Nota editorial – Revista Cuidar:

Você já se perguntou o que acontece à noite em uma ILPI? Quando as luzes se apagam nos quartos e o silêncio toma os corredores, será que tudo realmente desacelera? Ou é justamente aí que outras formas de cuidado, mais sutis e profundas, começam a acontecer?

Nesta edição, temos o privilégio de compartilhar o relato de Mariana Mota Tessarolo, uma gestora que não apenas administra ILPI, mas que escolheu vivê-las por inteiro, inclusive durante a madrugada. Sua experiência lança luz sobre uma dimensão pouco visível, mas absolutamente essencial: o trabalho noturno em Instituições de Longa Permanência para Pessoas Idosas.

Enquanto muitos dormem, há profissionais atentos, de passos leves e escuta ativa, garantindo que cada pessoa idosa tenha conforto, acolhimento e dignidade. São eles que lidam com as insônias, os medos não ditos, os corpos frágeis e, por vezes, com momentos raros e inexplicáveis de lucidez, como o que você está prestes a conhecer neste texto.

Valorizar o cuidado é reconhecer que ele não tem hora. E que à noite, longe dos holofotes do dia, também nascem histórias que transformam.

Boa leitura. Que ela te provoque, te emocione e, sobretudo, te faça olhar com mais respeito e admiração para quem cuida, mesmo quando ninguém está vendo.

Uma rotina que não dorme

Muita gente acredita que uma Instituição de Longa Permanência para Pessoas Idosas adormece junto com seus residentes. Mas quem conhece a rotina noturna de uma ILPI sabe que ali, no silêncio da madrugada, existe um universo particular. Este universo é marcado por fragilidades, insônias, lucidez inesperada, medos, confissões e uma delicada dança entre quem cuida e quem é cuidado.

Associação Cuidadosa

Com mais de 10 anos de experiência como gestora de ILPI, posso dizer que não apenas administrei instituições, mas eu vivi dentro delas. Entre as unidades que fundei, morei junto aos idosos por seis meses, morei em cima de outra por dois anos: fui gestora, enfermeira, cuidadora, lavadeira, tudo o que fosse preciso. Passava a noite para acompanhar de perto a adaptação da equipe e das pessoas idosas, para adaptar rotina, sentir os chamados, captar os sons da vida que pulsa 24 horas ou apenas para observar, sentir e agradecer.

Essa convivência intensa, em todos os turnos, me ensinou que uma ILPI não é apenas um local de trabalho, mas um organismo vivo, que respira cuidado dia e noite. Para gerir com responsabilidade e humanidade, é preciso estar presente com o corpo, o coração e ouvidos atentos.

Escutar o que a rotina não mostra

Por diversas noites eu estive ali não apenas como diretora, mas queria observar o que os olhos da rotina não me deixam ver: os bastidores afetivos de quem cuida e de quem é cuidado, quando o mundo lá fora dorme. E recomendo isso a todos os gestores!

À noite, a ILPI muda de tom. As luzes se suavizam, os corredores ficam mais silenciosos, e o tempo parece passar de outro jeito. A equipe da madrugada atua com escuta atenta, passos leves, voz baixa, mas com uma presença firme, quase sagrada. À noite há rotina puxada também, necessidade de experiência prática, mas principalmente de gestos simples que fazem a diferença: uma mão para acalentar na hora da insônia, um olhar compreensivo na hora da troca de fralda, a necessidade de adaptação da rotina frequente, a escuta de um medo que não se diz em voz alta.

Uma madrugada inesquecível

E sabe o mais interessante de tudo isso? Eu adquiri uma diversidade de histórias e momentos que jamais vou esquecer, como em uma noite, que fui surpreendida por uma residente com demência frontotemporal, conhecida por seu comportamento agressivo e agitado. Mas naquela madrugada, ela surgiu no corredor, lúcida, serena, e pediu para conversar.

Falamos por horas. Ela pediu para conhecer os lugares da ILPI onde nunca tinha ido. Disse que tinha curiosidade em saber como era produzida as refeições e a lavagem de roupas, como era feito com as medicações que chegavam até ela através das cuidadoras. Então a levei para conhecer cada canto da instituição até então inacessível a ela (seja por protocolos sanitários ou pelas suas alterações comportamentais).

Com a sua autorização, eu gravei vídeos para enviar à família: nestes, tiveram pedidos de desculpas por comportamentos passados e agradecimentos pelo cuidado recebido. Pelo horário eu não consegui fazer chamada de vídeo com os familiares, pois como disse, era madrugada e estávamos vivendo um momento mágico – e eu precisava registrar para que acreditassem em mim.

O tempo suspenso entre a lucidez e o esquecimento

Meu sentimento? Eu não queria que aquela noite terminasse. Por um instante, era como se a doença tivesse tirado férias. E eu estava tendo a oportunidade de ouvir tantas coisas e de ter sanado tantas dúvidas dela.

Mas no dia seguinte, ao acordar, ela não se lembrava de nada. É nesse espaço entre a memória e o esquecimento, entre a lucidez e a confusão, que mora a beleza (e a dor) de quem vive e cuida em uma ILPI.

Aquela noite me marcou profundamente, não apenas pelo inusitado episódio da lucidez, mas pelo que ela representa dentro do contexto da demência. Ainda que raro, esse tipo de episódio é reconhecido na literatura como um “momento de clareza”, uma breve e inesperada janela de lucidez que pode ocorrer mesmo em quadros avançados, como a demência frontotemporal.

Quando o silêncio revela a presença

Ninguém sabe ao certo por que acontece. Talvez o silêncio da noite ajude o cérebro a encontrar um caminho alternativo entre as conexões danificadas. Talvez seja a força do vínculo, da escuta, da presença.

O que se sabe é que são momentos reais, tocantes, ainda que passageiros e que não costumam se fixar na memória da pessoa idosa. Mas para quem está ali, cuidando, esses instantes dizem muito: mostram que, por trás da doença, a pessoa ainda existe, ainda sente, ainda agradece.

Voltei para casa naquela madrugada com a certeza de que uma ILPI não é feita apenas de estrutura, rotinas e escalas. Ela é feita de histórias. Histórias que nem sempre cabem no prontuário, mas que transformam quem as vive.

E aquela noite me transformou pra sempre.

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About the Author: Mariana Mota Tessarolo

CEO da Casa de Repouso Aconchego e da Tríade Saúde. Enfermeira, Especialista em Gerontologia e Mestre em Psicogerontologia, atua no cuidado à pessoa idosa e na gestão de ILPI. É também colunista da Revista Cuidar.

4 Comments

  1. Alessandra batista dias 17/07/2025 at 07:41 - Reply

    Bom dia ,achei maravilhoso,realmente magico e profundo….entendi um pouco mais

  2. Lironeia Esteves 17/07/2025 at 11:57 - Reply

    Achei a experiência maravilhosa, e viajei junto como se ali eu estivesse. Acabei de fazer um estágio como TO em uma ILPI, e foi algo que vou guardar pra sempre, me apaixonei pela a experiência. E saí de lá com essa certeza também, de que lá não é só uma instituição. Mais um lugar de memórias reais hora esquecidas , horas pulsações e bem vivas.

  3. Marli Bueno 17/07/2025 at 17:22 - Reply

    Lindo relato real de uma história de uma pessoa idosa que viveu momento de lucidez dentro de um quadro de demência. A consciência existe mesmo em fragmentos e de forma temporal e por outro lado, a realidade silenciosa de uma IlPI

  4. Lucia 18/07/2025 at 06:33 - Reply

    Me emocionei. Linda história

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4 Comments

  1. Alessandra batista dias 17/07/2025 at 07:41 - Reply

    Bom dia ,achei maravilhoso,realmente magico e profundo….entendi um pouco mais

  2. Lironeia Esteves 17/07/2025 at 11:57 - Reply

    Achei a experiência maravilhosa, e viajei junto como se ali eu estivesse. Acabei de fazer um estágio como TO em uma ILPI, e foi algo que vou guardar pra sempre, me apaixonei pela a experiência. E saí de lá com essa certeza também, de que lá não é só uma instituição. Mais um lugar de memórias reais hora esquecidas , horas pulsações e bem vivas.

  3. Marli Bueno 17/07/2025 at 17:22 - Reply

    Lindo relato real de uma história de uma pessoa idosa que viveu momento de lucidez dentro de um quadro de demência. A consciência existe mesmo em fragmentos e de forma temporal e por outro lado, a realidade silenciosa de uma IlPI

  4. Lucia 18/07/2025 at 06:33 - Reply

    Me emocionei. Linda história

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