nosso melhor”, “não é culpa nossa”), é como colocar uma tampa em uma chaleira fervendo: a pressão aumenta.

Mas, se você se permite ouvir, deixar a pessoa desabafar e nomear a emoção (“entendo que você esteja muito irritado”), você ajuda a onda emocional a baixar e cria espaço para o pensamento.

2.2. O viés da intenção negativa

Quando um cuidador diz “o senhor Rossi faz isso de propósito para nos provocar”, ele está caindo em um viés cognitivo: atribui uma intenção maldosa a um comportamento cujo significado ainda não foi explorado.

A mente cansada escolhe o atalho mais simples: “se eu estou sofrendo, alguém está fazendo isso de propósito”.

Esse viés é perigoso porque transforma uma necessidade clínica em um conflito pessoal.


2.3. As respostas automáticas ao estresse

As 4 Fs descrevem o que acontece tanto com profissionais quanto com familiares:

  • Fight (luta): ataque verbal ou físico (“vou chamar a polícia agora mesmo”).
  • Flight (fuga): afastamento (“vou embora, não quero mais falar com ninguém”).
  • Freeze (paralisação): bloqueio (“fico quieto, mas por dentro estou explodindo”).
  • Face (enfrentamento): enfrentar a situação por meio do diálogo e da busca de soluções.

Sua liderança é medida pela capacidade de conduzir as pessoas das três primeiras Fs para a quarta.

3. Da interpretação ao significado clínico

A liderança adaptativa exige que você suspenda a caça ao culpado e ative uma postura investigativa.

Quando uma dentadura desaparece ou é retirada repetidamente, as perguntas úteis são outras:

  • A prótese foi refeita recentemente? Ela pode estar causando dor, irritação ou feridas?
  • A pessoa tem histórico de hipersensibilidade sensorial ou rejeição a objetos estranhos na boca?
  • O nível de comprometimento cognitivo dificulta entender o que é a prótese (ela vê o objeto como algo solto no prato, e não como parte de si)?
  • O comportamento acontece em momentos específicos (apenas com alguns profissionais, apenas diante dos familiares, apenas durante refeições agitadas)?

Cada comportamento passa a ser visto como uma possível mensagem.

Você deixa de pensar “por que ele faz isso contra nós?” e passa a perguntar “o que ele está tentando nos comunicar?”.

Essa mudança cognitiva é o coração da liderança clínica: você impede que a narrativa emocional domine a leitura da realidade.

4. Ferramentas práticas para desarmar (e aprender)

Agora vamos aos instrumentos operacionais que você pode treinar no dia a dia.

4.1. Passo 1 – Regule o profissional, não o familiar (de imediato)

Tarefa para casa 1: no próximo episódio crítico, antes de sair para o corredor, pare por 60 segundos com o profissional envolvido.

  • Reconheça a emoção (“vejo que você está abalado/cansado/irritado”).
  • Retire a sobrecarga (“por enquanto eu converso com eles; tire alguns minutos para você”).
  • Evite fazer um debriefing no calor do momento: isso será feito depois, com mais calma.

Objetivo do exercício: treinar sua capacidade de dar segurança ao time antes de enfrentar o ambiente externo. Isso gera confiança e reduz a reatividade.


4.2. Passo 2 – Use escuta ativa com o familiar

Tarefa para casa 2: quando um familiar chegar emocionalmente carregado, comprometa-se a ser curioso e buscar os fatos:

  • faça uma pergunta aberta (“você pode me contar o que aconteceu?”),
  • espelhe uma frase-chave (“então você está me dizendo que se sente…?”),
  • nomeie a emoção (“é compreensível que você esteja muito frustrado”).

Objetivo do exercício: deslocar a interação do duelo (“quem está certo?”) para a colaboração (“como podemos enfrentar isso juntos?”).


4.3. Passo 3 – Introduza o “Diário das interpretações”

Tarefa para casa 3: em uma próxima reunião de equipe, leve um episódio concreto (a dentadura, o controle remoto, o pijama) e construa junto com os profissionais uma tabela com duas colunas:

Coluna A – Interpretações automáticas

  • “faz pirraça”,
  • “a filha é histérica”,
  • “todos estão contra nós”.

Coluna B – Hipóteses alternativas e dados observáveis

  • “retirou a prótese 3 vezes”,
  • “hoje a filha chorou enquanto falava sobre…”,
  • “o plantão estava com equipe reduzida…”.

Perguntem juntos:

  • Que decisões tomamos se permanecermos na coluna A?
  • Que possibilidades surgem quando passamos para a coluna B?

Objetivo: treinar a passagem da reação para a reflexão compartilhada, transformando o conflito em material de aprendizagem.


4.4. Passo 4 – Reformule o padrão das passagens de plantão

Tarefa para casa 4: escolha um residente considerado “difícil” e, por uma semana, proíba explicitamente expressões julgadoras nos registros e nas passagens de plantão.

Antes:

  • “faz pirraça”,
  • “é opositor”,
  • “não colabora”.

Depois:

  • “hoje recusou a prótese/procedimento X três vezes; levantamos a hipótese de…; realizamos…; vamos monitorar…”.

Ao final da semana, pergunte à equipe:

  • Mudou algo na forma como nos relacionamos com ele/ela?
  • A linguagem modificou nossa postura emocional?

Objetivo: fazer a equipe experimentar, na prática, que mudar as palavras realmente muda o cuidado.

5. Treinando sua postura de negociação

Resta um último elemento: sua capacidade de dizer não sem explodir a bomba.

Quando você não pode atender a uma solicitação (financeira, organizacional ou clínica), lembre-se de que um “não” seco é percebido como fechamento e invalidação.

A tarefa é revestir o “não” com:

  • uma motivação clara (segurança, normas, equidade para todos),
  • o reconhecimento do valor daquela solicitação para a outra pessoa (“entendo que isso seja importante para você…”),
  • pelo menos uma alternativa viável (“o que eu posso fazer é…”).

Tarefa para casa: pense no último “não” que você deu a um familiar ou profissional. Reescreva-o no papel seguindo esses três pontos. Depois, use essa nova versão na próxima oportunidade.

6. Uma pergunta final para você

Cada dentadura perdida, cada objeto desaparecido, cada conflito no corredor coloca você diante da mesma escolha: permanecer no circuito reativo (culpa, defesa, julgamento) ou usar o episódio como uma academia para treinar a si mesmo, a equipe e as famílias a viver as crises de outra maneira.

A pergunta com a qual eu deixo você é simples, mas exigente:

Qual das tarefas deste artigo você escolhe praticar na próxima semana?

Não todas ao mesmo tempo.

Apenas uma — feita bem.

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2 Comments

  1. Raquel 20/05/2026 at 07:38 - Reply

    Excelente!!!

  2. Vania guelfi 20/05/2026 at 09:58 - Reply

    Muito bom, vou ler com a equipe.

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2 Comments

  1. Raquel 20/05/2026 at 07:38 - Reply

    Excelente!!!

  2. Vania guelfi 20/05/2026 at 09:58 - Reply

    Muito bom, vou ler com a equipe.

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