Nota Editorial

Com sensibilidade e delicadeza, Thaís Teixeira nos presenteia com este texto que propõe um olhar especial sobre a vivência do tempo nas Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI). Inspirada nas noções gregas de Chronos, Kairós e Aion, ela nos convida a refletir sobre como o tempo se revela na rotina, nas experiências subjetivas e na eternidade das memórias. Mais do que marcar horas, sua escrita nos lembra da preciosidade de cada instante vivido, do valor de investir nele com sabedoria e da beleza de transformar cuidados em vínculos, rotinas em oportunidades e lembranças em permanência afetiva.

De acordo com a língua grega antiga, “chronos” (χρόνος), “kairós” (καιρός) e “aion” (αἰών) são três palavras utilizadas para definir o tempo. Chronos diz respeito ao tempo sequencial, medido, cronológico, podendo ser quantificado através do cronômetro, do relógio e até do calendário, já o Kairós é o tempo subjetivo, o tempo que vivenciamos uma experiência, um momento, uma ocasião e esse não pode, e nem deve ser medido, porque ele é significativo para cada um. Enquanto Aion é o tempo que não tem começo, meio e nem fim, ele é eterno, ele é o tempo da alma, do “para sempre”, é como um estado contínuo de existência.

O Chronos dentro da ILPI

Quando uma pessoa mais velha passa a se inserir dentro de uma rotina institucional, a sua noção de tempo passa por algumas alterações de percepção, o Chronos, muitas vezes, pode passar a ser o tempo cronometrado pelas refeições. De manhã, logo cedo, tem o café, e mais para o meio tem também um lanche, para depois pontualmente ao meio-dia ter o almoço servido, porque depois é capaz que haja tempo para um breve cochilo antes do lanche da tarde, que antecede o jantar, e em muitos casos, a ceia, em outros, antecede a hora de dormir para começar tudo de novo no dia seguinte.

Algumas pessoas podem se alinhar no tempo através da rotina dos cuidadores, desde a hora que o cuidador do plantão noturno vai embora, o do plantão do dia chega, a hora deles fazerem as suas tarefas, pararem para o almoço e assim por dia. Há também quem se oriente pela televisão, começando o dia com o jornal da manhã, passando pelo café da manhã compartilhado com a Ana Maria e o lanche antes do almoço na companhia da Patrícia Poeta, para mais tarde ser acompanhado pelos jornais, até chegar de noite a hora de assistir a novela.

O Kairós como tempo da experiência

O tempo Kairós já se mede de forma diferente, mais subjetiva, em especial quando a filha daquela pessoa mais velha está há quase um mês sendo prometida, várias ligações para remarcar, muitos pedidos de desculpas e muitas justificações do motivo da filha não poder comparecer, o que talvez para a filha seja um mês que passou voando, com muitos afazeres e tarefas, para a pessoa idosa pode representar um tempo quase infinito, tão longínquo que ela mal consegue definir quanto tempo faz que ela aguarda a notícia de que a filha finalmente chegou para visitar.

Além disso, o tempo Kairós também é capaz de passar com extrema agilidade, quando finalmente a pessoa idosa recebe aquela visita tão esperada, ou até sai da instituição para viver um momento especial com a família, e sente que o tempo passado é como se não coubesse nos minutos do relógio, pois é como se o relógio – também tão eufórico – sentisse os seus ponteiros acelerar de tamanha alegria e ansiedade. Esse mesmo tempo também pode ser eterno quando se espera uma notícia difícil, triste ou até uma notícia feliz, a sensação de que o relógio prende a respiração junto, para de andar com os seus ponteiros na agonia de saber como serão os próximos passos, qual será o tratamento, se o bebê já nasceu, ou tantas outras notícias que somos capazes de esperar com todo o nosso corpo e a nossa alma.
[…]
Por ter um tempo de relação com o outro, o Kairós exige de nós paciência, porque não podemos definir o momento exato que ele irá acontecer, exige também presença, escuta e atenção, pois precisamos estar atentos durante o cuidado com a pessoa idosa para perceber sinais que podem ser sutis, assim como pede a entrega ao ritmo do outro, para que possamos fazer do cuidado como uma valsa em que o passo precisa estar em compasso, as duas pessoas em sintonia para realizar uma dança belíssima. Essa é a grande magia do Kairós, durante toda a valsa, em um belo momento – um momento oportuno – você percebe que aqueles três minutos de olho no olho ao se despedir são o momento exato em que a relação de confiança se firmou.

O Aion como eternidade das memórias

Já o tempo Aion é um tempo de eternidade vivido por todos aqueles que guardam as suas memórias, é um tempo em que os sentimentos, as saudades, o prazer de estar junto não se perde, não há fim para o estado e presença amorosa que permanece mesmo depois da ausência física. É nesse tempo que moram as vozes que já não ouvimos, mas ainda ecoam dentro de nós. É o tempo daquilo que não morre, mesmo quando já não está. É o tempo em que o amor, quando verdadeiro, ultrapassa o calendário, os relógios, os diagnósticos e os adeuses. É o tempo em que a alma se reconhece, onde a memória é morada e não apenas lembrança.

O tempo Aion, dentro da ILPI, é o tempo eterno das memórias revividas inúmeras vezes como se fosse a primeira, é o encanto de sentir o cheiro de uma comida afetiva e ser teletransportado de volta para a infância, o que faz com que o passado se torne presente, é também todo o tempo que existe em um olhar distante, perdido na janela, não está no agora físico, mas em algum lugar onde o corpo não foi, mas a alma mora. É um tempo cíclico que é capaz de misturar toda uma vida em uma cronologia única e sem fim, entre tudo que já foi vivido e o que é que se espera viver para além dessa vida.

Quando uma pessoa passa a fazer parte de uma ILPI, sua rotina passa a ser regida através da rotina institucional, por esse motivo, devemos ter em conta que o tempo Chronos não pode e nem deve ser engessado, um tempo concreto que não dá espaço para fugas, para inovações, para mudanças na rotina, pois devemos ter em mente que todos nós carregamos alguma memória de momentos especiais em que saímos da rotina e fizemos algo prazeroso. Nada melhor do que organizar um dia para simplesmente mudar um hábito rotineiro, acordar mais tarde, fazer as refeições mais tarde, ir passear mais cedo ou fora do horário habitual.

Esse movimento estimula a nossa capacidade de criatividade, de viver o presente, e torna o tempo Kairós inesquecível aos olhos de quem vive. […] Incentivar os familiares a usarem do seu tempo com a pessoa idosa para criar essas memórias e valorizar o tempo Aion que ultrapassa a vida terrestre; construir espaço de acolhimento para reviver momentos no futuro.

Um brinde ao tempo

Não devemos nunca passar a vida apenas correndo contra o Kronos, pois perderemos o tempo Kairós que é oportuno, e talvez não tenhamos tempo para estar sensíveis e receptivos para perceber o tempo Aion. Devemos investir em não apenas gastar o nosso tempo, mas investi-lo com sabedoria, sensibilidade e sentido.

Que nós possamos acolher em nós, diante de um mundo que corre contra o tempo, a preciosidade que é viver o tempo cronológico, o tempo subjetivo e o tempo eterno com quem amamos, e que cada vez que pisemos o pé em uma instituição estejam dispostos a oferecer o tempo Chronos, Kairós e Aion às pessoas mais velhas.

Associação Cuidadosa

Para isso, deixamos aqui um brinde ao tempo, texto interpretado por Nicette Bruno no último capítulo da novela “A vida da gente”:

“Quem teve o privilégio de viver muito sabe que o tempo é um mestre muito caprichoso. As vezes as suas lições são tão repentinas que quase nos afogam, outras vezes elas se depositam devagar, como a conta-gotas, diante da avidez das nossas perguntas. E é por isso que quem tem o privilégio de viver muito tempo aprende a olhar com serenidade o turbilhão da vida. Amores ardentes se extinguem, urgências se acalmam, passos ágeis relentam. Enfim… Tudo muda: muda o amor, mudam as pessoas, muda a família, só o tempo permanece do mesmo modo, sempre passando. E é por isso que eu queria, esta noite, erguer um brinde a ele que esculpiu no meu rosto e na minha alma a sua marca da qual eu tanto me orgulho: um brinde ao tempo!”

Assista ao vídeo emocionante dessa fala:

About the Author: Thaís Teixeira

Formada em Serviço Social, com pós-graduação em Gerontologia e mestrado em Gerontologia Social. Criadora de conteúdo na página @longevamente.

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