Como academias e clubes podem se tornar ambientes de inclusão, trocas de saberes e reaproximação social para a população idosa que residem nas instituições de longa permanência.
O envelhecimento populacional impõe novos desafios à sociedade, especialmente no que diz respeito à inclusão de pessoas idosas que residem em instituições coletivas, em atividades que promovam saúde, autonomia e vínculos sociais. Este artigo propõe a reflexão sobre a importância de abrir as portas de academias, clubes e demais espaços de prática corporal para essas pessoas idosas, promovendo não apenas benefícios físicos, mas também emocionais, sociais e culturais. A integração intergeracional surge aqui como ponte para a troca de saberes e a valorização da experiência, logo, é fundamental a escuta ativa para firmar novos laços transcendentes.
A REALIDADE DE ALGUMAS INSTITUIÇÕES DE LONGA PERMANÊNCIA
O panorama atual das Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI) no Brasil é complexo e marcado por desafios e avanços, em um contexto de rápido envelhecimento populacional. Aumento da População Idosa, na qual, o Brasil passa por um acelerado processo de envelhecimento. Com isso, a demanda por cuidados de longa duração e, consequentemente, por ILPI, tende a crescer exponencialmente.
Dados do Censo 2022 (IBGE): Segundo o último Censo, em 2022, havia cerca de 160.784 pessoas vivendo em ILPI no Brasil. Isso representa aproximadamente 0,5% da população com mais de 60 anos no país (que é de 32,1 milhões). Embora pareça um percentual pequeno, o número absoluto é significativo e reflete uma realidade de muitas famílias que não conseguem mais prover os cuidados necessários em domicílio.
Perfil dos Residentes: Pesquisas indicam que a maioria dos residentes em ILPI públicas no Brasil é homem, com idade igual ou superior a 80 anos, baixa escolaridade e renda (muitas vezes até um salário mínimo, oriundos de aposentadoria). Além disso, muitos têm limitada rede de apoio familiar, sendo a necessidade de cuidados especiais o principal motivo da institucionalização. Antes de morar na ILPI, a maioria residia em casa própria com familiares ou amigos. As ILPI filantrópicas e públicas frequentemente lutam com a falta de recursos financeiros, dependendo de doações, convênios e subvenções que nem sempre são suficientes ou contínuas. Já as particulares, os custos podem parecer elevados, como um impeditivo para muitas famílias, apesar da crescente demanda.
DESAFIOS EXISTENTES
Apesar do aumento da demanda, as ILPI no Brasil enfrentam diversos desafios:
Variações na Qualidade e Estrutura: Existe uma grande heterogeneidade entre as instituições. Algumas são bem estruturadas e oferecem cuidados de alta qualidade, enquanto outras ainda operam com infraestrutura precária e recursos humanos insuficientes. Superlotação e Déficit de Vagas: Em muitas regiões, há superlotação e um déficit de vagas, especialmente em instituições públicas e filantrópicas, o que compromete a qualidade do atendimento e o espaço individual do idoso. Recursos Humanos Qualificados e Escassez de Profissionais:
- Há uma carência de profissionais especializados em gerontologia (cuidadores, enfermeiros, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, psicólogos) para atender às necessidades complexas dos idosos.
- Muitas ILPI enfrentam dificuldades para contratar e manter equipes completas e qualificadas, levando ao descumprimento de proporções de cuidadores por idoso, conforme exigido pela legislação (por exemplo, a RDC 502/2021 da Anvisa).
POR QUE ABRIR AS PORTAS DAS ACADEMIAS E CLUBES?
Abrir as portas de academias, clubes e outros espaços de prática corporal para as pessoas idosas que moram em residencias coletivas vai muito além de uma questão de inclusão simbólica, trata-se de aumentar a sensação de pertencimento e saúde integral. Esses espaços, historicamente voltados para pessoas jovens ou adultas independentes, ainda carregam uma forte marca de exclusividade, tanto em seu design físico quanto na sua cultura de uso. Quando uma pessoa idosa que mora em uma ILPI é acolhida nesses ambientes, estamos enviando uma mensagem potente: elas continuam pertencendo à sociedade.
A integração dessas pessoas idosas a espaços de convivência ativa oferece múltiplos benefícios:
- Reconhecimento de direitos: O acesso à atividade física regular é um direito previsto no Estatuto do Idoso. Morar em uma ILPI não deve representar o fim da participação cidadã, assim, alcançar o estímulo cognitivo e motor neste processo.
- Estímulo à autonomia e autoestima: Ao sair da instituição e vivenciar novas experiências, a pessoa idosa é desafiada, estimulada e valorizada — o que impacta positivamente sua saúde física e emocional.
- Convivência intergeracional: A troca de experiências entre gerações fortalece laços sociais, combate o idadismo e resgata o papel do idoso como fonte de saberes e vivências. Jovens e adultos também se beneficiam desse convívio.
- Desconstrução de estigmas: Levar os residentes de ILPI para esses espaços ajuda a desconstruir a imagem de “fim da linha” que ainda permeia a moradia coletiva. É uma maneira de mostrar que há vida, potência e expressão na velhice.
- Fortalecimento da rede de apoio: A presença das pessoas idosas em ambientes comunitários promove visibilidade e aproximação com a comunidade, facilitando parcerias, voluntariado e ações sociais.
RESPEITANDO AS LIMITAÇÕES FÍSICAS E MENTAIS
Avaliação Contínua e Individualizada: A avaliação não é um evento único. É um processo contínuo, com reavaliações periódicas para ajustar os programas conforme a evolução (ou regressão) do idoso. Isso inclui:
- Limitações Físicas: Considerar mobilidade reduzida, dores crônicas, fraqueza muscular, problemas de equilíbrio, uso de cadeiras de rodas, andadores e bengalas. Os exercícios devem ser adaptados para evitar sobrecarga e lesões.
- Limitações Cognitivas: Para pessoas que convivem com demência ou outras condições cognitivas, os programas devem ser mais curtos, com instruções simples e repetitivas, foco em atividades prazerosas e que estimulem a memória e a interação social de forma lúdica. A segurança é a prioridade, evitando exercícios complexos ou que exijam grande coordenação.
Foco na Qualidade de Vida: O objetivo principal não é o desempenho atlético, mas a manutenção da funcionalidade, a redução da dor, a melhora do humor e a promoção da socialização. Pequenas conquistas no dia a dia (como conseguir se levantar da cama com mais facilidade) são grandes vitórias.
Ambiente Acolhedor e Seguro: Criar um ambiente que transmita segurança e conforto, com equipamentos adaptados, espaços amplos e bem iluminados.
Levar o Ambiente de Treino até a ILPI (Academias Itinerantes):
- Equipamentos Adaptados: Academias e clubes podem investir em equipamentos portáteis e de fácil manuseio (faixas elásticas, pesos leves, bolas, cadeiras adaptadas) para levar até a ILPI.
- Aulas em Grupo na ILPI: Professores de educação física da academia podem ir à ILPI em dias e horários específicos para ministrar aulas em grupo adaptadas, como alongamento, ginástica funcional sentada, dança adaptada ou jogos recreativos.
- Sessões Individuais: Para idosos com maiores limitações, podem ser oferecidas sessões individuais de exercícios no próprio quarto ou em uma área comum da ILPI, focando em mobilidade na cama, exercícios respiratórios ou fortalecimento muscular específico.
- Tecnologia: Uso de vídeos com aulas adaptadas, jogos interativos para estimulação cognitiva ou até mesmo aulas online transmitidas diretamente para a ILPI, permitindo que os residentes participem de atividades com outros grupos.
Criar Rotinas Adaptadas nos Próprios Espaços da ILPI:
- Criação de “Cantos de Atividade”: Sugerir e auxiliar a ILPI na criação de pequenos espaços com alguns equipamentos básicos (barras de apoio, colchonetes, pequenos halteres) para que os residentes possam se exercitar sob supervisão dos cuidadores.
- Programas de Mobilidade Diária: Desenvolver rotinas que integrem exercícios nas atividades diárias dos moradores, como alongar-se ao acordar, levantar-se e sentar-se da cadeira de forma correta, ou caminhar pequenas distâncias dentro da instituição.
A colaboração é a chave para o sucesso desses programas:
- Comunicação e Troca de Conhecimento: Estabelecer canais de comunicação regulares entre os profissionais da educação física da academia e os cuidadores e equipe de saúde da ILPI. Os cuidadores têm um conhecimento profundo da rotina e das necessidades diárias dos residentes, enquanto os profissionais de educação física trazem a expertise em movimento e exercício.
- Treinamento Conjunto: Realizar workshops e treinamentos conjuntos para que ambos os grupos compreendam suas funções e como podem se complementar. Os cuidadores podem aprender técnicas de assistência durante os exercícios, e os profissionais de educação física podem entender melhor as rotinas de cuidado.
- Definição de Papéis Claros: Definir claramente as responsabilidades de cada um. O profissional de educação física é responsável pelo planejamento e supervisão dos exercícios, enquanto o cuidador auxilia na execução, monitora o bem-estar da pessoa idosa e reporta qualquer alteração.
- Feedback Contínuo: Criar um sistema de feedback onde os cuidadores possam relatar o desempenho e o humor dos moradores durante as atividades, permitindo que os profissionais de educação física ajustem os programas conforme necessário.
- Abordagem Multidisciplinar: Integrar a equipe de educação física com outros profissionais de saúde da ILPI (fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, enfermeiros) para uma abordagem holística do bem-estar da pessoa idosa.
Ao implementar essas estratégias, academias e clubes podem expandir seu impacto social, garantindo que o direito à atividade física e ao bem-estar seja acessível a todos os residentes de ILPI, independentemente de suas limitações.
“Envelhecer com dignidade é continuar pertencendo ao mundo, mesmo que o mundo precise abrir mais portas.”
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Excelente artigo, precisamos de mais atenção do poder publico as LPI. Com programas e atividades a essa população em todo o país…











Excelente artigo, precisamos de mais atenção do poder publico as LPI. Com programas e atividades a essa população em todo o país…