Nota Editorial — Revista Cuidar

Na Revista Cuidar, acreditamos que o cuidado com pessoas idosas vai muito além das práticas técnicas: ele nasce da escuta, do respeito e do encontro humano. Em cada instituição de longa permanência, vivem histórias únicas, memórias profundas e afetos que merecem ser honrados com delicadeza e dignidade.

Neste artigo, convidamos você a refletir sobre um dos momentos mais desafiadores e significativos do cuidado: a comunicação de perdas e a vivência do luto com pessoas idosas que moram nas ILPI. Com sensibilidade e rigor ético, a psicóloga e tanatologista Silvana Lavechia nos conduz a olhar para esse processo com empatia, humanidade e compromisso com o bem-estar emocional das pessoas idosas e de suas famílias.

Que esta leitura inspire práticas cada vez mais cuidadosas, amorosas e respeitosas dentro das ILPI.

“A reverência pela vida exige que sejamos sábios para
permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir.”
Rubem Alves

A comunicação de notícias difíceis e suas repercussões à pessoas idosas que residem nas ILPI é uma das tarefas mais desafiadoras e importantes pelas quais os profissionais dessas instituições se deparam em sua rotina, muitas vez por falta de informação e medo de como essa notícia pode repercutir no dia a dia da pessoa idosa que mora em lares coletivos.

Embora saibamos que a morte é a maior certeza que o ser humano carrega consigo, ainda assim lidar com esse evento é um processo complexo e singular, considerando que cada óbito traz uma história, uma perda, uma dor, assim como uma mistura de tantos outros sentimentos.

Importante ressaltar que as pessoas idosas que moram nas ILPI, em sua maioria, já passaram por muitas perdas em suas trajetórias de vida. Há de se considerar também as perdas simbólicas que vivenciaram até chegarem para morarem nas instituições: de seu espaço, de seus objetos, que muitas vezes precisaram se desfazer, de sua rotina e convívio social, dentre tantas outras. Nas instituições também se deparam com a perda de amigos que residem nos quartos, companheiros de conversa, profissionais da instituição que se vão, por diversos motivos, dentre outros.

Individualidade, Cultura e Sensibilidade no Processo de Comunicação

Há de se entender que a comunicação de um óbito não é uma tarefa simples para quem transmite e nem para quem recebe a notícia. Há muita dúvida quanto a falar ou não da morte de algum ente querido para a pessoa idosa. Cada caso deverá ser avaliado com muito cuidado, junto com a devida orientação e participação familiar. Portanto, não se tem resposta pronta e fechada em relação à essa questão, sendo importante considerar cada situação de forma individualizada.

Não se trata apenas de capacitação e treinamento para dar notícias difíceis. Vai muito além destes aspectos objetivos e passíveis de controle. Neste processo, a cultura e a subjetividade (crenças, valores, opiniões, condições de saúde física e mental) devem ser levados em conta.

Associação Cuidadosa

Quando o profissional da instituição junto com o familiar decidem dar essa notícia difícil, alguns cuidados se fazem necessários: a compaixão e se colocar no lugar do residente deve estar em primeiro lugar nesse momento. Essa transmissão não pode ser dada de forma fria e banal. É preciso pensar antes no que vai ser dito, em como e em qual ambiente isso será feito. Importante escolher um local adequado, onde se mantém a privacidade, e que seja calmo e acolhedor. A comunicação deve ser feita de maneira clara, cuidadosa, verdadeira, porém empática. Pode-se iniciar dizendo que não tem uma notícia boa para dar-lhe, porém assegurar-lhe que estão todos interessados em seu bem estar.

Não temos como saber a reação da pessoa frente à essa notícia difícil, pode ser que o profissional enfrente o choro ou o silêncio; em outros momentos, manifestações de raiva, apatia, negação, dentre outros. O importante nestes casos é a escuta amorosa e empática.

O Luto, a Autonomia e a Importância dos Vínculos

Devemos também considerar com a pessoa que recebeu a difícil notícia da perda de um ente querido, se deseja participar do ritual de despedida: seja participando do velório e enterro, quando isso for possível, ou mesmo de maneira virtual (hoje a tecnologia pode proporcionar essa opção) ou de algum ritual, de acordo com suas crenças. Essa participação é essencial no processo de elaboração do luto, diferente do que muitas famílias pensam em estar provocando mais sofrimento à pessoa idosa. A consideração e oportunidade que a própria pessoa possa ter para fazer sua escolha, lhe traz a manutenção da autonomia, gerando o sentimento de dignidade.

Essa breve consideração traz a questão da importância da manutenção de vínculos verdadeiros e confiáveis que se estabelece nas ILPI. Relações de afeto e confiança podem ser indicadores de suporte para elaboração do luto. Entender que o morrer é uma das etapas da existência humana em qualquer fase da vida, e que ela é uma experiência subjetiva, porém complexa para a maioria das pessoas que se encontram em idades mais avançadas, e o cuidado com essa questão na transmissão e condução faz toda a diferença no processo de elaboração do luto.

About the Author: Silvana Lavechia

Psicóloga especialista em Gerontologia pela SBGG-SP, especialista em Tanatologia (Instituto Carpe Diem-CE), especialista em Psicossomática (IBEHE-SP), analista em formação pelo IPAC – Campinas-SP

One Comment

  1. RITA DUARTE DO AMARAL 30/10/2025 at 09:33 - Reply

    Parabéns Silvana.
    Nos perdemos de vista e agora encontro este artigo tão bem escrito e sensível.
    Abraço

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  1. RITA DUARTE DO AMARAL 30/10/2025 at 09:33 - Reply

    Parabéns Silvana.
    Nos perdemos de vista e agora encontro este artigo tão bem escrito e sensível.
    Abraço

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