Este artigo é um convite à reflexão, ao fortalecimento e ao reconhecimento dos profissionais que atuam na gestão e no cuidado em Instituição de Longa Permanência para Idosos (ILPI). Sabemos que essa travessia nem sempre é simples. Lidar com o envelhecimento em um ambiente de cuidado residencial e coletivo exige coragem, sensibilidade, preparo e, sobretudo, compromisso ético.

A ILPI (popularmente conhecida como casa de repouso) é a residência das pessoas que moram ali. Porém, dadas as características dos residentes, é necessário cumprir todas as:

  • medidas de biossegurança que garantem segurança para quem cuida e para quem é cuidado;
  • exigências legais, administrativas e fiscais para assegurar a devida transparência para quem contrata o serviço;
  • garantias trabalhistas para os profissionais para evitar problemas futuros.

Nosso objetivo é apoiar trajetórias de sucesso. Valorizamos especialmente aqueles que, mesmo enfrentando inúmeros desafios, seguem buscando caminhos mais humanos, qualificados e sustentáveis. Também desejamos ajudar familiares e comunidades a compreender melhor os critérios envolvidos na escolha de uma ILPI, reconhecendo que, muitas vezes, essa decisão é tomada em momentos de urgência e fragilidade.

Em todas as atividades, sejam de cunho comercial, educacional ou de cuidado, a experiência do cliente é um indicador que mede a chance de a empresa prosperar ou não. Por isso, poderíamos medir o sucesso de uma ILPI pelo bem-estar das pessoas cuidadas e das pessoas que cuidam, inclusive os gestores. Independentemente do porte, da localização ou da natureza jurídica da instituição, o que realmente importa é o compromisso com o cuidado ofertado e com o respeito à dignidade da pessoa idosa. Que esta leitura sirva como ferramenta de orientação, inspiração e reconhecimento do valor de cada profissional envolvido nesta jornada.

Imagine que a ILPI faz parte de um grande oceano, e cada instituição seria um navio ou um barquinho. Alguns maiores, outros menores. Alguns mais equipados, outros mais simples. Mas todos com o mesmo propósito: permitir que as pessoas continuem a remar na vida, mantendo-se sobre as ondas do envelhecimento.

Além dos “marinheiros” que cuidam das pessoas a bordo: cuidadores, assistentes sociais, técnicos de enfermagem, enfermeiros, cozinheiros, psicólogos, terapeutas, etc, há um personagem fundamental: o capitão. Aquele que segura o leme, escolhe o rumo, interpreta os sinais que chegam com o vento, as nuvens, enfrenta as tempestades e mantém o curso com firmeza e compaixão.

Neste texto, entendemos a figura do(a) capitão(ã) como aquela que toma a decisão final. O(a) capitão(ã) pode ser o(a) gestor(a) ou o(a) dono(a) do negócio. Em muitas ILPI, o(a) gestor(a) e o(a) dono(a) do negócio são a mesma pessoa. Em outras tantas, há um(a) presidente(a) de uma entidade mantenedora que contrata alguém para gerir. Também há investidores e investidoras, assim como franquias, que atuam neste ramo de negócios.

Associação Cuidadosa

É assim que começa a travessia. Portanto, é legítimo perguntar: você confiaria sua vida, ou a de alguém que ama, a um navio cujo capitão não está preparado para navegar?

O capitão: liderança técnica e ética

A gestão de uma ILPI vai muito além da administração de recursos e da organização de escalas. É um ato profundamente humano, que exige sensibilidade, conhecimento técnico, compreensão  e respeito à legislação, e acima de tudo: compromisso ético com a vida.

Estudos realizados no Brasil mostram que muitos gestores possuem nível superior, mas a formação em áreas como gerontologia, administração pública ou saúde coletiva ainda é uma lacuna importante. Contudo, é essencial reconhecer, sem cair no erro das generalizações, que existem inúmeros gestores e gestoras que, com humildade e responsabilidade, estão em constante formação, participando de congressos, lendo artigos, dialogando com profissionais e com a ciência.

Felizmente, muitos gestores entendem que os temas envelhecimento e moradia coletiva e assistida são temas vivos e em enorme efervescência e mudança constante em todo o mundo. Entendem também que as velhices são diversas e estão conscientes de que a experiência do cliente passa pelo cuidado centrado na pessoa. Esses profissionais sabem que não existe gestão de ILPI sem estudo contínuo, pois lidar com a complexidade da velhice que reside em ambientes coletivos requer preparo técnico e alma atenta.

Indicadores de qualidade: além da satisfação do(a) residente, dos familiares e da equipe, os gestores devem monitorar:

  • Índice de ocorrência de incidentes clínicos (quedas, intercorrências) mensais.
  • Percentual de participação em capacitações internas e externas.
  • Tempo de resposta a emergências (protocolos simulados).
  • Avaliações periódicas de bem-estar dos residentes.

Gestão de crises: ter plano para situações como surtos de doenças infectocontagiosas (por exemplo, pandemias como a de COVID-19), falta de insumos críticos (equipamentos de proteção individual, medicamentos), ou desastres ambientais. Realizar simulações regulares, treinar a equipe para resposta ágil e manter comunicação eficaz com autoridades da assistência, de saúde e familiares.

Formação: o leme da navegação

A navegação segura exige instrumentos. A bússola da gestão é o conhecimento. E neste mar onde se lida com perdas cognitivas, com dependência funcional, com cuidados paliativos de vida e de fim de vida, com vínculos emocionais e muitas vezes com o luto, não há espaço para improviso, para posturas inflexíveis ou para achismo.

A formação técnica, principalmente nas áreas de gestão e gerontologia, permite decisões mais assertivas, humanizadas e seguras. A ausência desse preparo coloca em risco não só a sustentabilidade da instituição, mas a própria dignidade da pessoa idosa.

Antes de reagir dizendo “não consigo tempo para isso”, “não vai funcionar”, “não é necessário”, “falar é fácil”, é importante reconhecer que todas as atividades demandam atualização permanente, abertura para inovações e adaptações respeitando os contextos profissionais e culturais.

Gentileza como ponte: o cuidado não é concorrência

Em um mundo marcado por disputas de mercado, é refrescante lembrar, como promovido no Concurso de Gentileza , que sermos pontes de boas práticas não é concorrência. O cuidado não é uma corrida. O cuidado é uma travessia solidária.

Dividir conhecimento, compartilhar experiências e reconhecer o valor de outros serviços não enfraquece ninguém, fortalece o oceano inteiro. No ramo de ILPI, quando uma instituição melhora, todas ganham. Quando um gestor se qualifica, isso impacta positivamente centenas de vidas, pois melhora o entendimento e a percepção do público em geral sobre ILPI e seu funcionamento, o que contribui para reduzir o ILPIsmo.

A parte financeira é importante, sim, afinal ninguém navega sem combustível. Mas o motor verdadeiro de uma ILPI deve ser o compromisso com a vida, com o saber, com o respeito ao envelhecimento. Vidas não são negócios. Vidas são universos.  Portanto, as gestões de negócio e da qualidade do cuidado devem caminhar de forma consonante.

A transparência como âncora de confiança

E para os familiares, que do cais observam o navio levando seus entes queridos, nada é mais tranquilizador do que saber quem está no leme. A transparência da gestão – seu nome, sua formação, sua responsabilidade técnica – é um direito básico de quem contrata seus serviços.

A confiança se constrói com diálogo, com acesso à informação, com visitas bem recebidas, com reuniões periódicas, com abertura para a comunidade. A ILPI não pode ser um espaço de muros. Precisa ser uma ponte entre famílias, profissionais,  pessoas idosas e comunidade.

 Conclusão: navegar com consciência

A ILPI não é um hospital, mas também não é um hotel. É um lugar onde vidas acontecem entre laços, cuidados, alegrias e também dores. Por isso, a gestão de uma ILPI é, em sua essência, uma prática filosófica e ética que demanda reflexões frequentes:

– “Qual é o melhor caminho para apoiar este residente a se manter com vitalidade?”

– “Qual decisão honra esta vida?”

– “O que é justo? A quem eu devo ouvir?”

–  “Esta conduta fortalece a confiança no nosso trabalho? 

– “Esta atitude me/te torna uma pessoa melhor?

– “O que eu falo, eu faço?”

Que sigamos, então, com todos os navios juntos neste mar.

Que cada capitão, capitã se forme, se atualize, se questione.

Que cada instituição se veja como parte de algo maior.

E que, ao fim, as pessoas idosas que estão a bordo se sintam não apenas cuidados, mas respeitados, lembrados e pertencentes. Afinal, você pode ser o dono do negócio, mas eles são os donos da casa.

Checklist de uma Navegação Ética e Consciente

Porque cuidar de vidas exige mais do que boa vontade, exige compromisso diário com a excelência. Aqui estão bússolas práticas para cada parte envolvida na travessia:

📌 Para o(a) gestor(a): o capitão do navio

  • Tenho formação adequada e compatível com as responsabilidades do cargo?
  • Estou em constante atualização (cursos, seminários, leituras, congressos)?
  • Minhas certificações, cursos e reconhecimentos estão visíveis na ILPI?
  • Disponibilizo tempo para escutar equipe, familiares e residentes?
  • Promovo momentos regulares de capacitação e escuta da equipe?
  • Sou transparente com os familiares sobre minha função e preparo?
  • Estou atento(a) à legislação vigente (RDC 502/2021, Estatuto da Pessoa Idosa, etc.)?

Dica: Um quadro na sala de reuniões com certificados e atualizações periódicas transmite confiança e reforça a cultura do conhecimento.

👥 Para os familiares: o cais seguro

  • Além de perguntar o custo, eu perguntei:
    • Quem é o responsável técnico e gestor?
    • Qual sua formação e experiência?
    • Como é feita a capacitação da equipe?
    • Existem protocolos para emergências?
    • Há visitas abertas? Reuniões com familiares?
  • Verifiquei se a ILPI está regularizada na Vigilância Sanitária? 
  • Tem alvará de funcionamento?
  • Conversei com a equipe de cuidados e observei o ambiente?
  • Senti que o idoso será respeitado como sujeito de direitos?

Dica: Não se trata apenas de um leito disponível. Você está confiando um pedaço da história de alguém. Faça as perguntas que o coração mandaria.

🧑‍⚕️ Para a equipe: os marinheiros do cuidado

  • Tenho acesso a formações, oficinas ou reuniões educativas? 
  • Sinto que posso dialogar com a gestão sobre dúvidas ou dificuldades?
  • Participo de momentos de escuta ou autocuidado?
  • Conheço o plano de cuidados dos residentes de quem cuido?
  • Sinto-me parte de uma equipe ou estou apenas “executando tarefas”?

Dica: Cuidar bem exige também ser cuidado. Uma equipe valorizada cuida melhor, com mais presença, sensibilidade e propósito.

Finalizando…

Um bom navio não se mede apenas pela pintura externa, mas pela firmeza da sua estrutura, pela confiança que transmite e pelo modo como navega com todos a bordo.

Que a ILPI seja mais do que uma instituição: que seja um lugar de travessia digna, de trabalho respeitoso, de cuidado qualificado e de vida que segue, mesmo sobre as ondas do tempo.

Saiba mais:

 O que é Gerontologia e por que ela é essencial na ILPI

A gerontologia é uma ciência interdisciplinar que estuda o envelhecimento em seus múltiplos aspectos: biológicos, psicológicos, sociais e culturais. Seu surgimento remonta ao início do século XX, com bases estruturadas a partir das décadas de 1930 e 1940, principalmente na Europa e nos Estados Unidos, como resposta ao crescimento da população idosa e à necessidade de compreender o envelhecer de forma científica, ética e integrada.

Hoje a gerontologia é reconhecida globalmente como campo fundamental para políticas públicas, práticas de cuidado, projetos sociais e gestão de instituições voltadas à pessoa idosa. No contexto das ILPI no Brasil, esse conhecimento é ainda mais necessário.

Já não se sustenta a ideia de ILPI como extensão da caridade ou dos antigos asilos. Devemos muito aos pioneiros movidos pela compaixão e solidariedade, muitos deles admitem que, para cuidar bem, é preciso também ser cuidado: por políticas públicas, suporte técnico, financiamento e formação contínua.

A formação em gerontologia para gestores, responsáveis técnicos e equipes é indispensável. Ela oferece subsídios para compreender especificidades do envelhecimento, lidar com situações complexas de forma ética, evitar práticas institucionalizantes (como rotinas rígidas e padronizadas que anulam a individualidade dos residentes) e promover ambientes que respeitem a autonomia e a dignidade da pessoa idosa.

No entanto, reconhece-se que cursos presenciais de graduação em gerontologia ainda estão concentrados em alguns centros, como o estado de São Paulo, sendo que em outras regiões só estão disponíveis via educação a distância (EAD). Para contornar essa limitação, recomenda-se:

  • Valorizar e reconhecer as formações EAD credenciadas pelo MEC e instituições qualificadas;
  • Investir em cursos de extensão, especialização e pós-graduação lato sensu em gerontologia oferecidos por universidades públicas e privadas em parceria com secretarias de saúde e conselhos profissionais; 
  • Promover programas de capacitação continuada e microcertificações (workshops, webinars, módulos intensivos) focados na realidade das ILPI de cada região, sempre atentos à qualificação de quem ensina. É fundamental verificar a formação, experiência e respaldo institucional dos responsáveis por ministrar tais cursos, evitando a proliferação de conteúdos rasos ou conduzidos por pessoas sem preparo técnico adequado.
  • Incentivar a criação e expansão de cursos presenciais em estados que ainda não os oferecem, por meio de políticas públicas e convênios com instituições de ensino.

À medida que o Brasil envelhece, a qualificação em gerontologia deixa de ser uma opção, torna-se responsabilidade profissional e social. 

💌 Este mar é feito de histórias. Qual é a sua?

Se algo neste texto tocou você, se lembrou de alguém, se despertou uma emoção ou um pensamento, conte pra gente.
Deixe seu comentário abaixo.
Pode ser uma vivência, uma dúvida, uma memória ou até um simples sentimento.
Sua palavra pode acolher, inspirar e fortalecer outros corações que também navegam por esse oceano.
Estamos aqui, remando juntos.

Artigos assinados por profissionais que são referências nacionais e internacionais, parceiros da ©Revista Cuidar.

Gratidão de coração

Se este artigo foi útil para você, torne-se um assinante e apoie o trabalho da revista CUIDAR.



Este artigo é um convite à reflexão, ao fortalecimento e ao reconhecimento dos profissionais que atuam na gestão e no cuidado em Instituição de Longa Permanência para Idosos (ILPI). Sabemos que essa travessia nem sempre é simples. Lidar com o envelhecimento em um ambiente de cuidado residencial e coletivo exige coragem, sensibilidade, preparo e, sobretudo, compromisso ético.

A ILPI (popularmente conhecida como casa de repouso) é a residência das pessoas que moram ali. Porém, dadas as características dos residentes, é necessário cumprir todas as:

  • medidas de biossegurança que garantem segurança para quem cuida e para quem é cuidado;
  • exigências legais, administrativas e fiscais para assegurar a devida transparência para quem contrata o serviço;
  • garantias trabalhistas para os profissionais para evitar problemas futuros.

Nosso objetivo é apoiar trajetórias de sucesso. Valorizamos especialmente aqueles que, mesmo enfrentando inúmeros desafios, seguem buscando caminhos mais humanos, qualificados e sustentáveis. Também desejamos ajudar familiares e comunidades a compreender melhor os critérios envolvidos na escolha de uma ILPI, reconhecendo que, muitas vezes, essa decisão é tomada em momentos de urgência e fragilidade.

Em todas as atividades, sejam de cunho comercial, educacional ou de cuidado, a experiência do cliente é um indicador que mede a chance de a empresa prosperar ou não. Por isso, poderíamos medir o sucesso de uma ILPI pelo bem-estar das pessoas cuidadas e das pessoas que cuidam, inclusive os gestores. Independentemente do porte, da localização ou da natureza jurídica da instituição, o que realmente importa é o compromisso com o cuidado ofertado e com o respeito à dignidade da pessoa idosa. Que esta leitura sirva como ferramenta de orientação, inspiração e reconhecimento do valor de cada profissional envolvido nesta jornada.

Imagine que a ILPI faz parte de um grande oceano, e cada instituição seria um navio ou um barquinho. Alguns maiores, outros menores. Alguns mais equipados, outros mais simples. Mas todos com o mesmo propósito: permitir que as pessoas continuem a remar na vida, mantendo-se sobre as ondas do envelhecimento.

Além dos “marinheiros” que cuidam das pessoas a bordo: cuidadores, assistentes sociais, técnicos de enfermagem, enfermeiros, cozinheiros, psicólogos, terapeutas, etc, há um personagem fundamental: o capitão. Aquele que segura o leme, escolhe o rumo, interpreta os sinais que chegam com o vento, as nuvens, enfrenta as tempestades e mantém o curso com firmeza e compaixão.

Neste texto, entendemos a figura do(a) capitão(ã) como aquela que toma a decisão final. O(a) capitão(ã) pode ser o(a) gestor(a) ou o(a) dono(a) do negócio. Em muitas ILPI, o(a) gestor(a) e o(a) dono(a) do negócio são a mesma pessoa. Em outras tantas, há um(a) presidente(a) de uma entidade mantenedora que contrata alguém para gerir. Também há investidores e investidoras, assim como franquias, que atuam neste ramo de negócios.

É assim que começa a travessia. Portanto, é legítimo perguntar: você confiaria sua vida, ou a de alguém que ama, a um navio cujo capitão não está preparado para navegar?

O capitão: liderança técnica e ética

A gestão de uma ILPI vai muito além da administração de recursos e da organização de escalas. É um ato profundamente humano, que exige sensibilidade, conhecimento técnico, compreensão  e respeito à legislação, e acima de tudo: compromisso ético com a vida.

Estudos realizados no Brasil mostram que muitos gestores possuem nível superior, mas a formação em áreas como gerontologia, administração pública ou saúde coletiva ainda é uma lacuna importante. Contudo, é essencial reconhecer, sem cair no erro das generalizações, que existem inúmeros gestores e gestoras que, com humildade e responsabilidade, estão em constante formação, participando de congressos, lendo artigos, dialogando com profissionais e com a ciência.

Felizmente, muitos gestores entendem que os temas envelhecimento e moradia coletiva e assistida são temas vivos e em enorme efervescência e mudança constante em todo o mundo. Entendem também que as velhices são diversas e estão conscientes de que a experiência do cliente passa pelo cuidado centrado na pessoa. Esses profissionais sabem que não existe gestão de ILPI sem estudo contínuo, pois lidar com a complexidade da velhice que reside em ambientes coletivos requer preparo técnico e alma atenta.

Indicadores de qualidade: além da satisfação do(a) residente, dos familiares e da equipe, os gestores devem monitorar:

  • Índice de ocorrência de incidentes clínicos (quedas, intercorrências) mensais.
  • Percentual de participação em capacitações internas e externas.
  • Tempo de resposta a emergências (protocolos simulados).
  • Avaliações periódicas de bem-estar dos residentes.

Gestão de crises: ter plano para situações como surtos de doenças infectocontagiosas (por exemplo, pandemias como a de COVID-19), falta de insumos críticos (equipamentos de proteção individual, medicamentos), ou desastres ambientais. Realizar simulações regulares, treinar a equipe para resposta ágil e manter comunicação eficaz com autoridades da assistência, de saúde e familiares.

Formação: o leme da navegação

A navegação segura exige instrumentos. A bússola da gestão é o conhecimento. E neste mar onde se lida com perdas cognitivas, com dependência funcional, com cuidados paliativos de vida e de fim de vida, com vínculos emocionais e muitas vezes com o luto, não há espaço para improviso, para posturas inflexíveis ou para achismo.

A formação técnica, principalmente nas áreas de gestão e gerontologia, permite decisões mais assertivas, humanizadas e seguras. A ausência desse preparo coloca em risco não só a sustentabilidade da instituição, mas a própria dignidade da pessoa idosa.

Antes de reagir dizendo “não consigo tempo para isso”, “não vai funcionar”, “não é necessário”, “falar é fácil”, é importante reconhecer que todas as atividades demandam atualização permanente, abertura para inovações e adaptações respeitando os contextos profissionais e culturais.

Gentileza como ponte: o cuidado não é concorrência

Em um mundo marcado por disputas de mercado, é refrescante lembrar, como promovido no Concurso de Gentileza , que sermos pontes de boas práticas não é concorrência. O cuidado não é uma corrida. O cuidado é uma travessia solidária.

Dividir conhecimento, compartilhar experiências e reconhecer o valor de outros serviços não enfraquece ninguém, fortalece o oceano inteiro. No ramo de ILPI, quando uma instituição melhora, todas ganham. Quando um gestor se qualifica, isso impacta positivamente centenas de vidas, pois melhora o entendimento e a percepção do público em geral sobre ILPI e seu funcionamento, o que contribui para reduzir o ILPIsmo.

A parte financeira é importante, sim, afinal ninguém navega sem combustível. Mas o motor verdadeiro de uma ILPI deve ser o compromisso com a vida, com o saber, com o respeito ao envelhecimento. Vidas não são negócios. Vidas são universos.  Portanto, as gestões de negócio e da qualidade do cuidado devem caminhar de forma consonante.

A transparência como âncora de confiança

E para os familiares, que do cais observam o navio levando seus entes queridos, nada é mais tranquilizador do que saber quem está no leme. A transparência da gestão – seu nome, sua formação, sua responsabilidade técnica – é um direito básico de quem contrata seus serviços.

A confiança se constrói com diálogo, com acesso à informação, com visitas bem recebidas, com reuniões periódicas, com abertura para a comunidade. A ILPI não pode ser um espaço de muros. Precisa ser uma ponte entre famílias, profissionais,  pessoas idosas e comunidade.

 Conclusão: navegar com consciência

A ILPI não é um hospital, mas também não é um hotel. É um lugar onde vidas acontecem entre laços, cuidados, alegrias e também dores. Por isso, a gestão de uma ILPI é, em sua essência, uma prática filosófica e ética que demanda reflexões frequentes:

– “Qual é o melhor caminho para apoiar este residente a se manter com vitalidade?”

– “Qual decisão honra esta vida?”

– “O que é justo? A quem eu devo ouvir?”

–  “Esta conduta fortalece a confiança no nosso trabalho? 

– “Esta atitude me/te torna uma pessoa melhor?

– “O que eu falo, eu faço?”

Que sigamos, então, com todos os navios juntos neste mar.

Que cada capitão, capitã se forme, se atualize, se questione.

Que cada instituição se veja como parte de algo maior.

E que, ao fim, as pessoas idosas que estão a bordo se sintam não apenas cuidados, mas respeitados, lembrados e pertencentes. Afinal, você pode ser o dono do negócio, mas eles são os donos da casa.

Checklist de uma Navegação Ética e Consciente

Porque cuidar de vidas exige mais do que boa vontade, exige compromisso diário com a excelência. Aqui estão bússolas práticas para cada parte envolvida na travessia:

📌 Para o(a) gestor(a): o capitão do navio

  • Tenho formação adequada e compatível com as responsabilidades do cargo?
  • Estou em constante atualização (cursos, seminários, leituras, congressos)?
  • Minhas certificações, cursos e reconhecimentos estão visíveis na ILPI?
  • Disponibilizo tempo para escutar equipe, familiares e residentes?
  • Promovo momentos regulares de capacitação e escuta da equipe?
  • Sou transparente com os familiares sobre minha função e preparo?
  • Estou atento(a) à legislação vigente (RDC 502/2021, Estatuto da Pessoa Idosa, etc.)?

Dica: Um quadro na sala de reuniões com certificados e atualizações periódicas transmite confiança e reforça a cultura do conhecimento.

👥 Para os familiares: o cais seguro

  • Além de perguntar o custo, eu perguntei:
    • Quem é o responsável técnico e gestor?
    • Qual sua formação e experiência?
    • Como é feita a capacitação da equipe?
    • Existem protocolos para emergências?
    • Há visitas abertas? Reuniões com familiares?
  • Verifiquei se a ILPI está regularizada na Vigilância Sanitária? 
  • Tem alvará de funcionamento?
  • Conversei com a equipe de cuidados e observei o ambiente?
  • Senti que o idoso será respeitado como sujeito de direitos?

Dica: Não se trata apenas de um leito disponível. Você está confiando um pedaço da história de alguém. Faça as perguntas que o coração mandaria.

🧑‍⚕️ Para a equipe: os marinheiros do cuidado

  • Tenho acesso a formações, oficinas ou reuniões educativas? 
  • Sinto que posso dialogar com a gestão sobre dúvidas ou dificuldades?
  • Participo de momentos de escuta ou autocuidado?
  • Conheço o plano de cuidados dos residentes de quem cuido?
  • Sinto-me parte de uma equipe ou estou apenas “executando tarefas”?

Dica: Cuidar bem exige também ser cuidado. Uma equipe valorizada cuida melhor, com mais presença, sensibilidade e propósito.

Finalizando…

Um bom navio não se mede apenas pela pintura externa, mas pela firmeza da sua estrutura, pela confiança que transmite e pelo modo como navega com todos a bordo.

Que a ILPI seja mais do que uma instituição: que seja um lugar de travessia digna, de trabalho respeitoso, de cuidado qualificado e de vida que segue, mesmo sobre as ondas do tempo.

Saiba mais:

 O que é Gerontologia e por que ela é essencial na ILPI

A gerontologia é uma ciência interdisciplinar que estuda o envelhecimento em seus múltiplos aspectos: biológicos, psicológicos, sociais e culturais. Seu surgimento remonta ao início do século XX, com bases estruturadas a partir das décadas de 1930 e 1940, principalmente na Europa e nos Estados Unidos, como resposta ao crescimento da população idosa e à necessidade de compreender o envelhecer de forma científica, ética e integrada.

Hoje a gerontologia é reconhecida globalmente como campo fundamental para políticas públicas, práticas de cuidado, projetos sociais e gestão de instituições voltadas à pessoa idosa. No contexto das ILPI no Brasil, esse conhecimento é ainda mais necessário.

Já não se sustenta a ideia de ILPI como extensão da caridade ou dos antigos asilos. Devemos muito aos pioneiros movidos pela compaixão e solidariedade, muitos deles admitem que, para cuidar bem, é preciso também ser cuidado: por políticas públicas, suporte técnico, financiamento e formação contínua.

A formação em gerontologia para gestores, responsáveis técnicos e equipes é indispensável. Ela oferece subsídios para compreender especificidades do envelhecimento, lidar com situações complexas de forma ética, evitar práticas institucionalizantes (como rotinas rígidas e padronizadas que anulam a individualidade dos residentes) e promover ambientes que respeitem a autonomia e a dignidade da pessoa idosa.

No entanto, reconhece-se que cursos presenciais de graduação em gerontologia ainda estão concentrados em alguns centros, como o estado de São Paulo, sendo que em outras regiões só estão disponíveis via educação a distância (EAD). Para contornar essa limitação, recomenda-se:

  • Valorizar e reconhecer as formações EAD credenciadas pelo MEC e instituições qualificadas;
  • Investir em cursos de extensão, especialização e pós-graduação lato sensu em gerontologia oferecidos por universidades públicas e privadas em parceria com secretarias de saúde e conselhos profissionais; 
  • Promover programas de capacitação continuada e microcertificações (workshops, webinars, módulos intensivos) focados na realidade das ILPI de cada região, sempre atentos à qualificação de quem ensina. É fundamental verificar a formação, experiência e respaldo institucional dos responsáveis por ministrar tais cursos, evitando a proliferação de conteúdos rasos ou conduzidos por pessoas sem preparo técnico adequado.
  • Incentivar a criação e expansão de cursos presenciais em estados que ainda não os oferecem, por meio de políticas públicas e convênios com instituições de ensino.

À medida que o Brasil envelhece, a qualificação em gerontologia deixa de ser uma opção, torna-se responsabilidade profissional e social. 

💌 Este mar é feito de histórias. Qual é a sua?

Se algo neste texto tocou você, se lembrou de alguém, se despertou uma emoção ou um pensamento, conte pra gente.
Deixe seu comentário abaixo.
Pode ser uma vivência, uma dúvida, uma memória ou até um simples sentimento.
Sua palavra pode acolher, inspirar e fortalecer outros corações que também navegam por esse oceano.
Estamos aqui, remando juntos.

Artigos assinados por profissionais que são referências nacionais e internacionais, parceiros da ©Revista Cuidar.

Gratidão de coração

Se este artigo foi útil para você, torne-se um assinante e apoie o trabalho da revista CUIDAR.

4 Comments

  1. Célia Cristina Henriques Viana Pinto 26/06/2025 at 08:38 - Reply

    Artigo excelente ,me fez navegar no oceano do qual lidamos. Dias com mares revoltos, outros com calmaria, mas com a bússola apontada para nosso objetivo maior : A PESSOA IDOSA

  2. Silvana Cunha 26/06/2025 at 08:48 - Reply

    Atuo como gestora de ILPI há anos, com formação em gestão pública e especialização em gerontologia. Participo de cursos, congressos e certificações que me prepararam para lidar com a complexidade do envelhecimento. O que mais me preocupa é ver colegas sem formação adequada tentando ditar regras para as casas de repouso, criando movimentos os quais são movidos apenas pelo lucro e promoção pessoal. Cuidar de uma vida exige preparo, ética e compromisso, não basta boa intenção. Mostrar nossas qualificações não é vaidade, é responsabilidade com quem confia em nosso trabalho. Obrigada aos autores da revista cuidar por esse artigo. A responsabilidade que temos em nossas mãos é enorme.

  3. Irene Moreira dos Santos 26/06/2025 at 09:18 - Reply

    Uma riqueza de informação, reflexão e orientação.

  4. Jorge 26/06/2025 at 09:27 - Reply

    Me senti reconhecido e desafiado a continuar me qualificando, a capitã da ILPI que eu trabalho está sempre nos ofertando cursos.

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