Não é nada incomum conhecer alguns ambientes institucionais que se baseiam em um ciclo estruturado, organizado, desmedido e excessivo de cobrança. A diretoria cobra da sua equipe técnica, em especial do responsável da enfermagem um padrão de qualidade, faz diversas exigências, mesmo sem oferecer as condições mínimas para que esse trabalho aconteça. E, nesse caso, não apenas referente ao pagamento do salário dos profissionais, mas da falta de quantidade de profissionais, falta de organização nas ausências, além de falta de comunicação.

Nestes casos, cria-se assim um ciclo de cobrança, onde o responsável da área da enfermagem se vê obrigado a cobrar os seus subordinados, e os seus subordinados também se veem obrigados a cobrar as pessoas que atendem, no caso as pessoas idosas. E em muitos casos esse ciclo pode se fechar a partir do momento em que a pessoa idosa ao se sentir pressionada, vai pressionar a família para resolver a situação e a família, por sua vez, pressiona a direção e fechamos aqui o ciclo.

O ciclo da pressão na prática institucional

Vamos verificar um exemplo muito prático e que pode acontecer em diferentes contextos institucionais:

Os banhos são determinados em um horário certo, com um tempo certo para acontecerem, pois logo depois segue-se para uma nova tarefa ou atividade, seja tomar o café da manhã, seja outra atividade qualquer. O responsável de enfermagem delimita um tempo para que aquela ação seja feita, dando algum espaço de tempo para atrasos, mas é uma atividade que cobra dos cuidadores a organização necessária, além de uma certa agilidade para efetuar aquela ação. Neste sentido, o cuidador por sua vez também se sente responsável por executar a tarefa dentro do tempo, e em alguns casos, pode vir a repetir o ciclo de cobrança excessiva, exigindo da pessoa idosa uma desenvoltura que ela pode não ter. Diante de uma má disposição da pessoa idosa em se sentir pressionada para tomar o seu banho, ela pode ir pressionar então a família para que resolva a situação, sendo o movimento da família pressionar a instituição uma forma de encerrar o ciclo como começou: com cobranças, sem empatia, sem buscar compreender o contexto institucional.

Sinais de um ambiente sobrecarregado

Ações como essas são facilmente reconhecíveis em algumas instituições. Um ambiente com profissionais sobrecarregados é facilmente detectável diante de visitas que não precisam ser longas. Alguns sinais podem ser:

  • Cuidadores dispersos quando as pessoas idosas chamam para ações simples: o idoso está pedindo há mais de dez minutos que alguém abra a porta, feche uma janela, mas os cuidadores passam apressados sempre com a desculpa de “já vai”, “espere um pouco”, sem nem se dar conta do pedido feito.
  • Pequenos entraves na comunicação da equipe: perguntas que são simples que soam como um pequeno confronto. “Quem foi que tirou a cadeira da Dona Ana daqui? É porque agora ninguém sabe onde está!”.
  • Profissionais sempre ocupados, desatentos, usando um tom de voz para falar alto e de longe pela falta de tempo de poder chegar mais perto para dizer o que for.

Um ambiente como esse não pode ser transformado exclusivamente pelos cuidadores com formações sobre cuidado humanizado, sobre empatia, entre muitos outros temas, pois as pessoas que estão na ponta do cuidado são apenas um reflexo da forma como o espaço é gerido.

Impactos no comportamento e bem-estar das pessoas idosas

Nesses locais em que os cuidadores sempre estão sobrecarregados também não é incomum ver as pessoas idosas sempre muito afoitas: buscam pegar na mão de uma pessoa que está passando pelo corredor, passam muito tempo a gritar para chamar a atenção, pois sabem que os momentos em que conseguem ser ouvidos e alguém consegue atender um pedido seu não é frequente. O que diferencia de pessoas com algum grau de declínio cognitivo que tem um padrão de comportamento repetitivo, sendo essa uma situação diferente, estamos falando de idosos conscientes que sabem que precisam daquela “oportunidade” de alguém estar passando para fazer um pedido, pois todos estão sobrecarregados.

Sendo assim, como é possível que algumas atividades da vida diária sejam prazerosas, como por exemplo, o banho? Esse deveria ser um momento da pessoa relaxar, no calor poder se refrescar, mas em um ambiente sobrecarregado esse momento se torna uma verdadeira maratona, a água mal chega a esquentar, não há muito espaço de tempo para relaxar, é mesmo cumprir mais uma tarefa e andar.

Associação Cuidadosa

Rompendo o ciclo: o papel da gestão na cultura organizacional

Apesar disso, é injusto quando as instituições mantém o ciclo desmedido e excessivo de cobrança como um padrão da cultura organizacional, pois leva os cuidadores a considerarem procurar outros ambientes de trabalho, o que gera maior rotatividade profissional e maior dificuldade das pessoas idosas de se vincularem com as pessoas que oferecem os cuidados diários, as pessoas com quem eles dividem as suas maiores intimidades, em seus momentos mais vulneráveis, como é o caso do banho.

A quebra do ciclo precisa se dar início na gestão da organização, responsável por instaurar uma cultura organizacional pautada no respeito, não apenas das pessoas idosas (que é o pilar fundamental), mas também no respeito para e com os cuidadores, com os profissionais das outras áreas, para garantir que o respeito oferecido com os profissionais possam se refletir nas pessoas atendidas e consequentemente na visão da instituição e de como o trabalho é prestado com excelência.

Você quer entender melhor como a sua instituição pode implementar uma cultura organizacional mais empática e respeitosa com os funcionários e com as pessoas idosas? Eu me chamo Thaís Carvalho, sou assistente social, mestra em Gerontologia Social e criei um guia prático gratuito sobre esse tema que você pode baixar no botão a seguir gratuitamente:

About the Author: Thaís Teixeira

Formada em Serviço Social, com pós-graduação em Gerontologia e mestrado em Gerontologia Social. Criadora de conteúdo na página @longevamente.

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