Existem datas que não são apenas datas. São marcos. São cicatrizes que viraram medalhas silenciosas, usadas por dentro, invisíveis aos olhos de quem não esteve lá. O dia 8 de abril de 2020 foi uma dessas datas. Num mundo que parava, com ruas desertas, hospitais transbordando e um silêncio pesado de luto que se espalhava de cidade em cidade, um grupo de profissionais decidiu não parar. Decidiu agir.

Hoje, 8 de abril de 2026, completam-se seis anos desse nascimento. E eu não poderia deixar passar essa data em silêncio.

O mundo que nos convocou

Para entender o que foi a Frente ILPI, é preciso lembrar o que era o mundo naquele momento.

Início de 2020. Eu estava na Itália. Vi e senti de perto a dor e o desespero daquele país antes de a pandemia se tornar uma emergência global. Vi os corredores das RSA — as ILPI italianas — transformarem-se em zonas de batalhas silenciosa. Vi profissionais exaustos lutando contra um vírus sobre o qual ninguém sabia nada. Vi famílias destruídas, sem poder se despedir. A Itália, com todo o seu sistema de saúde robusto, sangrava. E eu, de lá, olhava para o Brasil com um pavor que não conseguia calar.

A pergunta que pulsava era inevitável: se um país com toda aquela estrutura sofria tanto, o que aconteceria num Brasil de dimensões continentais, com tantas desigualdades regionais, com ILPI que muitas vezes funcionavam à margem das políticas públicas, invisíveis ao debate nacional?

E dentro de mim crescia uma certeza que não me deixava descansar: precisávamos agir. Agora.

Uma andorinha sozinha não faz verão

E assim, fomos guiados pelo universo para nos encontrarmos. Profissionais preocupados com o que estava por vir, de norte a sul de um país imenso, sem se conhecer de rosto, unidos apenas por um mesmo pavor — e por um mesmo amor. Amor pelas pessoas idosas. Amor pela vida. Amor por esse trabalho invisível que tanto nos constitui.

Associação Cuidadosa

E assim, no dia 08 de abril de 2020 nasceu a Frente Nacional de Fortalecimento às ILPI.

Porque uma andorinha sozinha não faz verão.

Nenhum de nós, individualmente, teria chegado aonde chegamos. A grandeza desse movimento foi exatamente essa: foi feita de nós. Do coletivo. De centenas de mãos que se estenderam sem pedir nada em troca, de vozes que se somaram quando poderiam ter ficado quietas, de noites sem dormir que ninguém vai contabilizar em nenhum currículo, mas que estão registradas no único lugar que importa: na memória de quem viveu.

O que começou como um grupo de WhatsApp esgotou suas vagas em horas. Foram criados grupos regionais. A Frente começou a se ramificar pelo país como raízes que buscam água em tempo de seca. Enfermeiros, assistentes sociais, fisioterapeutas, nutricionistas, psicólogos, fonoaudiólogos, dentistas, juristas, promotores de justiça, etc. Gente de todos os cantos, de todas as formações, unida por um único propósito: proteger quem estava mais vulnerável.

O que o coletivo foi capaz de fazer

Os números impressionam. Mas os números não contam tudo.

Foram mais de 250 lives transmitidas. Vinte e três eBooks gratuitos produzidos. Mais de 1.500 voluntários mobilizados do Brasil e do exterior. Mais de 750 mil pessoas alcançadas nas redes sociais. Quarenta e dois treinamentos e capacitações por região. Mais de 13 mil pessoas inscritas de todo o país. Cartilhas que chegaram a ILPI que nunca tinham tido acesso a formação direta ao seu cotidiano.

Mas por trás de cada número havia pessoas. Havia um enfermeiro que abriu o laptop depois de um plantão exaustivo. Havia uma assistente social que organizava materiais às 3 da manhã. Havia gestores de ILPI que recebiam orientação em tempo real porque não tinham mais para onde correr. Havia uma rede que respirava junta, que se sustentava mutuamente, que não deixou ninguém para trás quando o mundo inteiro estava desmoronando.

E as ILPI brasileiras atravessaram a pandemia. Com mortalidade significativamente menor do que o esperado. Com dignidade. Com cuidado.

Não foi sorte. Foi o nós.

Em maio de 2022, a Frente ILPI conquistou o 1º lugar na 1ª Edição de Experiências Exitosas da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia — um reconhecimento que nos honrou profundamente e que legitimou, diante de toda a comunidade científica, o que havíamos construído juntos. Mas, para quem esteve lá, havia uma recompensa que nenhum troféu consegue traduzir. Estava nas vidas que continuaram. Estava nos idosos que chegaram ao outro lado da pandemia. Estava nos profissionais que se sentiram menos sozinhos porque havia uma rede que os sustentava.

A marca que fica — e o alerta que não pode ser esquecido

feridas que cicatrizam, mas deixam marcas. A marca da pandemia permanece. Permanece em quem perdeu pessoas amadas sem poder se despedir. Permanece em quem ficou de pé quando queria tanto sentar e chorar. Permanece em quem escolheu, dia após dia, o próximo antes de si mesmo. Essa marca não é fraqueza. É a prova mais concreta de que estivemos presentes quando estar presente custava caro.

E há uma verdade que precisa ser dita com clareza e com respeito: cada um de nós, em seu íntimo mais verdadeiro, sabe muito bem quem foram os soldados reais dessa frente. A luta tem uma memória própria, e ela não mente. Não há farda que se vista depois que a batalha termina. Não há louros para quem não esteve nas trincheiras. E isso não é amargura — é honra. É o reconhecimento de que quem esteve lá não lutou por medalha nenhuma. Nossa meta era sobreviver. Ajudar. Salvar o máximo de vidas possível. E foi exatamente isso que fizemos.

Mas há também outro alerta, igualmente necessário: que a memória da pandemia não se transforme em conforto passado. Que as pessoas idosas que moram em ILPI não voltem à invisibilidade que tinham antes de 2020. Que as ILPI não precisem de uma nova tragédia para voltarem a ocupar a pauta pública com ética e transparencia. O que vivemos foi um espelho. E espelhos existem para que a gente não repita os mesmos erros.

Seis anos depois: legado, raízes e frutos que somam

O legado da Frente ILPI não é uma lista de conquistas em um relatório. É uma cultura. É a prova de que, quando profissionais se unem em torno de um propósito maior do que qualquer interesse individual, é possível mover montanhas. É a demonstração de que o cuidado com os mais velhos não é um tema menor, não é uma questão de nicho — é um termômetro da humanidade de uma nação.

E esse propósito não parou. Ele se multiplicou. Da mesma raiz, cresceram frutos que somam: Dra. Karla Giacomin, coordenadora da Frente, preside hoje a Associação Cuidadosa — organização sem fins lucrativos que conecta pessoas, ciência, sociedade e setor público na transformação da cultura do cuidado. E desta mesma semente nasceu também a Revista Cuidar fundada por Aline Salla, coordenadora de comunicação da Frente, como mais um braço vivo desse movimento que acredita que as ILPI são observatórios privilegiados sobre a velhice — e que isso merece ser contado.

O coletivo que nasceu em abril de 2020 mostrou ao Brasil e ao mundo que as ILPI existem, que as pessoas idosas importam, e que os profissionais que cuidam deles merecem suporte, formação, reconhecimento e voz.

Não foi fácil. Ainda não é fácil. Mas a história está escrita — nas cartilhas, nas lives, nos rostos de quem sobreviveu, na memória dos que partiram, e no coração de cada um que, naquele momento impossível, escolheu o nós.

Nossa história, ninguém apaga.

E para que sigamos – porque ainda há muito a construir, ainda há muito cuidado a defender.

“Não nos afastemos muito. Vamos de mãos dadas” – Drummond.

Com amor e gratidão,
08 de abril de 2026

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About the Author: Aline Salla

CEO e Diretora Editorial da Revista Cuidar · Italo-brasileira. Co-fundadora da Frente-ILPI (2020). Ponte entre os sistemas de cuidado do Brasil e da Itália.

2 Comments

  1. Ana Luiza Pasotti Damasceno 08/04/2026 at 07:45 - Reply

    Parabéns excelente

  2. Ana Paula 08/04/2026 at 18:28 - Reply

    A Frente foi a nossa esperança. Sem a frente estaríamos abandonados. Obrigada a vocês, especialmente Dra Karla e Aline por conduzir esse grande desafio de forma tão respeitosa e comprometida.

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2 Comments

  1. Ana Luiza Pasotti Damasceno 08/04/2026 at 07:45 - Reply

    Parabéns excelente

  2. Ana Paula 08/04/2026 at 18:28 - Reply

    A Frente foi a nossa esperança. Sem a frente estaríamos abandonados. Obrigada a vocês, especialmente Dra Karla e Aline por conduzir esse grande desafio de forma tão respeitosa e comprometida.

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