Nota Editorial: A Revista Cuidar – No Coração das ILPI é um projeto inédito no Brasil, realizado em parceria com a revista italiana CURA, dedicado a compartilhar boas práticas, histórias e saberes que humanizam o cuidado em moradias coletivas para pessoas idosas.

Lançada oficialmente em 24 de abril de 2025, Cuidar nasce do desejo de criar pontes entre quem cuida, quem é cuidado e quem, por muitas vezes, permanece distante dessa realidade. Queremos tornar visível o que há de mais valioso: a relação humana, o afeto, o conhecimento e a dignidade no envelhecer.

Inspirada na força das ILPI e na escuta de profissionais, residentes e famílias, a Revista Cuidar conecta informação de qualidade, narrativas reais e reflexões que buscam transformar o olhar da sociedade sobre o cuidado de longa duração.

Temos a grande honra em apresentar o primeiro artigo da Nivia Pires Collavitti. Com mais de 25 anos de experiência na gestão de ILPI de grande porte em São Paulo, Nivia tem atuado em projetos relacionados ao Envelhecimento Ativo e formação profissional. Sua paixão pelo envelhecimento digno e gestão do cuidado enriquece profundamente a abordagem de seu texto.

Recentemente (em junho), Nivia participou conosco do concurso Gentileza que Protege, trazendo sua experiência e sensibilidade ao diálogo sobre cuidado centrado na pessoa idosa. É com alegria e reconhecimento que a Revista Cuidar publica este conteúdo inaugural que reflete valores compartilhados: acolhimento, educação sociofamiliar e transformação cultural.

Desejamos uma excelente leitura! Compartilhe suas impressões nos comentários ao final do artigo.

A psicodinâmica do evitar: quando a finitude nos desarma

Algumas vezes na vida nos deparamos com situações completamente novas, que exigem atitudes ou ações das quais nem sempre sabemos como proceder. Isso porque, muitas vezes, essas situações sequer foram exploradas em nosso imaginário – por parecerem improváveis – ou porque escolhemos não pensar nelas, mesmo sendo certas.

Associação Cuidadosa

Sob essa ótica, existem alguns serviços que carregam um certo estigma, frequentemente acompanhados de expressões como: “Deus me livre”, “não quero nem pensar”, “jamais” – frases que poderiam render horas de reflexão sobre os pontos de vista singulares de cada pessoa.

Mas vamos colocar nossa lupa sobre essa realidade: como seres mortais, todos precisamos refletir e até organizar nosso processo de finitude e morte. Mas será que fazemos isso? Embora a morte seja uma certeza para 100% das pessoas, arrisco dizer que nem 50% de nós realmente reflete ou discute sobre essa etapa da vida. E, quando tentamos abordar o tema com filhos(as) ou cônjuges, logo ouvimos frases como: “Vira essa boca pra lá!”, “Vamos mudar o rumo da conversa”. Você já viveu algo assim?

Por outro lado, quando falamos de temas mais palatáveis, há maior disposição para o diálogo. Por exemplo: ao organizar uma festa ou ao comprar um carro, é comum que falemos com os mesmos filhos(as) e cônjuges de forma aberta e entusiasmada.

De onde vem essa abertura (ou não) para determinados diálogos? Certamente, do desejo de nos mantermos afastados de temas dolorosos.

A contratação de ILPI sob o olhar da culpabilização cultural

E é justamente nesse ponto que queremos chegar: como nos preparamos para comprar ou vender serviços que lidam com temas complexos e delicados da vida? Se pouco falamos, estudamos ou vivenciamos esses assuntos, como podemos nos sentir preparadosou preparar o mercadopara essa relação?

Neste contexto, os serviços prestados pelas ILPI ainda são vistos sob a ótica dos “temas difíceis”. Ainda persiste no Brasil a crença de que a contratação de uma ILPI é um ato que reflete falha no cuidado familiar ou a ausência de vínculos afetivos entre pais e filhos. A partir dessa crença, quem vende e quem compra o serviço passa a ser observado sob uma lente distorcida, como se fossem pessoas de menor valor. Quando, na realidade, a vivência de familiares, idosos e profissionais nas ILPI mostra exatamente o contrário.

Para que a relação de compra e venda desse tipo de serviço seja verdadeiramente bem construída e alicerçada, é necessário que tenhamos profissionais preparados para acolher a dúvida, a dor, o medo e o despreparo da família, da pessoa idosa e do cliente. A ILPI e seus trabalhadores tornam-se, a partir desse ponto, uma ferramenta essencial de educação sociofamiliar.

Escuta qualificada e acolhimento: a porta de entrada para a humanização

Quando recebemos o contato de um “lead” (potencial cliente), um verdadeiro universo de possibilidades se abre – dependendo dos interlocutores. Para nós, profissionais das ILPI, é fundamental ter habilidade para ouvir com atenção genuína, utilizar um roteiro de perguntas pré-estabelecido que facilite uma precificação parcial, oferecer clareza nas informações coletadas e transmitidas e, sobretudo, praticar o acolhimento.

É importante lembrar que, na maioria das vezes, quem está do outro lado da linha está buscando ou orçando esse serviço pela primeira vez. Talvez não saiba exatamente o que perguntar, talvez tenha medo de ser julgado, talvez esteja com pressa – ou mesmo em sofrimento.

Nesse momento, cabe a nós, profissionais das ILPI, estarmos preparados para desconstruir ou, ao menos, suavizar anos de estigmatização associados à compra de serviços voltados à Pessoa Idosa. Seja no contexto de ILPI, Centros-Dia, Centros de Convivência, clínicas ou outros modelos de atenção, nosso papel é instrumentalizar uma nova forma de relação: mais saudável, transparente e consciente, onde uma parte saiba o que oferece e a outra compreenda o que está adquirindo. Para tanto temos que abrir as portas das ILPI para visitas, estágios e eventos, onde qualquer pessoa possa visitar e conhecer os serviços ali prestados e as pessoas que ali moram, você já visitou alguma ILPI em seu bairro? Talvez seja uma grande oportunidade.

Uma nova ética do cuidado: da culpabilização à conscientização coletiva

Para além do sofrimento de quem contrata esses serviços, há também o das equipes que os prestam. Trata-se de uma relação ainda jovem e pouco amadurecida no Brasil. A ausência de direitos e deveres claramente estabelecidos faz com que equipes e famílias gastem grande parte da energia relacional em questões pequenas e com desgastes emocionais importantes – quando, na verdade, toda essa energia deveria estar voltada à qualidade de vida dos residentes.

Diante disso, é preciso reconhecer que estamos falando de algo muito maior do que a simples contratação de um serviço, estamos tratando de mudanças culturais profundas, que envolvem o enfrentamento de tabus, a reeducação das relações familiares e a construção de uma nova ética do cuidado. Falar sobre finitude, envelhecimento, residencia coletiva para pessoas idosas não deve ser um motivo de culpa ou vergonha, mas sim um passo consciente e necessário rumo a uma sociedade mais preparada. Ao abrirmos espaço para esse diálogo, damos início a um processo coletivo de maturidade social onde o cuidado é compreendido como um ato de amor, planejado e digno.

E assim seguimos, dia após dia, colocando a lupa sobre os desafios – para que permaneçam sendo apenas isso: desafios, e não problemas.

Cordial abraço a todos que pertencem ao ciclo virtuoso do cuidado centrado na Pessoa Idosa.

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About the Author: Nivia Pires Collavitti

Nutricionista graduada pela Universidade São Camilo, com MBA em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas e pós-graduação em U.S. Business & Economic Strategies pela UCSD (Universidade da Califórnia – San Diego). Com mais de 25 anos de experiência no cuidado a pessoas idosas residentes em instituições coletivas, atuo em uma Instituição de Longa Permanência para Idosos (ILPI) de grande porte em São Paulo, atualmente como gerente, onde tive a oportunidade de liderar projetos voltados para o Envelhecimento Ativo e à coordenação de curso de pós-graduação na área de Gestão e ILPI. Minha paixão pelo processo de envelhecer(ser) e gestão me permite contribuir significativamente para a qualidade de vida dos clientes e suas famílias, bem como para a formação de novos profissionais na área.

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