Por:  Letizia Espanoli– Sente-mente® modelo.
Artigo traduzido por: Aline Salla – autorizado para Revista Cuidar®

Essa é uma pergunta que, mais cedo ou mais tarde, atravessa todos nós. Por que eu deveria ficar além do meu turno para fazer formação? Estou cansado(a). Já dei o meu melhor. Amanhã começa tudo de novo. E, no fundo, eu já sei fazer este trabalho.

Pois é: a formação em ILPI começa exatamente dessa pergunta honesta. Porque, se a formação fosse apenas “acrescentar informações”, então sim: seria tempo perdido. Mas a verdadeira formação não serve para saber mais. Serve para sustentar melhor aquilo que você já vive todos os dias.

Formação não é pausa do trabalho, é pausa para o trabalho

Vamos então abrir uma perspectiva diferente. A formação não é uma pausa do trabalho. É uma pausa para o trabalho. Quando nunca paramos para refletir, o trabalho de cuidado se estreita. Vira repetição, automatismo, defesa. Não porque somos maus profissionais, mas porque o cérebro, sob pressão constante, busca atalhos. E o atalho mais comum é este: fazer sem sentir, agir sem pensar, concluir tarefas para sobreviver.

A pesquisa é clara. Diversos estudos mostram que a formação direcionada — especialmente aquela centrada na pessoa, na compreensão de comportamentos difíceis e na relação — aumenta significativamente o senso de competência e de autoeficácia dos profissionais. Sentir-se competente não é um luxo psicológico: é um fator de proteção. A autoeficácia percebida está associada a menor estresse, melhor saúde mental e maior capacidade de enfrentar situações complexas sem se sentir sobrecarregado.

Em outras palavras: a formação devolve um tipo de poder saudável. Não poder sobre o outro, mas poder de fazer bem.

Formação como proteção contra o burnout e valorização profissional

Isso tem um efeito direto sobre um dos temas mais urgentes nas ILPI: o burnout. Intervenções formativas estruturadas — como aquelas baseadas no cuidado centrado na pessoa ou em abordagens observativas e reflexivas — demonstraram uma redução significativa do esgotamento emocional. Isso acontece porque oferecem ferramentas de leitura, linguagens compartilhadas e estratégias alternativas. Quando você entende por que uma pessoa age de determinada forma e como pode responder, a frustração diminui. O cansaço permanece, mas deixa de ser confuso e sem direção.

Associação Cuidadosa

A formação também impacta algo muito concreto: a satisfação no trabalho e o desejo de permanecer. Estudos sobre rotatividade em ILPI indicam a formação como uma variável-chave para aumentar a satisfação profissional e reduzir a intenção de deixar o trabalho. Não porque a formação “motiva” de forma abstrata, mas porque devolve dignidade profissional. Ela lembra que você não é apenas uma mão que executa, mas uma mente que compreende e uma pessoa que cresce.

Muitos profissionais, após percursos formativos centrados na relação e na comunicação não verbal, relatam uma descoberta importante: sentem-se mais profissionais. Isso acontece porque aprendem a ler melhor as pessoas, captar sinais e interpretar comportamentos. Esse aprendizado também transforma o olhar sobre os residentes. Pessoas antes vistas como “inertes”, “apagadas” ou “sem interesse” passam a ser reconhecidas como presentes, comunicativas e portadoras de sentido. E quando o olhar muda, muda também a experiência do trabalho: menos monotonia, mais curiosidade e mais relação.

Mais ferramentas, menos frustração: cuidar com sentido

Há ainda um campo muito delicado: a gestão de comportamentos difíceis. As evidências indicam que a formação nesse tema está entre as mais eficazes para melhorar o bem-estar dos profissionais. Isso porque a agitação, a agressividade e a recusa não desgastam apenas quem vivencia essas situações, mas também quem as enfrenta sem ferramentas adequadas. Saber o que fazer, contar com alternativas não farmacológicas e sentir-se apoiado reduz a frustração e aumenta a segurança. E a segurança contribui para reduzir o uso de contenção e coerção, como mostram programas formativos específicos.

Então voltamos à pergunta inicial, agora com um novo significado: por que ficar além do turno?

Porque parar é um ato de cuidado consigo mesmo.

Porque a formação é o espaço onde o trabalho deixa de consumir e volta a nutrir.

Porque, sem formação, você pode até se tornar bom em resistir, mas corre o risco de perder a capacidade de sentir.

Chamada para ação individual

Na próxima proposta de formação, tente não se perguntar “quanto isso me custa”, mas “o que isso pode me devolver”. Observe, após algumas semanas, se a sua forma de atuar no setor mudou, mesmo que minimamente.

Exercício para a equipe (10 minutos)
Em equipe, dediquem 10 minutos a esta pergunta: “Qual foi uma coisa que a formação nos permitiu fazer melhor, de fato?”. Nomear isso juntos transforma o aprendizado em patrimônio compartilhado.

Uma verdade simples e poderosa
A formação não afasta você do trabalho. Ela reconecta você ao seu sentido. E, em uma profissão que exige tanto, reencontrar sentido não é um extra. É uma forma saudável de continuar.

A Revista Cuidar é a primeira revista nacional dedicada exclusivamente ao universo das ILPI, reunindo artigos assinados por profissionais que atuam diretamente no cuidado, no Brasil e no exterior, e que compartilham experiências, reflexões e boas práticas fundamentadas na realidade do setor.

Com reconhecimento crescente no meio profissional e institucional, a Revista Cuidar se consolida como um órgão de comunicação qualificado, pautado pela responsabilidade editorial, rigor técnico e compromisso com a excelência na produção e difusão de conhecimento sobre o cuidado de longa permanência.

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