Existem diversas razões para uma pessoa ser inserida em uma ILPI, e existem diversos contextos em que a pessoa pode viver antes de ser inserida, vários tipos de contextos familiares e todas essas relações carregam histórias de vida de pessoas reais: dores, alegrias, sonhos, desafios, amores, muitas coisas para além do que se pode imaginar no momento da entrevista inicial.
Diante disso, realizar uma transição da casa da pessoa idosa para uma ILPI é um processo que exige muita sensibilidade e delicadeza, pois reconstituir, em muitos casos, uma casa dentro de um quarto, é uma tarefa que exige planejamento, respeito e cuidado para garantir o remanejamento do espaço, garantir conforto e principalmente reconhecimento do espaço.
Apesar do ponto central ser a garantia de conforto, segurança e bem-estar da pessoa idosa, a família passa por um remanejamento da dinâmica familiar, com a presença da pessoa idosa realocada em outro espaço, portanto há a necessidade de planejar visitas que antes poderiam ser feitas, talvez, de outra maneira. Nesse sentido é que conta compreender a motivação para a inserção: cansaço do cuidador familiar? Limitações na acessibilidade da casa para as necessidades da pessoa idosa? Conflitos familiares?
Há muitas famílias que, diante do avanço de um quadro de saúde agravado, com a exigência de cuidados de enfermagem mais especializados, opta por esses espaços pela compreensão de que é uma maior segurança para a pessoa idosa ser assistida durante um período integral, já há outras famílias que devido à diversos conflitos familiares podem avaliar a possibilidade de um remanejamento para mudar a dinâmica familiar, garantir uma relação mediada por profissionais capazes de auxiliar no cuidado e também nas relações.
O papel do assistente social na mediação de vínculos
Nos casos como esses em que há conflito e situações complexas que são de foro íntimo para os participantes dessa dinâmica, cabe ao assistente social ser mediador dessa relação, com foco não apenas em garantir os direitos da pessoa idosa, mas também os direitos da família, a fim de encontrar um caminho válido e capaz de garantir que os vínculos familiares possam ser fortalecidos de forma sutil, sem imposição.
Um gestor enquanto responsável por garantir o bem-estar dos idosos é responsável por gerir também os insumos oferecidos pelos familiares, sendo essa uma tarefa essencial para garantir os direitos básicos da pessoa idosa dentro da instituição, mas o mesmo não pode ser feito em relação ao afeto. Não há possibilidade de pedir em juízo um vínculo afetivo firme, capaz de oferecer a segurança emocional que a pessoa idosa merece.
Nesse aspecto cabe ao assistente social abrir espaço para o acolhimento da família, compreender a dinâmica familiar e avaliar as melhores estratégias para fortalecer os vínculos afetivos, compreender a origem dos conflitos, a fim de trabalhar junto com o profissional de psicologia da instituição formas de mediar diálogos, acolher angústias e lidar com sentimentos ambíguos que podem surgir nessas relações.
O trabalho psicossocial dentro da instituição é promover um rompimento do paradigma de morar em um lar coletivo, é garantir para as famílias que residência para pessoas idosas não é sinônimo de abandono, abandono é um ato em si que ausência completa de contato e de cuidado que pode ser praticado dentro ou fora da ILPI, não é a instituição em si a responsável por isso. Dessa forma, uma família que se propõe a ser presente, trabalhar em conjunto com a instituição e principalmente participar da vida da pessoa idosa, não há falta, mas excesso de cuidado e de zelo, o que garante uma fonte de carinho e de sentimento de pertencimento de cuidado muito maior.
Quando a rotina institucional esbarra na experiência da família
No livro “A Máquina de Fazer Espanhóis” de Valter Hugo Mãe, o protagonista, Sr. Silva, faz uma reflexão do quanto as visitas, com o passar do tempo em que ele está em um Lar, tornam-se mais cerimoniosas, distantes e raras. A filha que no início vinha com frequência e com roupas simples, passa a vir cada vez menos e mais bem trajada, justificação do termo genial que ele usa ao descrever como “cerimonial”. No caso do livro, o Sr. Silva reflete que não faz mais parte do dia a dia da família, como uma antecipação da despedida ainda em vida.
Para além de cuidar da pessoa idosa, cada vez mais é necessário falar sobre o cuidado com os familiares, a atenção para com as suas necessidades, emoções e angústias que também devem ser acolhidas. Vamos dar um exemplo prático simples para elucidar melhor o que isso quer dizer:
Um exemplo prático:
O Sr. João, de 43 anos, trabalhou 44h semanais naquela semana e separou o domingo, seu único dia de folga para visitar o seu pai, o Sr. Antônio. A sua esposa ficou irritada, pois como era o único dia de folga, ela planejava ir junto do marido e do filho de 7 anos para a praia, mas o Sr. João disse que antes ou depois de irem à praia, ele passaria no Lar para ver seu pai, diante de uma discussão, a esposa e o filho foram para a praia sem ele logo pela manhã, e ele decidiu então ir ao Lar visitar o seu pai nesse horário. Quando o Sr. João chega no Lar para ver o seu pai, um dos cuidadores diz que ele está tomando o lanche da manhã e que terá que esperar para fazer a visita, enquanto espera, recebe um dos enfermeiros com uma lista de exames que o Sr. Antônio tem que fazer, e as consultas que ele deve agendar com urgência, pois o quadro do seu pai está instável. Quando o Sr. João pede que os cuidadores levem o seu pai para um lugar reservado onde ele possa conversar com o pai, um cuidador grita para o outro, mandando que o colega venha ajudar. O Sr. João fica com vergonha, sente que está atrapalhando a dinâmica de trabalho daquela manhã, os funcionários estão atarefados e colocam eles em um lugar onde eles possam conversar, mas a conversa só dura trinta minutos, pois é interrompida por um cuidador que explica ao Sr. João que está na hora de trocar a fralda do Sr. Antônio. Ele aguarda, pois é o trabalho deles e ele não está ali para atrapalhar a rotina de trabalho, quando volta, ainda fica mais um tempo conversando com o seu pai que é deficiente auditivo e que, diante de tanto barulho, não consegue ouvir bem o que ele diz. Ele se despede de todos que, apressados, abrem o portão sem olhar em seus olhos e vai embora para a sua casa.
Esse é um relato ilustrativo que coloca em destaque uma realidade que pode não ser notada no cotidiano, diante do excesso de tarefas e atividades desenvolvidas pelos profissionais da área da saúde. É importante destacar que esse é um episódio que pode acontecer por diversos motivos: um dia agitado na instituição, a falta de um profissional da equipe naquele dia, a falta de preparação para receber a visita da família, entre muitas outras causas. Além disso, é importante destacar que esse não é um cenário único e generalizado, é apenas uma lupa sob um acontecimento específico para trabalhar a atenção e sensibilizar para a necessidade de cuidar da família do residente da ILPI.
Rompendo o tabu e fortalecendo laços intergeracionais
Enquanto em tempos anteriores, diante de uma cultura mais conservadora, não era de bom tom levar as crianças aos Lares para verem os avós, a ideia era “evitar traumas” e preservar a infância, nos dias atuais já existem diversas unidades que possuem espaços destinados aos pequenos, a fim de garantir que a criança cresça com a concepção de que esse é um espaço de vida e cuidado. Afinal, existe trauma maior do que ter medo de envelhecer e ir parar numa casa e ficar esquecido por lá? Muito melhor é saber exatamente onde o vovô está, como está sendo cuidado e participar desse cuidado durante todo o seu processo.
Além disso, muitos são os filhos que possuem conflitos com os pais, mas que diante da convivência com um pai que se torna avô são capazes de conhecer uma nova versão, uma pessoa capaz de reescrever a própria história de vida e reinventar a dinâmica familiar.
Nesse sentido, o assistente social promove mais do que apenas os direitos da família de estar presente, de ser respeitada e acolhida, o assistente social é capaz de emocionar e transformar o olhar da família para a ILPI com um trabalho árduo e qualificado de fortalecimento de vínculos. É ele quem costura presenças no tempo certo, que escuta silêncios antes das palavras, que devolve humanidade aos encontros muitas vezes marcados pela ausência.
Na rotina que parece sempre igual, o assistente social reconhece o instante em que o amor ainda é possível e ali, onde tantos veem fim, ele semeia recomeço.
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Achei muito elucidativo, porém, a questão vai muito além. Trabalho a cinco anos em um residencial Sênior, convivendo diretamente com os idosos (a maioria demenciados) e a família que em sua maioria, também doentes emocionalmente. Na minha humilde opinião é um tema que deveria ser mais discutido, estudado, deveria ter uma atenção diferenciada, promovendo campanhas, recapacitações profissionais e preparar as pessoas para um futuro onde irá predominar a pessoa madura, idosa.
Muito obrigada pelo artigo, sinto uma luzinha no final do túnel.











Achei muito elucidativo, porém, a questão vai muito além. Trabalho a cinco anos em um residencial Sênior, convivendo diretamente com os idosos (a maioria demenciados) e a família que em sua maioria, também doentes emocionalmente. Na minha humilde opinião é um tema que deveria ser mais discutido, estudado, deveria ter uma atenção diferenciada, promovendo campanhas, recapacitações profissionais e preparar as pessoas para um futuro onde irá predominar a pessoa madura, idosa.
Muito obrigada pelo artigo, sinto uma luzinha no final do túnel.