O processo de envelhecimento pode trazer diferentes níveis de dependência funcional, geralmente classificados em três graus:
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Grau I: quando a pessoa idosa mantém autonomia para as Atividades Básicas de Vida Diária (ABVDs), necessitando apenas de auxílio em Atividades Instrumentais de Vida Diária (AIVDs), como preparar refeições, realizar compras ou administrar medicações.
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Grau II: caracteriza-se pela necessidade de ajuda parcial também nas ABVDs, como higiene pessoal, vestir-se, alimentar-se ou locomoção.
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Grau III: representa o nível de dependência mais elevado, em que a pessoa idosa precisa de auxílio integral e contínuo para todas as tarefas, incluindo cuidados de higiene, mobilidade, alimentação e posicionamento no leito.
Este artigo tem como foco o grau III de dependência, seja em Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI) ou em domicílios, onde familiares e cuidadores assumem esse papel de suporte. Nesses contextos, o desafio do cuidado é maior, mas não impossível: com profissionais capacitados, especialmente da Educação Física, é possível oferecer práticas terapêuticas que vão além da reabilitação física, promovendo dignidade, bem-estar e conexão humana.
Corpo, história e cuidado
Cada corpo carrega memórias, emoções e histórias. Ao pensar em práticas corporais para idosos em alto grau de dependência, não estamos apenas mobilizando músculos e articulações: estamos respeitando um corpo-templo, cheio de sensibilidade e significado.
Por isso, o ponto de partida é sempre uma avaliação cuidadosa: histórico de saúde, anamnese familiar, condições clínicas, preferencialmente com acompanhamento do médico geriatra, e análise funcional (ABVDs, AIVDs e mobilidade). Dessa forma, podemos caracterizar a condição funcional do residente – incluindo fragilidade e sarcopenia – por meio de parâmetros como velocidade de marcha e força de preensão palmar.
Devemos levar em consideração também a rotina do residente pelo olhar do cuidador – uma figura fundamental, que acompanha cuidadosamente todas as demandas logísticas e operacionais. Assim, é possível compartilhar os momentos mais propícios para promover a atividade.
O importante é oferecer o melhor possível ao residente em grau III de dependência. A escolha do local deve privilegiar o ambiente mais agradável, seja a sala de convivência, a sala de ginástica ou até mesmo o quarto.
Nós, profissionais de Educação Física, devemos compreender também a estrutura da ILPI e planejar os atendimentos de acordo com o tempo disponível: em grupos, trios, duplas ou, quando necessário, individualmente.
Não podemos impor a participação. Caso o residente não queira naquele momento, seguimos com outros grupos e fazemos um novo convite em outra oportunidade. Se não houver sucesso, solicitamos apoio da equipe multidisciplinar e, em casos de maior resistência, do familiar responsável.
Convidar o familiar para acompanhar a rotina de atendimento demonstra interesse, acolhimento e comprometimento em contribuir para a condição física do ente querido.
Exercícios que fazem diferença
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Exercícios resistidos simples: levantar e sentar com apoio, extensão de joelhos, abdução de quadril com mini-band, rosca bíceps, remada sentada e mobilidade articular com bastão.
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Atividades cardiorrespiratórias: caminhada guiada, bicicleta horizontal ou exercícios com braços para estimular a circulação.
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Idosos acamados: alongamentos passivos, mobilizações suaves e mudanças de posicionamento para prevenção de úlceras de pressão.
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Movimento com música: atividades leves acompanhadas de canções conhecidas pelos idosos. A música estimula a memória afetiva, promove bem-estar e melhora a adesão.
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Exercícios intergeracionais: encontros entre idosos e crianças ou jovens voluntários, em que o movimento é feito em dupla (passar bola, dançar sentado, alongar em pares). Favorece integração social e sentimento de pertencimento.
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Gamificação: uso de jogos adaptados — como argolas, boliche leve ou até videogames interativos — para estimular coordenação motora e diversão.
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Exercícios de respiração guiada e relaxamento: associados a alongamentos passivos, ajudam a reduzir a ansiedade, melhorar a oxigenação e favorecer a qualidade do sono. Atividades aquáticas também podem ser estratégias interessantes em ambientes seguros, já que a força de empuxo gera sensação de leveza e facilita os deslocamentos.
Mais importante do que a quantidade é a qualidade da experiência. O ideal é realizar sessões de 30 a 40 minutos, duas a três vezes por semana, sempre respeitando os limites do idoso e utilizando ferramentas como a Escala de Borg para acompanhar a percepção de esforço. A progressão deve ser gradual: 1 a 3 séries de 10 a 12 repetições, preservando a individualidade biológica. É fundamental lembrar que, caso seja necessário realizar mudanças de decúbito, deve-se pedir auxílio.
O impacto além do físico
O trabalho do profissional de Educação Física vai além do corpo: envolve escuta ativa, empatia e respeito aos desejos do idoso, promovendo inclusão e autoestima. O exercício passa a ser não apenas uma atividade terapêutica, mas também um espaço de vínculo humano.
E não podemos esquecer da família. Muitas vezes, os familiares enfrentam sentimentos de frustração, culpa ou até luto antecipado diante da perda da autonomia do ente querido. Nesse momento, o acolhimento da equipe multiprofissional — médicos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, psicólogos, enfermeiros e educadores físicos — é essencial para orientar e oferecer suporte emocional.
Um olhar para o futuro
O desafio de cuidar de idosos em grau III de dependência é grande, mas também é uma oportunidade de transformar vidas. A Educação Física mostra que, mesmo diante de limitações severas, ainda é possível estimular movimentos, gerar bem-estar e fortalecer laços humanos.
Mais do que exercícios, o que se entrega é esperança, dignidade e qualidade de vida. Afinal, envelhecer com cuidado é um direito, e oferecer esse cuidado é também um ato de amor.
“O cuidado em Educação Física para idosos em grau III de dependência não é sobre o quanto eles conseguem se mover, mas sobre o quanto conseguimos promover dignidade, conexão e vida em cada gesto.”

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