Agnosia: Quando a Percepção Falha

No cuidado diário com pessoas idosas, muitas vezes observamos que algumas pessoas, apesar de conseguirem enxergar, ouvir e sentir o que tocam normalmente, elas não conseguem interpretar o que experimentam. Essa condição estranha se chama agnosia. Trata-se de um distúrbio neurológico silencioso, que passa despercebido, mas gera grande insegurança na pessoa idosa e em seus cuidadores. Compreender a agnosia é o primeiro passo para garantir dignidade, autonomia e segurança.

Exemplos que Ilustram o Desafio

Imagine a dona Maria examinando a escova de dentes com curiosidade, mas sem compreender para que ela serve. Visualize o senhor João sentado na sala, ouvindo o toque da campainha sem reagir porque não é capaz de reconhecer que o sinal da campainha é um alerta de que há alguém aguardando para entrar. Já presenciei casos em que a pessoa idosa segura um relógio, mas busca olhar a hora embaixo do pulso, sem perceber o mostrador. Em todas essas situações, o estímulo sensorial – tato, visão, audição – existe, porém não a pessoa não é capaz de interpretá-lo e, portanto, ele não se converte em reconhecimento nem em uma ação adequada.

Como Identificar os Sinais

Profissionais de saúde, cuidadores e familiares devem observar comportamentos como:

  1. Hesitação ao manusear objetos: garfos, escova de dentes, óculos, roupas e utensílios em geral podem parecer estranhos;
  2. Falta de resposta a sons familiares: os sons de campainha, telefone, celular, alertas de mensagens e até mesmo a voz de filhos ou netos deixam de ser associados ao significado habitual;
  3. Reconhecimento falho de rostos e lugares: faces conhecidas, inclusive o próprio rosto no espelho, podem não ser reconhecidos; ambientes antes seguros e familiares provocam insegurança, medo e confusão;
  4. Reações emocionais atípicas: medo, ansiedade ou irritação diante do que deveria ser familiar.

Diagnóstico e Avaliação Especializada

Ao notar esses sinais de forma persistente, é fundamental buscar avaliação multidisciplinar o quanto antes. Profissionais como o geriatra e o neurologista conduzem o exame clínico e, se avaliarem necessário, complementam com exames laboratoriais e de neuroimagem, como ressonância magnética. Existem testes específicos que o neuropsicólogo pode aplicar para diferenciar os tipos de agnosia: visual, auditiva, tátil ou associada ao reconhecimento de faces e mensurar o grau de comprometimento.

Determinar a causa é igualmente importante. Entre as principais estão a doença de Alzheimer, o acidente vascular cerebral (AVC), traumatismo craniano e tumores cerebrais. Em pessoas com processos demenciais, a perda da capacidade de reconhecimento é parte do processo de agravamento da doença. No caso de AVC pode haver perda da capacidade de reconhecimento da dificuldade de andar, por exemplo, o que expõe a pessoa a risco de quedas porque ela não percebe que um lado do corpo está mais fraco do que o outro. No caso de traumas ou tumores, pode haver sangramento em áreas que podem causar agnosia e justificar uma intervenção cirúrgica. Assim, cada uma das causas requer o planejamento de cuidados adaptados à situação clínica da pessoa idosa.

Estratégias para Adaptar o Ambiente

Um ambiente bem planejado reduz a frustração e favorece a orientação. Recomendam-se:

  1. Sinalização clara: Use etiquetas com imagens e palavras em portas, armários, gavetas e objetos de uso diário. Isso reforça a associação entre o objeto e sua função.
  2. Referências afetivas: Deixe fotos de família, lembranças e objetos pessoais ao alcance. Esses itens despertam memórias e geram conforto emocional.
  3. Iluminação e contraste: Garanta luz adequada e contraste entre chão, paredes, móveis e objetos. Isso facilita a percepção espacial e reduz o risco de quedas.
  4. Rotina estruturada: Adote horários regulares para refeições, atividades e higiene. Divida cada tarefa em passos simples e previsíveis, repetindo sempre a mesma sequência.

Comunicação que Acolhe e Orienta

A forma de falar faz toda a diferença na experiência de uma pessoa idosa que esteja tendo dificuldades de reconhecer a si mesmo e ao ambiente. A comunicação empática diminui a ansiedade e fortalece o vínculo:

Associação Cuidadosa
  • Antes de qualquer ação, anuncie claramente o que fará: “Agora vou ajudar você a escovar os dentes”
  • Apresente-se sempre que necessário: “Oi, sou a Sandra, estou aqui para ajudar você”
  • Prefira frases curtas e objetivas, evitando perguntas que testem a memória, o que só aumenta a ansiedade e a angústia
  • Elogie cada esforço, por menor que pareça: “Que bacana, você escovou muito bem os dentes”, sempre com muita atenção para não infantilizar a pessoa idosa. 

Reabilitação Cognitiva e Novas Conexões

Apesar de a agnosia não ter cura definitiva, a reabilitação cognitiva e a terapia ocupacional promovem estratégias de compensação. Em sessões com fonoaudiólogos e terapeutas ocupacionais, utilizamos atividades que combinam tato, som e imagem para reforçar o reconhecimento:

  • Tocar uma fruta enquanto ouve a descrição do terapeuta e vê a foto da fruta
  • Manipular objetos enquanto repete verbalmente o nome e a função
  • Jogos de pareamento entre som, imagem e palavra escrita

A repetição orientada e a prática regular fortalecem as vias neurais e melhoram a autonomia.

Impacto no Bem-Estar e na Qualidade de Vida

Cuidar de uma pessoa idosa exige estudo constante e olhar técnico 360º. 

Fica a dica: não adianta falar mais alto, se a pessoa não está conseguindo compreender o que lhe é dito. Não adianta exigir que a pessoa escove os dentes, se ela não é capaz de compreender para que serve a escova de dentes. Tocar com rispidez somente fará a pessoa se sentir agredida e não cuidada, o que pode gerar medo, agressividade e mais trabalho para quem cuida.

A agnosia que não é percebida pela equipe de cuidados, permanece invisível e pode gerar isolamento, queda na autoestima e aumento do risco de acidentes. Reconhecer precocemente este e outros sinais garante prevenção e qualidade de vida. Profissionais de ILPI e familiares que se mantêm atualizados e adotam intervenções rápidas ajudam a pessoa idosa a manter-se segura, participativa e com sentido de pertencimento.

A agnosia desafia nossa percepção de que ver e ouvir garantem compreensão. Ao despertar a atenção para este fenômeno, somos capazes de oferecer cuidados que respeitam as limitações e valorizam a dignidade da pessoa.

Compreender é o primeiro ato de cuidado. No envelhecimento, cuidar também é respeitar os limites da mente.

E você, conhece alguém que esteja apresentando agnosia na sua instituição?

About the Author: Karla Giacomin

Médica geriatra, doutora em Ciências da Saúde (PhD), presidente da Associação Cuidadosa, vice-presidente da ILC, consultora da OMS, coordenadora-geral da Frente-ILPI e diretora de redação da Revista Cuidar.

One Comment

  1. Selma Maria Rocha de Carvalho 13/07/2025 at 16:57 - Reply

    Muito bom, informa com clareza e simplicidade, orienta e alcança o entendimento para Cuidar melhor da Pessoa Idosa .

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  1. Selma Maria Rocha de Carvalho 13/07/2025 at 16:57 - Reply

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