Nota Editorial – Revista Cuidar

É com grande alegria que recebemos nesta edição a contribuição da autora Thaís Teixeira. Com um olhar profundamente sensível e comprometido com a dignidade no envelhecer, Thaís nos convida a refletir sobre o cuidado em Humanitude, uma abordagem que vem transformando realidades ao colocar a pessoa, e não o procedimento, no centro da atenção.

O artigo percorre, com clareza e empatia, os quatro pilares do método Humanitude: olhar, palavra, toque e verticalidade. Esses elementos, muitas vezes esquecidos na rotina exaustiva dos espaços de cuidado, têm o poder de humanizar o cotidiano, restaurar vínculos e relembrar que o cuidado começa antes do toque. Começa no encontro entre dois seres humanos.

Na Revista Cuidar, seguimos firmes em nosso propósito de construir pontes entre o saber técnico e o fazer cotidiano. Cuidar bem exige mais do que boa vontade: exige formação contínua, presença ética, escuta ativa e compromisso com a qualidade de vida em todas as suas dimensões.

Melhorar a cultura do cuidado é uma tarefa coletiva. Somos profissionais, cuidadores, familiares e cidadãos guiados por um mesmo princípio: o de que o cuidado é, antes de tudo, uma escolha por enxergar o outro com humanidade.

Esperamos que este texto inspire reflexões e transforme práticas, dentro e fora dos espaços formais de cuidado.

Boa leitura,
Equipe Editorial – Revista Cuidar

Quando o tempo sufoca o cuidado: entre tarefas urgentes e a ausência de presença

No dicionário Michaelis, o cuidado, enquanto substantivo masculino, é definido como: “atenção que se dedica a alguém”; “forma de agir com preocupação”; “atividade que requer zelo”. Todas essas definições parecem claras e objetivas, mas, diante de um cenário cotidiano, essa definição pode não ser cumprida em sua totalidade. O profissional de cuidado direto, que possui inúmeras tarefas, muitas vezes exigindo uma carga horária maior do que a que lhe é atribuída ou demandando mais de um profissional para a realização, acaba tendo como foco principal a conclusão da tarefa e não a qualidade do cuidado.

Associação Cuidadosa

Diante disso, não é incomum perceber instituições que se destinam ao cuidado exauridas dessa tarefa; desde a gestão aos cuidadores diretos, o ar organizacional é de constante pressa. E, assim como o Coelho Branco personagem do conto Alice no País das Maravilhas, a impressão que se tem dentro desses espaços é de que todos que ali trabalham estão sempre atrasados, vivem o amanhã ainda hoje, com a única certeza de que nunca há tempo o suficiente para realizar tudo o que precisa ser feito.

O olhar sensibilizado da Humanitude

O método Humanitude foi construído por um casal de terapeutas franceses, Yves Gineste e Rosette Marescotti. Diante do desejo do jovem casal, na década de 1970, de ver os adultos idosos serem vistos, reconhecidos, valorizados e cuidados de forma humanizada, eles construíram o método baseado em quatro pilares fundamentais: olhar, palavra, toque e verticalidade.

  • O olhar diz muito sobre um contato inicial. Se olhamos alguém de cima, vemos com os olhos da superioridade; somos capazes de diminuir a dor e a angústia daquele que cuidamos. Se olhamos de baixo, olhamos com submissão e nos tornamos reféns da nossa insegurança em oferecer um cuidado qualificado, desconfiando da nossa própria capacidade. Mas, se nós olhamos na mesma altura e encontramos os olhos, nós podemos enxergar no outro um ser humano como nós — alguém que merece o nosso cuidado, mas, mais do que isso: merece a nossa atenção. Eu não apenas te olho ou te vejo, eu te enxergo.
  • A palavra é uma fonte poderosa de comunicação, com um profundo impacto no ouvinte. Quando alguém se aproxima falando muito alto, pode confundir aquele que não escuta tão bem, assustá-lo e até intimidá-lo; quando se fala muito baixo, pode passar a sensação de insegurança. Mas, quando se usa um tom de voz adequado ao espaço e à pessoa, com suavidade e calma, é possível transparecer sensação de conforto, de tranquilidade. Eu te escuto e te digo com calma, com carinho.
  • O toque diz muito sobre como a relação será estabelecida. Com um toque firme e agressivo, estabelecemos uma relação de superioridade; mas, quando o toque se faz com suavidade, em zonas neutras e seguras, é possível passar a mensagem de respeito e carinho ao mesmo tempo. Eu te vejo e te toco com respeito. Respeito seu espaço, seu tempo.
  • A verticalidade é a garantia da dignidade e autonomia acima de tudo: jamais cuidar de alguém completamente deitado, em posição horizontal, sem que esse alguém consiga enxergar os próprios pés, sem que esse alguém consiga enxergar e acompanhar os seus próprios cuidados. Manter a verticalidade é manter a dignidade humana. Eu não estou acima e nem abaixo de você. Eu estou no mesmo nível que você — dos olhos e do corpo.

A importância da mudança da cultura organizacional das ILPI no Brasil

Muitas ILPI no Brasil, mesmo enfrentando limitações orçamentárias e estruturais, desenvolvem um trabalho ético, cuidadoso e humanizado, comprometido com a dignidade da pessoa idosa.

Porém, conforme aponta o Portal do Envelhecimento em sua matéria “Violência institucional contra pessoas idosas: quando o cuidado falha”, a violência institucional ainda é uma realidade muito presente em diversas instituições, especialmente na região Sudeste.

Durante uma experiência particular como assistente social em uma instituição localizada em uma região marcada por vulnerabilidades sociais e altos índices de violência, foi possível identificar, naquele contexto específico, a presença de práticas que indicavam formas de violência institucional. Essas práticas pareciam, em parte, naturalizadas no cotidiano institucional, muitas vezes justificadas pela sobrecarga de trabalho enfrentada pela equipe e pela percepção de que a complexidade das demandas apresentadas pelas pessoas idosas seria um obstáculo à qualidade do cuidado. Observou-se ainda que a instituição tendia a atribuir suas dificuldades à falta de repasse adequado de verbas públicas, à escassa colaboração familiar e à resistência das pessoas cuidadas, sem, contudo, considerar sua corresponsabilidade no processo. Essa postura se refletia na ausência de investimento em formação contínua e na baixa valorização dos profissionais do cuidado direto, fatores que comprometem a qualificação do serviço ofertado.

Para que um cuidado possa realizar seu trabalho de forma qualificada e assertiva, além de ser formado para isso, é preciso estar em um espaço que reproduza e reafirme, diariamente, o compromisso com os princípios e a missão da instituição. Afinal, o cuidado humanizado garante um caminho mais longo de formação e de constante reafirmação do propósito da instituição, mas também proporciona maior sensação de bem-estar ao realizar um trabalho baseado naquilo em que se acredita.

Além disso, o compromisso com a reciclagem e o acompanhamento técnico são fundamentais para que esses princípios não se percam ou se desviem. A educação continuada é a garantia de um espaço capaz de oferecer trocas qualificadas quando novos desafios aparecem, a fim de manter o compromisso vivo, com certa periodicidade.

O papel da família no cuidado humanizado

Um famoso e conhecido provérbio africano diz que “é preciso uma aldeia inteira para cuidar de uma criança”, pois para cuidar de pessoas mais velhas, também. A família tem um papel fundamental em compreender como se comunicar e se conectar com o seu familiar idoso, em especial famílias que enfrentam o desafio dos avanços de uma doença que compromete a capacidade cognitiva, mas, em muitos casos, pode também comprometer a dicção, tornando a comunicação entre a família estremecida, distante e até cada vez menos praticada.

No livro A Máquina de Fazer Espanhóis, de Valter Hugo Mãe, o protagonista, Antonio Silva, descreve como as visitas da filha na ILPI em que ele vive e para a qual foi colocado contra a sua vontade, se tornam espaçadas ao longo do tempo, e as roupas passam de um caráter simples para roupas mais formais, visto que o evento de “ir visitar o vovô na ILPI” se torna cada vez mais um evento, e não uma constância.

No livro Tentativas de Fazer Algo da Vida, de Hendrik Groen, e no livro Misericórdia, de Lídia Jorge, as visitas são retratadas como momentos desafiadores e, a depender do contexto, tornam-se constrangedoras pela falta de estratégia da família em lidar com a institucionalização da pessoa idosa. Um misto de medo de falar sobre os problemas triviais da vida e preocupar a pessoa idosa, com a culpa de falar de coisas boas da vida das quais a pessoa idosa não participa, resulta em uma equação que busca subtrair quase todas as informações do “mundo exterior” e torna o momento vazio de sentido, girando apenas em torno da rotina dentro do espaço. Sendo assim, a família reproduz o isolamento social sentido e vivenciado pelas pessoas idosas que passam a viver em instituições.

Neste sentido, um cuidado humanizado também prevê a reflexão sobre como tornar esses momentos especiais, como construir estratégias de comunicação não verbal quando há essa necessidade, além de promover estratégias para fortalecer os vínculos familiares não apenas dentro da instituição, mas para que possam levar a relação e a vivência para fora desse espaço.

Cuidado humanizado não é cuidado apressado, nem cuidado padronizado

Com o tempo sempre curto, como é possível ter um cuidado humanizado? O tempo só é curto, pois nós temos pressa em excesso para cuidar.

Em média um cuidador gasta muito minutos em uma tarefa simples de dar um banho, pois o idoso se recusa a tomar banho, e até que se possa solucionar a sua agitação, acalmá-lo e garantir que a tarefa seja realizada, um período longo já se passou, mas se, desde o início, o olhar, a palavra e o toque forem ajustados, enquanto a verticalidade for respeitada, o tempo será menor, visto que os episódios de agitação se tornam exceções e não cotidianas.

Durante a pressa em entrar no quarto correndo, aos berros, sem levantar o idoso da cama a fim de ficar em 90 graus, mas sim tirando a roupa enquanto ele ainda permanece deitado, é possível notar que rapidamente a pessoa fica em alerta: diante do susto e da agilidade das ações, é natural que qualquer pessoa reaja com agressividade, impaciência e nervosismo, mas se, desde o início, houver uma preanunciação de entrada no ambiente, apresentação de quem é a pessoa que realizará o cuidado e a narrativa do que será feito, com o devido posicionamento vertical da pessoa idosa, a identificação se tornará muito mais fluida e a cooperação por parte da pessoa cuidada será maior.

Devemos ter em mente que o cuidado é essencial para nos manter vivos desde o momento em que nascemos e até o momento em que não mais viveremos, por isso, deve ser feito não apenas com técnica, mas com carinho e com foco na dignidade da pessoa que está sendo cuidada.

“Você pode saber todas as técnicas [do cuidado], mas quando toca uma alma humana, deve fazê-lo como uma alma humana.” Carl Jung

 E para todos aqueles que gostariam de ampliar o seu conhecimento e a sua visão humanística sobre cuidado, acesse o Guia Gratuito de cuidados humanizados em ILPI – Clique aqui para baixar gratuitamente. 

E você, como tem vivido ou presenciado o cuidado humanizado no dia a dia? Compartilhe suas experiências, desafios ou reflexões nos comentários.

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About the Author: Thaís Teixeira

Formada em Serviço Social, com pós-graduação em Gerontologia e mestrado em Gerontologia Social. Criadora de conteúdo na página @longevamente.

One Comment

  1. Terezinha Aziz A Sant 06/07/2025 at 18:05 - Reply

    Muito bom

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  1. Terezinha Aziz A Sant 06/07/2025 at 18:05 - Reply

    Muito bom

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