Se preferir, ouça o resumo aqui:

Por: ANNA GABURRI e LETIZIA ESPANOLI – Sente-mente®
Artigo autorizado, traduzido em parceria com ALINE SALLA – Revista Cuidar

O Natal nas instituições de longa permanência para idosos (ILPI) muitas vezes cria grande agitação. Como profissional do cuidado, seja assistência, educador, cuidador, enfermeiro ou coordenador, você é chamado com sua profissionalidade a tornar mágico o tempo de espera pelo Natal e o momento em que ele é vivido.

Frequentemente não queremos repetir as mesmas atividades que já propusemos no ano anterior, porque o Natal nos pede desempenho e originalidade. Além disso, queremos oferecer o melhor aos residentes das ILPI. Assim, nos colocamos ao lado de voluntários e familiares para pensar no que fazer, nos artesanatos e nos enfeites.

Sem uma reflexão profunda, porém, corre-se o risco de preparar festas, eventos ou envolver os residentes em atividades que acreditamos ser apreciadas por todos, e sem perceber nos encontramos presos na lógica do fazer. E principalmente corremos o risco de cair em um dos erros mais graves: a infantilização. Para personalizar o Natal, precisamos olhar para esse tempo com os olhos dos residentes.

Imagine ter vivido sempre o Natal com sua família, de forma íntima, e nunca ter passado as festas fazendo grandes coisas. Ou imagine que o Natal possa lembrá-lo de algum evento triste ou que você simplesmente não gostasse dessa época. Como você se sentiria se agora não pudesse mais decidir como passar e viver o tempo de Natal? A pergunta torna-se então: o que é o Natal para cada residente com sua família? E por que essa data hoje é ou não importante para mim?

O Natal é um período do ano particularmente rico de significado, memória e conexão emocional.

Para as pessoas com demência, contudo, essas festividades podem ser excessivamente estimulantes ou até gerar profundo desconforto, porque o sentir da pessoa com demência é único e especial. Criar um Natal que seja autêntico, respeitoso e capaz de despertar emoções profundas e positivas, sem cair na infantilização, é uma responsabilidade que como organização e profissionais devemos assumir. O objetivo passa a ser projetar um Natal que respeite a adultidade e a singularidade de cada residente, oferecendo momentos de verdadeira partilha e felicidade.

Associação Cuidadosa

Antes de tudo, como profissional, responda a esta pergunta que a pessoa com demência faz: Quando você me olha, diga-me o que vê? O estigma começa no olhar: se você pensa que a pessoa idosa ou com demência se torna como uma criança, você a tratará como tal. Um erro comum que leva a propor atividades ou decorações que podem parecer banais ou inadequadas. Ao contrário, Letizia Espanoli nos convida a respeitar a identidade adulta das pessoas, lembrando que cada indivíduo merece respeito e dignidade em cada gesto cotidiano, assim como nas festividades e eventos.

Como criar então experiências de valor para a pessoa com demência?

O primeiro passo fundamental para oferecer uma experiência natalina de valor é conhecer profundamente a história de vida da pessoa, suas memórias, tradições e desejos. Cada indivíduo carrega consigo um passado único relacionado ao Natal, e descobrir quais aspectos desta festa eram importantes para ele ou ela e o que hoje deseja viver permite criar momentos especiais.

  • Observe as capacidades e recursos presentes.
  • Seja curioso sobre o que a pessoa sempre fez para preparar e viver essa celebração.
  • Evite o que a pessoa não gosta ou que já não faz parte de seus interesses.
  • Procure os desejos e o que é apreciado pela pessoa com demência.
  • Garanta que no dia da pessoa existam momentos de atividade e de relaxamento.

É por meio dos sentidos que as pessoas com demência sentem o Natal.

Crie beleza no ambiente, perguntando-se se realmente é valioso para todos decorar todos os espaços da ILPI ou se seria melhor criar um cantinho do Natal que cada residente possa escolher contemplar e viver também com seus familiares.

Natal é tempo de gratidão.

Poderíamos, neste ano, transformar nossa árvore de Natal em uma Árvore da Gratidão, com muitos ramos repletos de gestos de reconhecimento. Muito obrigado(a) porque… como enfeites preciosos. A gratidão é a verdadeira essência do Natal e uma soft skill que nas organizações e comunidades precisa ser ampliada. Ela floresce quando nutrimos nossa capacidade de reconhecer o valor das pessoas e das experiências que vivemos, e pode envolver todos os habitantes da Casa. Você pode seguir estes passos:

  • Coloque à disposição, próximo da árvore de Natal, uma mesinha com uma bonita moldura contendo a descrição da experiência e convidando as pessoas a vivê-la.
  • Disponibilize bilhetinhos e canetas coloridas para que cada um escreva seu pensamento de gratidão e o pendure na árvore.
  • Ofereça ajuda à pessoa com demência para registrar o seu pensamento, mesmo que seja apenas uma palavra. Para aquela que já não consegue se expressar verbalmente, relate você a expressão de seu rosto, por exemplo: Obrigada Sra. M. pelo sorriso que me deu hoje, enquanto…
  • Inspire os familiares a viver a experiência com seu ente querido.

A oportunidade de criar um encontro dedicado no qual os residentes possam acrescentar seus bilhetes à árvore, e um ritual de partilha lendo-os junto com familiares e profissionais, torna-se um verdadeiro tesouro emocional para todos: uma troca de gratidão pelos momentos de beleza vividos juntos.

E também é tempo de gentileza.

Outro ingrediente essencial, especialmente necessário neste tempo tão complexo. Para isso:

  • Crie um calendário para o mês de dezembro em que todos os habitantes da Casa sejam inspirados a viver uma ação de gentileza por dia.
  • Coloque o calendário em um local visível a todos.
  • Deixe uma moldura ao lado com a descrição da experiência.
  • Inspire residentes, colegas, familiares e todas as pessoas que de algum modo habitam a Casa a expandir a gentileza também para a comunidade.

Os momentos mais belos.

Amplie o valor das decorações fazendo com que se tornem oportunidades preciosas para fazer brilhar emoções. O que aconteceria se você decidisse fazer com que as paredes da Casa contassem os momentos mais bonitos?

Você poderia escolher as melhores fotos tiradas com os residentes em 2024, acompanhadas das frases coletadas pelos profissionais e familiares. Criar um fio condutor na Casa capaz de narrar toda a beleza desses momentos especiais pode gerar emoções mágicas.

Personalize o quarto do residente que desejar.

Muitas pessoas acolhidas nas ILPI podem ter guardado alguns objetos ou enfeites preciosos e ter prazer em poder abrir novamente aquela caixa onde os conservaram para enfeitar seu quarto. Pode ser um ritual especial a ser vivido com seu familiar.

O perfume que me faz sentir o Natal é…

Que cheiro tem o Natal para a pessoa com demência? O aroma do panetone, das frutas frescas ou dos temperos usados nas ceias pode reacender emoções das festividades. Esses perfumes delicados podem ser difundidos no espaço pessoal do residente durante o tempo de espera.

E a propósito de música e canto, que podem criar uma atmosfera calma e tranquilizadora:

  • Se eu desejar, ofereça-me a possibilidade de ouvir, em alguns momentos do dia, a canção que representa o Natal para mim e que me faz experimentar emoções positivas, leveza e serenidade.
  • Ofereça-me também a oportunidade de ouvir o coro da comunidade/paróquia, mas respeite a minha escolha naquele dia: mesmo que eu normalmente goste, talvez eu queira ouvi-lo apenas por um momento.

Faça também com que, no dia de Natal, o residente possa vestir “a roupa escolhida para a festa”, aquela que ele preferir, aquela que deseja usar. Lembre-se de que o vestuário devolve, a todos nós, dignidade e identidade todos os dias (você gostaria daquele babador que, em muitas instituições para idosos, é colocado sem perguntar se a pessoa quer ou sem pedir permissão?).

A pessoa com demência deseja continuar vivendo e ocupando-se do que sempre fez, e pode também experimentar coisas novas.

Crie pequenos grupos de interesse conforme os recursos e preferências. Podem ser receitas de Natal, receitas de chás ou sucos preferidos, um doce natalino especial.

Vá à descoberta de talentos e desejos, mas ofereça a possibilidade de viver experiências simples e torne extraordinárias as “pequenas coisas do cotidiano.”

As funções religiosas.

O Natal é, para muitas pessoas, uma celebração cristã e, para quem vive essa fé, é importante participar das cerimônias ligadas à data. Ao mesmo tempo, o Brasil é um país laico e as ILPI também devem garantir esse princípio, acolhendo com igual respeito todas as crenças, tradições espirituais e expressões de fé presentes entre os residentes e também aqueles que não seguem qualquer religião.

Por isso, o planejamento desses momentos precisa ser feito com cuidado, dialogando com líderes religiosos de diferentes denominações para organizar celebrações, momentos de oração, rezas, preces, cultos de religiões de matriz africana e também a Missa de Natal para quem desejar vivenciá-la.

É igualmente importante reconhecer o valor da espiritualidade para as pessoas idosas não autônomas, oferecendo a possibilidade de receberem, no próprio quarto, a visita do sacerdote, ministro religioso, líder espiritual ou representante da tradição que professam.

Natal é troca de presentes.

O Natal é família, um tempo dedicado à intimidade dos afetos. Façamos então com que as pessoas com demência possam viver, com seus familiares e com quem desejam encontrar, momentos especiais e reservados. Criemos um tempo e um espaço para que esse encontro possa aquecer o coração do residente e de seu ente querido.
As pessoas idosas e as pessoas com demência também podem ter o desejo de dar um presente a alguém querido.

Como podemos ajudá-las nisso? Pergunte a elas e tente inspirá-las, imaginando:

• uma videochamada
• escrever uma carta…
• o que você gostaria de presentear a…
• o que você gostaria de dizer a…

E se a pessoa com demência já não tiver mais palavras para dizer o que gostaria de presentear aos seus familiares? Você pode ajudá-la a transmitir seus momentos felizes com uma fotografia, com um pensamento que você percebeu quando, ao seu lado, ela lhe disse que…

Natal é conexão e comunidade.

O Natal é um período de conexão e comunidade, um momento especial para fortalecer as relações e abrir as portas da Casa. Nesse espírito, receber uma carta de boas-festas é um gesto que aquece o coração, lembrando que alguém pensa em nós.

Incentivemos os cidadãos — especialmente nos pequenos municípios — a enviar um carinho em forma de cartões postais. Seria maravilhoso se as associações locais e os moradores enviassem mensagens às instituições para pessoas idosas e mensagens de agradecimento aos funcionários, enriquecendo assim a Árvore da Gratidão. Cada palavra, cada gesto, contribuirá para criar uma atmosfera de amor e reconhecimento, tornando o Natal um momento inesquecível.

Os momentos com crianças, a presença de corais e associações a serem planejados com cuidado.

A possibilidade de viver momentos com crianças, a presença de corais e grupos comunitários precisa ser pensada e organizada com atenção. É essencial verificar se a pessoa com demência aprecia essas visitas e se sente confortável em um ambiente com muitas pessoas, sons e movimento. É importante perceber possíveis sinais de desconforto para garantir o bem-estar delas e oferecer a possibilidade de estar em um ambiente mais sereno e tranquilo.

Este convite a olhar além das dificuldades é um chamado para ver o nosso trabalho como uma oportunidade de fazer a diferença. Por meio de pequenos gestos de cuidado e respeito, podemos oferecer um Natal que celebre verdadeiramente a vida de cada pessoa, fazendo brilhar a luz do Bom Cuidar.

Artigo de Anna Gaburri, Letizia Espanoli e Michela Franci, extraído do webinar “Viver o Natal junto à pessoa com demência na ILPI” de 25 de outubro de 2024.

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Abraços.

About the Author: Editorial Revista Cuidar

Edição Internacional - Artigos de autores internacionais com direitos autorais autorizados exclusivamente para a Revista Cuidar em parceria.

One Comment

  1. ÁDREA MARIA FERREIRA MOREIRA 26/11/2025 at 15:36 - Reply

    Olá,
    Achei ótimo o artigo! E como professora, coordenadora de um projeto de extensão de nutrição e gastronomia em uma ILPI, vamos usar as dicas com carinho, para realizar nossa atividade de natal com os idosos. obrigada pelo artigo.

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One Comment

  1. ÁDREA MARIA FERREIRA MOREIRA 26/11/2025 at 15:36 - Reply

    Olá,
    Achei ótimo o artigo! E como professora, coordenadora de um projeto de extensão de nutrição e gastronomia em uma ILPI, vamos usar as dicas com carinho, para realizar nossa atividade de natal com os idosos. obrigada pelo artigo.

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