Nota Editorial

Palavras que Cuidam

Há palavras que acolhem e há palavras que aprisionam.

Nesta edição da Revista Cuidar, convidamos Rosane Sangaleti, profissional reconhecida por sua sensibilidade e compromisso com o cuidado humanizado em ILPI, para refletir conosco sobre algo que fazemos todos os dias, quase sem perceber: as palavras que escolhemos para nomear as pessoas de quem cuidamos.

Este artigo nasce do propósito que guia a Revista Cuidar desde sua criação: enfrentar estigmas e preconceitos que ainda cercam as Instituições de Longa Permanência para Idosos. Sabemos que esses estigmas não vivem apenas no imaginário social. Eles se infiltram também na nossa linguagem cotidiana, nas expressões que repetimos sem pensar, nos termos que, sem intenção, despersonalizam e silenciam histórias.

Em “As Palavras Que Escolhemos: Reconstruindo a Comunicação nas ILPI”, refletimos sobre como a transformação da linguagem é também a porta de entrada para transformar a cultura do cuidado. Com base em evidências da neurociência e da psicologia social, mostramos que palavras aparentemente inofensivas podem reforçar relações de poder, apagar identidades e reduzir pessoas a rótulos, enquanto uma comunicação consciente pode restaurar dignidade, sentido e pertencimento.

Mas este não é apenas um texto de crítica. É um texto de reconstrução. Apresentamos caminhos práticos e inspiradores para uma comunicação que cria pontes entre profissionais, gestores, famílias e todos aqueles que compartilham o mesmo propósito: a qualidade do cuidado e o respeito à pessoa idosa.

Porque, no fundo, é disso que se trata: conexão.
Conectar pessoas em torno de um objetivo comum.
Conectar o cuidado técnico ao cuidado humano.
Conectar palavras à dignidade.

Associação Cuidadosa

Que esta leitura nos inspire a cuidar também daquilo que dizemos e, assim, transformar não apenas a nossa linguagem, mas a própria cultura das nossas instituições.
Palavra por palavra. Gesto por gesto. Dia por dia.

Boa leitura!

Equipe Editorial – Revista Cuidar

Quando a linguagem aprisiona mais que acolhe

Você já parou para pensar no peso das palavras que usamos diariamente no nosso trabalho? Aquelas que repetimos quase automaticamente, sem questionar sua origem ou impacto? Pois é exatamente aqui, nessa rotina aparentemente inocente da linguagem, que podemos estar construindo ou destruindo a dignidade das pessoas que cuidamos.

Quando dizemos “o idoso institucionalizado”, “nossos idosos”, “o demente do corredor B” ou referimos às pessoas como “hóspedes”, não estamos apenas escolhendo palavras. Estamos, de forma inconsciente, definindo relações de poder, apagando identidades e reduzindo histórias de vida inteiras a rótulos que desumanizam.

O impacto psicológico da linguagem despersonalizante

A neurociência e a psicologia social nos mostram algo fundamental: as palavras que usamos não apenas descrevem a realidade – elas a criam. Quando nos referimos a alguém como “institucionalizado”, ativamos em nossa mente todo um conjunto de associações ligadas à perda de autonomia, à passividade, à dependência total. A pessoa deixa de ser vista como sujeito ativo de sua própria vida e passa a ser percebida como objeto de cuidados, alguém que foi “institucionalizado” – como se a instituição tivesse o poder de transformar sua essência humana.

Do ponto de vista psicológico, esse processo tem nome: despersonalização. E seus efeitos são devastadores tanto para quem é nomeado quanto para quem nomeia.

Para a pessoa idosa, ouvir-se constantemente referida por termos que a reduzem contribui para o fenômeno da profecia autorrealizadora: ela passa a comportar-se de acordo com aquilo que esperam dela. Se a tratam como incapaz, tende a tornar-se mais dependente. Se a veem apenas pela doença (“o demente”), sua identidade se dilui nesse único aspecto, esquecendo-se que há uma pessoa inteira ali – com preferências, memórias, afetos, escolhas.

Para os profissionais, a linguagem despersonalizante funciona como um mecanismo inconsciente de distanciamento emocional. É mais fácil “gerenciar institucionalizados” do que cuidar de pessoas com nomes, histórias e sentimentos. Esse distanciamento, embora possa parecer uma proteção contra o sofrimento, na verdade nos empobrece: rouba-nos a possibilidade de conexão genuína, que é justamente o que torna o trabalho do cuidado tão significativo.

Além da infantilização: outras formas de apagar a pessoa

Já sabemos que infantilizar pessoas idosas – tratá-las com diminutivos excessivos, falar em tom de voz alterado, tomar decisões por elas sem consultá-las – é uma forma de violência simbólica. Mas a desconstrução que precisamos fazer vai muito além.

“Institucionalizado”: quando a instituição se torna identidade

Chamar alguém de “institucionalizado” é transformar um local de moradia em uma característica da pessoa. É como se ela tivesse deixado de ser quem era e se tornado uma extensão da instituição. Esse termo carrega uma carga histórica pesada, ligada a modelos asilares onde as pessoas eram, de fato, despojadas de sua identidade e submetidas a rotinas rígidas e despersonalizantes.

Quando usamos esse termo, mesmo sem querer, perpetuamos essa lógica. A pessoa não está “institucionalizada” – ela mora na ILPI, reside ali, vive ali. São verbos que devolvem ação, presença, vida.

“Hóspedes”: a ilusão do cuidado transitório

Usar o termo “hóspede” pode parecer uma tentativa de tornar o ambiente mais acolhedor, mas carrega uma contradição fundamental: hóspedes são pessoas de passagem, que estão temporariamente em um lugar que não é seu. A ILPI, porém, é a casa dessas pessoas – muitas vezes, sua última casa.

Tratá-las como hóspedes cria uma relação de distância: nós somos os anfitriões, elas são as visitantes. Mas a verdade é o oposto: estamos nós entrando na casa delas diariamente. Quando internalizamos isso, nossa postura muda. Passamos a pedir licença, a respeitar espaços, a reconhecer que ali existe um lar, não um hotel.

“Nossos idosos”: o possessivo que aprisiona

Quantas vezes você já ouviu ou disse “nossos idosos”? Parece carinhoso, não é? Mas esse possessivo revela uma relação de propriedade sutil. Eles não são “nossos” – são pessoas autônomas, com suas próprias famílias, histórias e vontades. Usar o possessivo pode inconscientemente nos colocar em posição de tutela, como se fossem crianças sob nossa guarda.

Podemos falar sobre “as pessoas que atendemos”, “as pessoas que moram aqui”, “os moradores”, “os residentes” – termos que respeitam a autonomia sem perder o cuidado.

“Demente”: quando a doença engole a pessoa

Talvez este seja o termo mais cruel de todos. Chamar alguém de “demente” é reduzi-lo inteiramente à doença. É apagar décadas de vida, conquistas, afetos, personalidade. É transformar uma condição neurológica em uma identidade total.

A pessoa não é demente – ela tem demência. E mesmo com demência, continua sendo Maria, José, dona Teresa. Continua gostando de café forte, de sol na janela, de segurar uma mão. A doença é apenas uma parte – muitas vezes nem a mais importante – de quem ela é.

Reconstruindo pontes com palavras que humanizam

A boa notícia é que podemos mudar. E a mudança começa com algo aparentemente simples, mas profundamente transformador: escolher palavras que reconheçam e honrem a humanidade de cada pessoa.

Aqui estão algumas sugestões práticas:

Em vez de “institucionalizado”, diga: morador, residente, ou melhor ainda, chame pelo nome.

Em vez de “hóspede”, diga: morador, residente, a pessoa que vive aqui.

Em vez de “nossos idosos”, diga: as pessoas que atendemos, os moradores, os residentes.

Em vez de “demente”, diga: “o senhor João, que vive com demência” ou “o senhora Maria, que vive com a doença de Alzheimer”

Em vez de “gerenciar pessoas”, diga: cuidar, acompanhar, apoiar, estar junto.

O convite à reflexão

Mudar a linguagem não é frescura linguística ou politicamente correto. É reconhecer que as palavras têm poder – poder de dignificar ou diminuir, de incluir ou excluir, de ver ou invisibilizar.

Cada vez que escolhemos uma palavra que respeita a humanidade da pessoa, estamos fazendo uma escolha ética. Estamos dizendo: “Eu te vejo. Você importa. Você é mais do que sua condição, mais do que este lugar.”

E essa escolha transforma não apenas quem é cuidado, mas também quem cuida. Porque quando olhamos para o outro como pessoa inteira, redescobrimos o sentido profundo do nosso trabalho. Deixamos de apenas “fazer tarefas” e passamos a construir relações, a testemunhar histórias, a honrar vidas.

Convido você a fazer um exercício hoje: preste atenção nas palavras que usa. Quando perceber que um termo despersonalizante escapou, corrija-se, gentilmente. Compartilhe essa reflexão com sua equipe. Porque a revolução cultural que tanto precisamos nas ILPI começa exatamente aqui: na escolha consciente de cada palavra.

As pessoas que moram nas instituições não precisam de rótulos. Precisam de nomes, de escuta, de respeito. Precisam que nós, profissionais do cuidado, tenhamos a coragem de enxergá-las e nomeá-las como o que sempre foram e sempre serão: pessoas.

Pessoas com histórias. Pessoas com direitos. Pessoas com dignidade.

E isso não se gerencia. Isso se honra. Todos os dias. Começando pelas palavras que escolhemos dizer.

Faça parte da maior rede de comunicação entre profissionais e familiares das ILPI, em busca de informações, apoio e melhorias para quem cuida e para quem é cuidado.

About the Author: Rosane Sangaleti

Enfermeira, empresária e presidente da primeira associação nacional de ILPI – ADECAPI. Formada em Enfermagem pela FEF e pós-graduada em Auditoria em Saúde (FAMERP), Gerontologia (UNIRP) e Gestão em ILPI (Hospital Albert Einstein), atua há 16 anos como gestora do Residencial Jardim do Lírio. É também apresentadora do podcast Universo do Idoso, voltado à valorização e ao cuidado humanizado da pessoa idosa.

One Comment

  1. Tania Regina Pontífice Miranda 09/11/2025 at 08:20 - Reply

    Achei bem interessante, porque na outra instituição que trabalhei chamava os idosos de pacientes e aqui chamamos de hospede .essas palestras que vcs passam é muito importante.porque aprendemos mais .

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One Comment

  1. Tania Regina Pontífice Miranda 09/11/2025 at 08:20 - Reply

    Achei bem interessante, porque na outra instituição que trabalhei chamava os idosos de pacientes e aqui chamamos de hospede .essas palestras que vcs passam é muito importante.porque aprendemos mais .

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