Você se lembra de todas as brincadeiras que o divertiram na infância? Dos passeios com amigos ou familiares, das comidas especiais e das conversas que aqueceram seu coração ao longo da vida? Talvez não se lembre de tudo — e está tudo bem. Nosso cérebro naturalmente seleciona o que armazenar na memória, e a intensidade emocional de uma experiência influencia diretamente nessa escolha.

A ciência do envelhecimento tem mostrado que, mesmo quando a memória falha, o bem-estar permanece. Especialmente entre as pessoas idosas com quadros de demência, muitos não se recordam dos detalhes de uma festa ou passeio, mas retêm por horas — e, às vezes, dias — a sensação agradável que aquela vivência lhes proporcionou. O prazer, o sorriso, o sentimento de pertencimento ficam. E é por isso que não medimos esforços para proporcionar momentos significativos às pessoas que moram em residenciais sêniores.

O Crescimento da População Idosa: Um Desafio e Uma Oportunidade

O Brasil e o mundo estão envelhecendo. Segundo o IBGE, em 2023, mais de 15% da população brasileira tinha 60 anos ou mais — e essa porcentagem deve dobrar até 2050, alcançando cerca de 30%. A longevidade é uma conquista, mas também impõe desafios, especialmente no cuidado de idosos em situações de fragilidade, como os residentes em Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI), popularmente conhecidas como casas de repouso.

Estima-se que o Brasil tenha mais de 7.000 ILPI, públicas, filantropicas e privadas, abrigando aproximadamente 300 mil idosos. Esses locais, quando bem estruturados, oferecem muito mais do que assistência clínica: devem proporcionar dignidade, acolhimento e, principalmente, oportunidades de bem viver.

Atividades Significativas: Uma Ferramenta Terapêutica e Afetiva

Mesmo em contextos de fragilidade física ou cognitiva, como ocorre em pessoas idosas que convivem com demência, é essencial oferecer atividades que façam sentido, respeitem suas histórias e promovam bem-estar. Atividades como festas temáticas, passeios ao ar livre, oficinas de arte, culinária ou música, feitas por profissionais capacitados, não são apenas entretenimento — são terapias afetivas e efetivas, que ativam memórias, promovem conexões sociais e elevam a autoestima.

Pesquisas em gerontologia mostram que o engajamento em atividades significativas melhora o humor, reduz sintomas de depressão e pode até retardar a progressão de sintomas em algumas demências. Além disso, promove um senso de identidade, protagonismo e continuidade pessoal, ajudando a pessoa idosa a se reconhecer em meio às perdas e mudanças impostas pela fragilidade.

A Dimensão Emocional do Cuidado

Cuidar de uma pessoa idosa é mais do que garantir alimentação, higiene e segurança. É proporcionar momentos de prazer que, ainda que não fiquem na memória declarativa, deixam marcas emocionais positivas. É entender que, mesmo diante da perda de capacidades, a pessoa idosa continua a ter necessidades emocionais, espirituais e sociais.

Associação Cuidadosa

Festas, passeios e encontros são estratégias simples, e poderosas. Em nossos residenciais parceiros, cada atividade é pensada com protocolos adequados, carinho, respeitando os limites e preferências de residentes. Vemos os olhos brilharem, os sorrisos se abrirem — mesmo quando as palavras já se foram. É nesse brilho que reconhecemos o valor de nosso trabalho e a importância de manter viva a chama da alegria em todas as fases da vida.

Promover bem-estar no envelhecimento não depende da ausência de doenças, mas da presença de significados. Mesmo em casas de repouso, mesmo com limitações físicas ou cognitivas, é possível (e necessário) viver com prazer.

Que as políticas públicas e a sociedade como um todo reconheçam a importância de garantir a todas as pessoas idosas, mesmo para aqueles em cuidados paliativos, o direito de continuar vivendo com dignidade, afeto e alegria.

Afinal, as memórias podem desaparecer, mas a emoção de um momento feliz permanece. E isso, por si só, já é um poderoso cuidado.

Apaixonada pelo cuidado integral do ser humano, Mayara é Terapeuta Ocupacional formada pela UNIFESP, com trajetória dedicada à Saúde Mental, Neuroaprendizagem, Gerontologia, Dinâmicas Familiares e Gestão. Ao longo dos anos, desenvolveu uma visão sensível e inovadora sobre o envelhecimento, unindo ciência e empatia para transformar o cotidiano de instituições de longa permanência. Como CEO e Mentora da metodologia ABIÊ Terapias, e Consultora em Saúde, lidera equipes multidisciplinares com o propósito de ressignificar o cuidado, fortalecendo o vínculo entre profissionais, idosos e suas famílias. Sua atuação vai além da gestão: constrói espaços de acolhimento, desenvolvimento humano e excelência terapêutica, trazendo abordagens práticas personalizadas para cada história de vida. Acredita que o verdadeiro cuidado nasce do trabalho em equipe, onde cada profissional oferece o seu melhor e juntos criam um ambiente de dignidade, bem-estar e amor para quem mais precisa.

2 Comments

  1. Maria Helena Silveira 14/08/2025 at 04:06 - Reply

    Gostei muito.

  2. Selma Maria Rocha de Carvalho 16/08/2025 at 09:57 - Reply

    Muito bom! Aliás, todos os artigos já publicados estão na mira de nossa ILPI. Aline, você é a tal e seus colaboradores nota 1000! abraço fraterno e festivo.

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2 Comments

  1. Maria Helena Silveira 14/08/2025 at 04:06 - Reply

    Gostei muito.

  2. Selma Maria Rocha de Carvalho 16/08/2025 at 09:57 - Reply

    Muito bom! Aliás, todos os artigos já publicados estão na mira de nossa ILPI. Aline, você é a tal e seus colaboradores nota 1000! abraço fraterno e festivo.

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