Nota Editorial 

Nesta edição, abrimos espaço para uma reflexão urgente e ainda pouco explorada em nossas instituições: o cuidado às pessoas autistas idosas.

O Brasil envelhece rapidamente. Segundo o IBGE, a população com 65 anos ou mais deve saltar de 10,9% em 2022 para 25,5% até 2060. Dentro desse cenário demográfico, uma realidade silenciosa se desenha: pessoas autistas também envelhecem. E muitos delas estão chegando — ou chegarão — às Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI) sem que essas instituições estejam adequadamente preparadas para acolhê-las.

O autismo na terceira idade permanece cercado por lacunas significativas. Estudos internacionais indicam uma escassez crítica de pesquisas sobre envelhecimento autista, com a maior parte da produção científica ainda concentrada na infância e adolescência. No Brasil, essa lacuna começa a ser parcialmente preenchida, ainda que de forma inicial.

Associação Cuidadosa

Dados recentes começam a preencher essa lacuna: um estudo nacional baseado no Censo Demográfico de 2022 estimou que cerca de 306,8 mil brasileiros com 60 anos ou mais vivem com algum grau de Transtorno do Espectro Autista (TEA), com prevalência autodeclarada de 0,86% nessa faixa etária. Esse é um avanço importante para reconhecermos a presença significativa de pessoas idosas autistas no Brasil e para embasar políticas públicas e práticas de cuidado mais informadas, embora o conhecimento ainda seja incipiente e precise ser aprofundado.

Muitas pessoas autistas que hoje são idosas nunca receberam diagnóstico formal ao longo da vida. Revisões recentes da literatura científica indicam que a prevalência de autismo não diagnosticado em adultos mais velhos pode ser substancialmente maior do que se imaginava, especialmente entre mulheres e pessoas sem deficiência intelectual associada. Esses indivíduos cresceram sendo vistos como “excêntricos”, “difíceis” ou “solitários”, sem que suas necessidades específicas fossem compreendidas.

Por que falar sobre isso agora?
Porque o silêncio não é uma opção ética. As ILPI já atendem pessoas autistas, saibamos ou não. A diferença está entre oferecer um cuidado às cegas — que pode inadvertidamente gerar sofrimento — e construir um cuidado informado e verdadeiramente acolhedor.

O convite que fazemos

Associação Cuidadosa

Convidamos cada profissional que atua nas ILPI a:

  • Observar com novos olhos: Características do autismo incluem dificuldades persistentes na comunicação e interação social, padrões restritos e repetitivos de comportamento e diferenças no processamento sensorial. Aquele residente que prefere ficar sozinho, que se desorganiza com mudanças na rotina, que apresenta sensibilidades a sons, luzes ou texturas — poderia ser uma pessoa autista?

  • Questionar práticas: Ambientes institucionais podem ser particularmente desafiadores para pessoas autistas devido à imprevisibilidade, aos estímulos sensoriais intensos e às demandas sociais constantes. Quantas vezes interpretamos como “teimosia” ou “resistência” aquilo que pode ser sobrecarga sensorial ou necessidade de previsibilidade?

  • Buscar conhecimento: O autismo se manifesta de formas particulares no envelhecimento. Estudos indicam maior vulnerabilidade ao isolamento social, à ansiedade e a dificuldades no acesso a serviços de saúde adequados.

  • Adaptar práticas: Pequenas mudanças — comunicação clara e direta, respeito às rotinas, redução de estímulos sensoriais excessivos e ambientes previsíveis — podem fazer diferença significativa no bem-estar de residentes autistas.

  • Exigir pesquisas: Os dados recentemente divulgados representam um ponto de partida, não um ponto de chegada. Precisamos de estudos epidemiológicos mais aprofundados, protocolos validados e programas de formação específicos para profissionais de ILPI.

  • Compartilhar experiências: Cada profissional que identifica e acompanha uma pessoa autista idosa está produzindo conhecimento valioso. Registrar e compartilhar essas experiências fortalece toda a rede de cuidado.

Nossa responsabilidade coletiva

O material que apresentamos a seguir foi elaborado por Felomenia Pinho, fonoaudióloga com atuação voltada à comunicação e às conexões intergeracionais — dimensões centrais quando pensamos no cuidado às pessoas autistas idosas. A partir de reflexões colaborativas e análises cuidadosas sobre as demandas desse público ainda invisibilizado, o texto que segue abre uma conversa necessária e urgente.

Ao publicá-lo, assumimos o compromisso de manter essa discussão viva, de acolher relatos de experiência, de divulgar pesquisas emergentes e de apoiar os profissionais das ILPI em sua caminhada de aprendizado.

As pessoas autistas idosas merecem envelhecer com dignidade, em ambientes que compreendam suas particularidades e valorizem suas potencialidades. Construir esse cuidado é uma responsabilidade compartilhada.

Boa leitura e boas reflexões.

Equipe Editorial
Revista Cuidar – No Coração das ILPI

Demandas Específicas dos Autistas Idosos: Desafios, Cuidados e Estratégias 

Empatia, Acolhimento e Comunicação 

O convívio cotidiano com pessoas autistas idosas requer sensibilidade e empatia para garantir um ambiente seguro, acolhedor e respeitoso. A prioridade no acolhimento deve estar presente em todas as abordagens, especialmente ao lidar com questões relacionadas a hábitos, dificuldades nas relações interpessoais e atitudes sociais. Essa postura é fundamental para facilitar a inclusão e promover o bem-estar das pessoas autistas idosas. 

Além disso, o suporte à comunicação, seja ela verbal ou não verbal, é de extrema importância. Profissionais como fonoaudiólogos e psicólogos desempenham um papel central no desenvolvimento das habilidades comunicativas desses idosos, promovendo maior autonomia e integração social. O atendimento especializado assegura que as necessidades particulares das pessoas autistas idosas sejam devidamente respeitadas e atendidas, contribuindo para uma convivência mais digna e inclusiva. 

Cuidados Básicos e Práticas para o Envelhecimento Saudável 

O bem-estar das pessoas autistas idosas depende de uma atenção cuidadosa a elementos essenciais como sono, alimentação, relacionamentos e atividades físicas. É importante adotar práticas que promovam relaxamento e equilíbrio entre corpo e mente, incluindo técnicas como eutonia, meditação, massagens, Feldenkrais, yoga, cuidados faciais, método corpo intenção, Reiki, Jin Shin Jyutsu e EFT. Essas estratégias são relevantes para garantir qualidade de vida e saúde ao longo do envelhecimento. 

Autocuidado, Autoconhecimento e Apoio Profissional 

Incentivar o autocuidado e o autoconhecimento é fundamental para pessoas autistas idosas. Programas voltados especificamente para esse público auxiliam no fortalecimento da autoestima e estimulam uma vivência mais ativa e saudável. Nesse contexto, destaca-se a importância da formação de profissionais de saúde e educação, que devem atuar sempre atentos às potencialidades biopsicossociais da pessoa idosa autista. 

A orientação adequada de agentes de saúde responsáveis pelo acompanhamento desses idosos é igualmente essencial para garantir um atendimento com qualidade e respeito às necessidades individuais, promovendo uma abordagem mais humanizada e eficiente. 

Promoção da Empatia, Pertencimento e Apoio à Rede de Cuidado 

Rodas de Troca e Escuta Atenta 

As rodas de troca de experiências vividas e a escuta atenta configuram estratégias eficazes para incentivar a empatia e fortalecer a sensação de pertencimento entre pessoas autistas idosas, seus familiares e cuidadores. Através dessas iniciativas, é possível criar espaços de compartilhamento, onde cada indivíduo se sente valorizado e compreendido, promovendo vínculos mais sólidos e respeitando as particularidades de cada um. 

Fortalecimento dos Vínculos e Apoio Mútuo 

Essas práticas não apenas contribuem para o fortalecimento dos vínculos, mas também incentivam o respeito às diferenças individuais, criando uma rede de cuidado mais coesa e acolhedora. O apoio mútuo é potencializado, beneficiando todos os envolvidos no processo de cuidado. 

Suporte Psicológico à Rede de Cuidado 

É fundamental oferecer suporte psicológico não só às pessoas autistas idosas, mas também aos seus familiares e cuidadores. Esse acompanhamento auxilia na superação dos desafios cotidianos e promove o bem-estar coletivo, garantindo um ambiente mais saudável e colaborativo para todos. 

Pessoas Autistas Residentes em ILPI: Reflexão e Práticas Específicas 

É fundamental promover uma reflexão aprofundada e implementar ações voltadas ao atendimento das necessidades específicas das pessoas com autismo que residem em Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI). Diante da singularidade desse grupo, torna-se imprescindível que as particularidades do autismo sejam detalhadamente consideradas tanto na entrevista inicial quanto na anamnese da pessoa idosa autista. 

A personalização do acompanhamento e cuidado deve considerar os aspectos comportamentais, sensoriais e de comunicação característicos do autismo, garantindo uma abordagem individualizada e respeitosa. Além disso, é importante que as equipes das ILPI estejam capacitadas para adaptar rotinas, ambientes e formas de interação, promovendo conforto, participação e qualidade de vida para os residentes autistas. 

O planejamento das práticas de cuidado nessas instituições deve ser orientado pelo diálogo com a própria pessoa idosa autista, sempre que possível, e com seus familiares ou representantes legais. Dessa forma, é possível alinhar expectativas, identificar necessidades e construir estratégias que favoreçam a inclusão, o bem-estar e o respeito à diversidade. 

Levantamento das Necessidades e Orientação de Políticas Públicas 

O levantamento das necessidades das pessoas autistas idosas, realizado a partir dos relatos dessas próprias pessoas, é essencial para orientar políticas e estratégias de cuidado adequadas. Essa escuta ativa garante que as ações desenvolvidas estejam realmente alinhadas com as demandas desse grupo, promovendo intervenções mais eficazes e respeitosas. 

Diagnóstico Tardio e Perfil Populacional 

Muitos adultos autistas receberam diagnóstico apenas na vida adulta, o que evidencia a necessidade de políticas públicas que considerem tanto as demandas de quem já viveu grande parte da vida sem o acesso a esse conhecimento quanto das novas gerações. O Censo demográfico brasileiro de 2022 apontou um número significativo de autistas com mais de 60 anos, demonstrando a importância de adaptar estratégias e cuidados para essa população específica. 

Dados e Pesquisas Fundamentais 

O Programa de Pós-graduação em Ciências da Saúde da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) realizou um levantamento que constatou que 306.836 pessoas idosas autodeclararam apresentar o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Pesquisas como essa são fundamentais para embasar a criação e o acompanhamento das políticas públicas necessárias à inclusão e ao bem-estar dessas pessoas. 

Metodologia, Fundamentação e Colaboração 

As estratégias e recomendações apresentadas foram desenvolvidas a partir de reflexões profundas sobre comentários publicados na Revista Cuidar, enriquecidas com recursos de Inteligência Artificial. Essas análises ampliaram a compreensão sobre as necessidades e desafios enfrentados pelas pessoas autistas idosas. Observações da comunidade, aliadas ao suporte tecnológico, identificaram pontos críticos para aprimorar políticas públicas e ações voltadas aos autistas idosos e seus acompanhantes. O diálogo constante com diferentes interlocutores fortaleceu a elaboração de estratégias mais eficazes e alinhadas à realidade desse grupo. 

Estruturação das Estratégias e Compromisso com o Bem-Estar 

A integração das contribuições e a análise cuidadosa dos comentários foram fundamentais para a estruturação das sugestões apresentadas. Este documento, portanto, não apenas propõe ações, mas também garante seu alinhamento com as demandas reais das pessoas autistas idosas e de quem os acompanha, consolidando um compromisso com o respeito, a empatia e o cuidado humanizado. 

About the Author: Felomenia Pinho

Felomenia Pinho, fonoaudióloga com atuação voltada à comunicação e às conexões intergeracionais.

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