Um inverno que exige ação clara e coordenada

Por: Dr. Paulo Villas Boas
Coautoria: Aline Salla.

O inverno de 2025 chegou com números que não podem ser ignorados. Segundo o Boletim Infogripe da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCruz), até 05/07/2025, foram notificados mais de 126 mil casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), e mais da metade envolve pessoas idosas. Nessa faixa etária ocorre o maior número de óbitos para esta condição.

Os principais agentes etiológicos diagnosticados foram Influenza A (causador da gripe) (em pessoas com mais de 65 anos) e Vírus Sincicial Respiratório (VSR) (em menores de 5 anos). Neste ano, o Influenza A é responsável pela maior parte dos óbitos entre pessoas idosas.

Atualmente, parcela importante das pessoas idosas hospitalizadas por gripe tem risco de falecer. Esses dados não são estatísticas frias. Elas representam mães, pais, avós, histórias inteiras. Representam perdas que poderiam ser evitadas com decisões simples, técnicas, firmes e segura – como a imunização contra Influenza.

Além disso, a gripe pode levar à descompensação das doenças caso a pessoa seja portadora, como diabetes mellitus, DPOC, insuficiência cardíaca, demência, muitas vezes com necessidade de hospitalização.

Vacinação: um dever ético e uma ferramenta de cuidado

Vacinar não é uma escolha pessoal quando envolve a saúde coletiva. É um compromisso ético de todos os envolvidos no cuidado às pessoas idosas.

A vacina contra Influenza (ou Vacina de Gripe) é disponibilizada na rede pública de forma gratuita na forma trivalente e é segura e efetiva.

Associação Cuidadosa

A presença de doenças crônicas não impede a vacinação contra a Influenza. Pelo contrário, torna ainda mais urgente e necessária esta proteção, pois os portadores de doenças crônicas apresentam maior risco de complicações, como hospitalização e mesmo óbito, quando são acometidos por esta infecção viral.

Quem mais precisa da vacina?

  • Todas pessoas idosas
    O processo natural de envelhecimento reduz a resposta imunológica. A vacinação contra Influenza reduz internações em até 60% e mortes em até 80%.
  • Pessoas com doenças crônicas
    Demência, diabetes, hipertensão, DPOC e doenças cardíacas aumentam o risco de complicações. A vacina diminui hospitalizações, perdas cognitivas e funcionais.
  • Todos que convivem com pessoas idosas
    A vacinação de cuidadores, familiares e profissionais de saúde reduz a circulação do vírus. É uma forma concreta de proteção mútua.
  • A vacina de 2025 é segura e eficaz
    Produzida pelo Instituto Butantan com base nas recomendações da Organização Mundial da Saúde, contém as cepas mais relevantes do ano. Reações adversas graves são raras. Mesmo quem se vacinou em ou anos anteriores deve receber a nova dose todo ano. Isso é proteção real.

A prevenção mora nos detalhes

A soma de pequenos descuidos pode abrir a porta para tragédias evitáveis, principalmente em relação aos vírus respiratórios como influenza.

Como exemplo, podemos citar um oxímetro mal higienizado, um cuidador com máscara mal ajustada e uma tosse ignorada em espaço compartilhado. 

Pequenas atitudes permitem CUIDAR de uma pessoa idosa, preservando décadas de afetos, histórias e vínculos. Cada pequeno gesto carrega um impacto. A segurança nasce da rotina bem-feita. Do protocolo seguido. Do cuidado informado.

Cuidador revise suas rotinas e sua forma de cuidado.

Resgate as medidas que realizava durante a Pandemia da COVID-19.

Vacinação hesitante: entender para transformar

Neste ano de 2025 até junho a cobertura vacinal contra Influenza está baixa. No Brasil menos de 50% das pessoas idosas foram vacinadas. Em alguns estados não atingiu 40%.

Os motivos mais comuns são:

  1. Medo de reações adversas
  2. Percepção de que o risco é baixo
  3. Desconfiança na eficácia da vacina

A vacina contra Influenza é segura com poucos eventos adversos, é efetiva reduzindo casos de Influenza e principalmente evitando complicações e o risco da Influenza é real.

Ignorar essas dúvidas é perder a oportunidade de proteger vidas. Um vírus pode roubar mais do que a saúde. Pode tirar o direito à despedida com dignidade, à memória lúcida, à convivência com os que amamos.

É preciso ouvir, acolher, explicar e agir. A busca por informação clara, baseada em evidências, muda comportamentos. Confiança se constrói com diálogo e transparência.

Boas práticas que salvam vidas

Muitas das medidas e atitudes que realizamos durante a Pandemia da COVID-19, que foram efetivas na prevenção da infecção pelo SARS-CoV 2 nas ILPI, devem ser retomadas neste momento. 

  • Crie uma rotina fixa de vacinação
    Defina datas (preferencialmente no outono), envolva a equipe, mantenha registros visíveis e acessíveis. Não deixe para depois.
  • Use quadros de monitoramento visível
    Deixe claro o status de vacinação de cada residente. A transparência mobiliza e responsabiliza.
  • Implemente o uso correto de EPIs e limpeza diária
    Garanta máscaras N95 em sintomas gripais, luvas e aventais. Reforce a desinfecção de superfícies. Higienize as mãos regularmente, antes e depois de cuidador de cada pessoa idosa.
  • Mantenha comunicação direta com famílias
    Promova reuniões curtas. Envie boletins simples com dados atualizados e imagens da rotina. Confiança se constrói com informação.
  • Treine a equipe regularmente
    Realize simulações semanais com cenários realistas. Preparação reduz erros e salva tempo em emergências.
  • Cuide da saúde emocional
    O isolamento necessário não pode significar abandono. Garanta videochamadas, visitas seguras e acolhimento psicológico. Cuidar do afeto é cuidar da imunidade.

Manter as vacinas atualizadas e adotar protocolos clínicos seguros em Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI) não é apenas recomendável. É uma questão de responsabilidade coletiva. A omissão custa caro. Esta ação salva vidas.

Dicas sobre como agir e prevenção diante de dificuldades reais

  • Você não está conseguindo vacinar todos os residentes?

Veja o que pode ser feito:

  1. Articule com a Secretaria de Saúde
    Protocole um pedido formal com dados da cobertura vacinal. Registre sua tentativa.

A vacina contra a Influenza é gratuíta em toda rede pública de saúde.

  1. Mobilize parcerias locais
    Universidades, clínicas e fóruns de saúde podem ajudar em campanhas de vacinação solidária.
  2. Converse com familiares e profissionais
    Realize rodas de conversa com dados simples, relatos reais e orientação profissional.
  3. Ofereça alternativas viáveis
    Facilite transporte, agendamentos em grupo ou vacinação interna.
  4. Divulgue os resultados da campanha vacinal
    Transparência gera engajamento. Mostre o progresso com clareza.

Modelo de texto cartaz para entrada da ILPI – comunicado claro na porta de entrada

ATENÇÃO!!

Se você tiver sintomas de gripe como tosse, febre, coriza, dor de garganta ou dificuldade para respirar, avise imediatamente à recepção.

Não entre na instituição sem orientação da equipe.

Informar é proteger. A sua atitude preserva vidas.

E se o vírus já entrou?

Separe os casos imediatamente
Crie áreas exclusivas de isolamento para casos leves e graves. Defina rotas de circulação seguras.

Oriente o uso de máscara para a pessoa que está infectada e para a equipe de cuidado.

Reforce o uso de EPIs e a limpeza constante
Distribua máscaras N95, reforce a desinfecção e evite aglomerações.

Comunique-se com clareza
Informe familiares e profissionais. Estabeleça um canal de atualização diária.

Tenha uma equipe de retaguarda pronta
Organize substituições para afastamentos por doença.

Preserve o vínculo familiar mesmo em isolamento
Promova contatos virtuais e visitas seguras com distanciamento. O bem-estar emocional protege a saúde.

Leia o artigo: ILPI e o Oceano do Envelhecimento

Cuidar é uma responsabilidade de todos

Cada decisão tem consequência. Cada protocolo seguido salva tempo, saúde e vidas. Cada erro ignorado pode significar um velório antecipado.

O cuidado técnico, alinhado ao conhecimento científico, transforma o desfecho. A ciência orienta, a organização executa e a compaixão sustenta.

O vírus não entra sozinho. Ele entra com alguém que não percebe o risco ou acha que “é só uma gripe”. Por isso, visitantes, profissionais, técnicos e familiares precisam estar alinhados.

Quem estiver com sintomas gripais, mesmo leves, deve comunicar imediatamente à ILPI e evitar a entrada (familiares e colaboradores). Esse cuidado protege todos: os residentes, os profissionais e também a comunidade ao redor.

Evitar o contágio é proteger histórias. É impedir a perda do que mais importa. É garantir que o tempo siga sendo vivido com saúde, dignidade e afeto.

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About the Author: Paulo Villas Boas

Dr Paulo José Fortes Villas Bôas, médico geriatra, professor da Faculdade de Medicina de Botucatu - Unesp e membro da Comissão de Imunização da SBGG.

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