Por: Dra Daniela S. Gonçalves Barbieri – Médica Geriatra
A gestão de medicamentos é um dos pilares para a qualidade do cuidado em Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI). Em um ambiente onde as necessidades de saúde são complexas, individualizadas e de constante risco, o manejo seguro e eficaz das terapias farmacológicas se torna uma tarefa diária de alta responsabilidade. A polifarmácia, caracterizada pelo uso de múltiplos medicamentos, é uma realidade onipresente nessas instituições, trazendo consigo um conjunto de desafios que exigem conhecimento, atenção, organização e trabalho em equipe.
Definir polifarmácia envolve tanto critérios quantitativos quanto qualitativos. O consenso científico estabelece que o uso de cinco ou mais medicamentos de forma regular caracteriza polifarmácia do ponto de vista numérico. No entanto, o verdadeiro risco clínico vai além da simples contagem: reside no uso de medicações inapropriadas, nas interações medicamentosas perigosas e na ocorrência de reações adversas, que podem acontecer mesmo com um número menor de fármacos. O cerne da questão não é apenas a quantidade, mas a pertinência de cada prescrição. Compreender ambos os aspectos — quantitativo e qualitativo — da polifarmácia é, portanto, o primeiro passo para garantir a segurança e o bem-estar do residente.
Os Riscos Ocultos no Armário de Remédios: Entendendo a Cascata Iatrogênica
As pessoas idosas são particularmente vulneráveis aos potenciais riscos dos medicamentos devido às alterações fisiológicas do envelhecimento. Com o passar dos anos, ocorrem várias mudanças significativas, como o aumento da gordura, a redução do volume hídrico, a diminuição da albumina (proteína do sangue que transporta fármacos), alterações no trânsito e na absorção gastrointestinal. Somado a isso, a função renal e o metabolismo hepático também se alteram. Esse conjunto de fatores afeta diretamente a forma como os fármacos são distribuídos, metabolizados e excretados, fazendo com que permaneçam por mais tempo no organismo e elevando o risco de toxicidade. Medicamentos como os benzodiazepínicos (por exemplo, o clonazepam), que são solúveis em gordura, podem se acumular no corpo, prolongando seu tempo de ação e causando efeitos como sonolência excessiva e, consequentemente, maior risco de quedas.
Um dos maiores perigos associados à polifarmácia é a “cascata Iatrogênica“, um ciclo vicioso em que o efeito colateral de um medicamento é interpretado como um novo problema de saúde, levando a uma nova prescrição. A história do “Seu João” ilustra perfeitamente este perigo:
- Passo 1: Seu João inicia o uso de Captopril para tratar a pressão alta. Um efeito colateral comum deste medicamento é a tosse seca.
- Passo 2: Para tratar a tosse, um médico prescreve Codeína. Este novo medicamento, por sua vez, causa constipação intestinal.
- Passo 3: Com o intestino preso, Seu João recebe a prescrição de um laxativo, que provoca fortes cólicas abdominais.
- Passo 4: Para as cólicas, ele passa a usar Escopolamina (Buscopan), um fármaco anticolinérgico que pode causar confusão mental em idosos.
- Passo 5: A confusão mental é erroneamente diagnosticada como um sintoma inicial de demência, resultando na prescrição de mais um medicamento.
O impacto dessa cascata é devastador. Um único tratamento inicial desencadeou um ciclo de prescrições desnecessárias que comprometeram drasticamente a qualidade de vida de Seu João. A melhor maneira de quebrar esse ciclo é por meio da educação profissional das particularidades do organismo idoso e uma abordagem integrada de toda a equipe de saúde.
A Solução é Coletiva: O Papel da Equipe Multidisciplinar
A responsabilidade pela gestão medicamentosa não é exclusiva do médico que prescreve. A segurança e a eficácia do tratamento dependem da atuação integrada de toda a equipe: médicos, enfermeiros, farmacêuticos, cuidadores e outros terapeutas. Cada profissional, com seu olhar específico, contribui para uma visão completa do residente, garantindo que o plano terapêutico seja adequado e seguro.
Uma ferramenta estratégica fundamental nesse processo, especialmente na admissão de um novo morador, é a reconciliação terapêutica. Longe de ser uma simples checagem, trata-se de um processo clínico estruturado, que deve seguir cinco passos essenciais para uma desprescrição segura e eficaz:
- Passo 1: Avaliação Geriátrica Ampla (AGA): Conhecer o paciente em sua totalidade, seu histórico de doenças e suas necessidades pessoais, para definir um plano de cuidado verdadeiramente individualizado.
- Passo 2: Definição da Medicação: Avaliar cada medicamento para confirmar se existe uma indicação clínica clara e pertinente para seu uso.
- Passo 3: Identificação de Medicações Inapropriadas: Utilizar critérios técnicos validados, como os Critérios de Beers (amplamente utilizados) e os Critérios STOPP/START (que incluem não apenas medicamentos a evitar, mas também tratamentos que deveriam ser iniciados). Essas ferramentas identificam fármacos que apresentam um risco aumentado para a população idosa.
- Passo 4: Análise de Interações Medicamentosas e Ajustes Posológicos: Verificar as possíveis interações entre os medicamentos que permanecerão na prescrição, a fim de evitar combinações perigosas, e sempre na menor dose efetiva para cada caso.
- Passo 5: Decisão Compartilhada: Apresentar o novo plano terapêutico ao paciente e aos seus familiares, explicando os benefícios de cada ajuste para garantir a compreensão e a adesão.
Essa estratégia colaborativa, contudo, depende de uma execução vigilante no ponto de cuidado — uma responsabilidade que recai diretamente sobre os ombros da equipe de enfermagem.
A Enfermagem na Linha de Frente: Segurança e Observação Contínua
A equipe de enfermagem é quem passa a maior parte do tempo com os residentes da instituição e, por isso, sua atuação é vital na prevenção de erros e na identificação de reações adversas. Sua função vai muito além da simples entrega do comprimido; ela engloba a administração segura e a avaliação contínua dos efeitos da terapia.
Para garantir a segurança, é essencial seguir rigorosamente os “Nove Certos da Administração Segura”, um procedimento que reflete as melhores práticas e minimiza a ocorrência de erros. A checagem deve incluir:
- Paciente Certo
- Medicamento Certo
- Dose Certa
- Via de Administração Certa
- Horário Certo
- Validade Certa
- Orientação Certa
- Tempo de Administração Certo
- Registro Certo
Atenção especial deve ser dada à disfagia (dificuldade de deglutição), condição muito prevalente em pessoas idosas que moram em residências coletivas. Nesses casos, pode ser necessário:
- Utilizar formas farmacêuticas alternativas (líquidos, dispersíveis, sublinguais)
- Triturar comprimidos quando farmacologicamente permitido (nunca triturar comprimidos de liberação prolongada ou revestidos entéricos sem orientação farmacêutica)
- Abrir cápsulas quando apropriado
- Solicitar ao médico a substituição por medicamentos em apresentações mais adequadas
Além disso, a observação ativa é uma responsabilidade crucial. A equipe deve estar atenta a qualquer reação adversa, intercorrências como vômitos, dificuldades de deglutição ou mudanças sutis no comportamento e no estado geral. Cada observação deve ser registrada e comunicada à equipe multidisciplinar, pois essa informação é valiosa para reavaliar o plano de cuidados e prevenir problemas mais graves. A conservação e administração corretas estão diretamente ligada ao manuseio físico seguro dos medicamentos, uma prática que exige atenção a detalhes técnicos.
Manuseio e Armazenamento: A Prática Segura no Dia a Dia
O manuseio de medicamentos em uma ILPI é uma operação complexa. É fundamental compreender que a instituição, por lei, é um “domicílio coletivo”, e não uma unidade hospitalar ou um dispensário de medicamentos. Essa distinção explica por que práticas como manter grandes estoques ou realizar o fracionamento sem critérios são inadequadas. A segurança das pessoas idosas exige práticas de armazenamento e preparo que sigam padrões rigorosos, muitas vezes subestimados em nome da praticidade.
O Dilema do Fracionamento
Uma prática comum em ILPI é o fracionamento de comprimidos e o uso de caixas organizadoras que retiram o medicamento de sua embalagem original. Embora essa abordagem seja desaconselhada na maioria dos casos, é importante compreender suas implicações e as exceções:
Riscos do fracionamento inadequado:
- Quebra da Estabilidade: Ao retirar um comprimido de sua embalagem primária (o blister), ele é exposto à luz e à umidade. Essa exposição pode alterar sua composição química, reduzir sua eficácia e, em alguns casos, até torná-lo tóxico. O blister não é um mero invólucro; é o resultado de longos e onerosos estudos de estabilidade para proteger a integridade do fármaco.
- Perda da Rastreabilidade: Cortar a cartela ou descartá-la elimina informações cruciais como o nome do medicamento, o lote de fabricação e a data de validade. Sem esses dados, a conferência se torna impossível e o risco de administrar o medicamento errado ou vencido aumenta drasticamente.
Quando o fracionamento é necessário e seguro:
Existem situações clínicas legítimas onde o fracionamento de comprimidos é necessário (por exemplo, para ajuste de dose prescrito pelo médico). Nesses casos, deve-se seguir um protocolo rigoroso:
- Utilizar apenas comprimidos com sulco (ranhura) indicando que foram desenvolvidos para serem partidos
- Usar cortadores de comprimidos padronizados
- Fracionar apenas no momento da administração, nunca com antecedência
- Documentar adequadamente o procedimento
- Consultar o farmacêutico sobre a viabilidade técnica do fracionamento para cada medicamento específico
Recomendações Práticas
A regra de ouro é: preserve a embalagem primária o máximo possível.
Para instituições de pequeno e médio porte: A separação dos medicamentos para os diferentes horários do dia deve ser feita mantendo o comprimido dentro do seu alvéolo no blister. O ideal é recortar a embalagem ao redor de cada unidade, que só deve ser aberta e retirada no exato momento da administração ao residente.
Para instituições de grande porte: Reconhecendo que o recorte individual pode ser operacionalmente inviável em ILPI com muitos residentes, recomenda-se:
- Implementar sistema de dispensação por dose unitária em parceria com farmácia
- Se usar organizadores, etiquetar cada compartimento com: nome do residente, nome do medicamento, dose, horário e validade
- Preparar doses para no máximo 7 dias
- Armazenar em local protegido de luz e umidade
- Realizar auditorias regulares de rastreabilidade
- Treinar continuamente a equipe sobre os riscos e procedimentos corretos
- Manter ambiente isolado e calmo para a organização das doses
A segurança do paciente começa com o respeito às características farmacotécnicas do medicamento e com a adaptação responsável das práticas à realidade operacional de cada instituição.
Cuidado Integrado para um Envelhecimento Mais Seguro
A gestão eficaz de medicamentos em ILPI se baseia em três pilares interdependentes: conhecimento, para entender os riscos da polifarmácia e da fisiologia do envelhecimento; colaboração, que se materializa no trabalho integrado da equipe multidisciplinar através de processos como a Reconciliação Terapêutica; e processos seguros, que garantem práticas corretas de armazenamento, manuseio, administração e monitoramento.
A atenção a esses detalhes transforma a rotina de medicação. Ela deixa de ser um ato mecânico para se tornar um ato de cuidado e formação de vínculo, garantindo mais segurança, bem-estar e qualidade de vida para cada uma das pessoas idosas que moram na instituição. Para os profissionais dedicados ao cuidado em ILPI, dominar esses princípios — incluindo o reconhecimento de quando adaptar protocolos ideais à realidade prática sem comprometer a segurança — é a chave para transformar desafios diários em excelência assistencial.
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