Nota Editorial: É com profundo reconhecimento que apresentamos o artigo de Arlete Portella, cujo olhar acolhedor e reflexivo ilumina a vivência da morte em Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI). A psicóloga e gerontóloga nos convida a considerar a morte não apenas como um evento final, mas como uma experiência compartilhada que inaugura processos significativos de luto, reconciliação e acolhimento. Portella destaca a importância de acolher os desejos finais, externalizar o luto antecipatório e transformar a perda em aprendizado e cuidado mútuo. Este texto se insere diretamente na proposta da Revista Cuidar: romper tabus, dar voz às emoções presentes nos cuidados e contribuir para práticas profissionais mais sensíveis e humanas.

Boa Leitura.

A convivência com a morte passa a ser uma realidade cotidiana quando os moradores de uma ILPI ficam mais velhos e convivem com doenças. Lidar com a experiência de morte não é tarefa fácil, nem para o aquele que se despede, nem para o familiar, tampouco para o profissional que aí trabalha.

Associação Cuidadosa

Como nos relacionamos com a morte?

A morte é um tema evitado e, na maioria das vezes, evitamos falar sobre ela ou falamos em termos hipotético: “Quando eu morrer”, ou “Quando meu pai vier a falecer”. Isso coloca uma distância intelectual entre o morrer e o que se sente a respeito dele. As famílias até que falam sobre aspectos práticos como o plano de seguro, o testamento ou a doação de órgãos, mas, em geral, lidar com a aceitação da morte, a angústia e os sentimentos a ela relacionados, a verdadeira aceitação, a busca de um sentido para ela, é um caminho que se inicia depois da morte.

É impossível viver e crescer sem a perda. Perder pessoas queridas faz parte da vida e se estamos envelhecendo, em algum momento, deixaremos esse plano de vida. O declínio natural dos órgãos, do metabolismo, da funcionalidade e a presença de doenças, sem dúvida nos levarão à morte, em algum momento. Simone de Beauvoir, escritora francesa famosa, dizia que se ainda estamos vivos, é porque estamos envelhecendo. Não há como fugir do próprio envelhecimento, tampouco da morte.

Também se você teve muitos amigos ou parentes, pessoas que lhe foram próximas, significa que terá muitas perdas para viver.

A pessoa que está morrendo tem consciência de sua morte?

As pessoas que trabalham com cuidados paliativos dizem que aquele que está chegando ao final de vida tem consciência de que está morrendo, se estiver com as funções cognitivas relativamente preservadas. Algumas até desejam esse momento, como uma tentativa de pôr fim ao sofrimento. Percebem que seu corpo progressivamente  vai se deteriorando, ou que o tratamento não está funcionando, desejam sucumbir e parar de lutar. Estão cansados. Por isso, quando a família ou os profissionais de saúde dizem para ele não se entregar e se esforçar, colaborar mais, essas palavras não trazem conforto ou alívio, podendo aumentar o seu sofrimento e a sua angústia. 

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E como podemos apoiar nosso familiar que está em fase terminal?

Muitas vezes, tudo o que aquele que está morrendo deseja é que você esteja ao lado dele, acompanhando-o em sua passagem. Você não precisa dar nenhum conselho, ou tentar animar aquele que está sofrendo. Perder alguém e acompanhar o seu sofrimento nos torna mais completos. Ficamos ligados um ao outro de uma maneira que nunca imaginamos. Podemos nos tornar mais solidários, generosos e atenciosos.

Algumas pessoas, à beira da morte, sentem necessidade de reparar alguma relação conflituosa que teve durante a vida. Por isso, pergunte à pessoa idosa se ela gostaria de rever alguém, um parente ou familiar e providencie esse encontro. Às vezes, ela tem algum desejo secreto que nunca compartilhou com ninguém. Por exemplo, dar uma volta em um jardim, ou fazer uma reunião com a família ou comer determinada comida.  É evidente que nem sempre é possível criar condições para que o desejo seja realizado, mas, sempre que possível, faça-o. Tudo aquilo que for feito para atenuar o seu sofrimento contribuirá para que sua passagem seja feita em paz. E paz, é algo que se busca quando a morte se aproxima.

E como podemos nos apoiar quando a morte se aproxima?

É importante sabermos que existe um processo de luto, que se inicia ainda quando a pessoa está tendo suas condições de saúde pioradas. Chamamos a esse processo de luto antecipatório.

O luto precisa ser externalizado, ou seja, as pessoas precisam falar sobre o que sentem a respeito daquela perda. O familiar pode oscilar entre sentimentos de tristeza, raiva pelo que está acontecendo, desespero por não ter como controlar o que acontece, ansiedade. Tudo pode acontecer de forma diferente para cada um. Aos poucos, vai se aceitando o que está acontecendo e encontrando um significado para essa experiência.

Em geral, quando tivemos boa convivência com aquele que está morrendo, os sentimentos podem ser de uma tristeza infinita e de uma incompreensão sobre o processo de morrer. Depois da perda, ficarão em nosso coração as lembranças, o legado que dele recebemos, o que ele nos ensinou na vida.

Mas, quando tivemos relações conflituosas com ele, podemos ter sentimentos contraditórios que incluem raiva, às vezes, ou culpa por estarmos até achando que a pessoa merecia morrer. Em geral, são sentimentos ambíguos e complexos que refletem uma experiência de vida que não foi compartilhada de maneira saudável. O importante é não se desesperar e saber que esse turbilhão vai passar ou tende a ser compreendido ao longo do tempo, principalmente, se tivermos alguém com quem conversar, que não faça julgamentos ou avaliações, ou a ajuda de um profissional.

Como a equipe que trabalha em ILPI pode contribuir com a experiência de morte?

A equipe atuante em uma ILPI precisa tornar o falar sobre a morte algo natural. Vale reunir-se com os moradores para conversar sobre a morte, principalmente, após a perda de uma pessoa querida pelo grupo. Aí se conversa sobre o que se está sentindo com a perda, e se busca encontrar significados para ela. Não temos certeza sobre o momento em que perderemos um familiar, mas, fazer dessa experiência um processo de aprendizado sobre nós mesmos e sobre a vida, é tarefa de todos nós.

Sugestões de leituras

  • A morte é um dia que vale a pena viver. Ana Cláudia Arantes Quintana. Editora Sextante.
  • Os segredos da vida. Elisabeth Kübler-Ross e David Kessler. Editora Sextante.
  • Sobre o viver e o morrer. Elisabeth Kübler-Ross. WMf.Martins Fontes.
  • Morrer não se improvisa. Bel César. Editora Gaia.

Artigos Cuidar:
Ao lado do idoso que quer morrer: compreendendo significados e necessidades no fim da vida
ILPI – Você está pronto para comprar este serviço?

E você, como viveu ou vive o luto no cuidado?
A morte, quando compartilhada com empatia e presença, pode transformar vínculos e deixar legados profundos.
Já acompanhou alguém em seus últimos momentos? Como isso impactou você e a equipe?

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About the Author: Arlete Portella Fontes

Psicóloga, Especialista em Psicodrama e Análise Bioenergética. Mestrado, Doutorado e Especialista em Gerontologia

6 Comments

  1. Maria Inez Masaro Alves 07/08/2025 at 11:31 - Reply

    Excelente texto!!! Um assunto que tentamos evitar e adiar, mas extremamente necessário falar sobre ele.

  2. Miriam 07/08/2025 at 12:43 - Reply

    Excelente e muito oportuno.
    Parabens.

  3. Fatima Rodrigues 07/08/2025 at 13:00 - Reply

    Arlete fala com naturalidade da morte e da importância de estarmos preparados para despedir-nos. A recomendação que nos faz, de procurar estar em paz, é sem dúvida fruto de sua sabedoria e generosidade.

  4. GILMARA PETRY 07/08/2025 at 20:35 - Reply

    Este é um conhecido que todos que trabalham em uma ILPI deveriam ter, antes mesmo de se candidatar a uma vaga de emprego nessas instituições.

  5. Marhel Paimon 08/08/2025 at 16:08 - Reply

    Linguagem simples, objetiva, sensível e primorosa para falar de um verdadeiro tabu: encarar a morte como processo e, sobretudo. ponto final da existência.
    Mestria da autora Arlete Portella Fontes: propiciar as necessárias reflexão e transformação pessoal e grupal.. Grande lição ! Gratidão !
    PARABÉNS !

  6. Elizabeth dos Santos Berto 10/08/2025 at 02:12 - Reply

    Significar a necessidade da Partida é fundamental, sempre com cuidado, presença, estar junto e passar serenidade.
    Deixar fluir e respeitar!

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6 Comments

  1. Maria Inez Masaro Alves 07/08/2025 at 11:31 - Reply

    Excelente texto!!! Um assunto que tentamos evitar e adiar, mas extremamente necessário falar sobre ele.

  2. Miriam 07/08/2025 at 12:43 - Reply

    Excelente e muito oportuno.
    Parabens.

  3. Fatima Rodrigues 07/08/2025 at 13:00 - Reply

    Arlete fala com naturalidade da morte e da importância de estarmos preparados para despedir-nos. A recomendação que nos faz, de procurar estar em paz, é sem dúvida fruto de sua sabedoria e generosidade.

  4. GILMARA PETRY 07/08/2025 at 20:35 - Reply

    Este é um conhecido que todos que trabalham em uma ILPI deveriam ter, antes mesmo de se candidatar a uma vaga de emprego nessas instituições.

  5. Marhel Paimon 08/08/2025 at 16:08 - Reply

    Linguagem simples, objetiva, sensível e primorosa para falar de um verdadeiro tabu: encarar a morte como processo e, sobretudo. ponto final da existência.
    Mestria da autora Arlete Portella Fontes: propiciar as necessárias reflexão e transformação pessoal e grupal.. Grande lição ! Gratidão !
    PARABÉNS !

  6. Elizabeth dos Santos Berto 10/08/2025 at 02:12 - Reply

    Significar a necessidade da Partida é fundamental, sempre com cuidado, presença, estar junto e passar serenidade.
    Deixar fluir e respeitar!

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