- Por que para mim o banho pode representar um verdadeiro desafio?
- Banho, ducha ou uma parte do corpo de cada vez?
- Eu preciso mesmo tomar banho agora?
- Respeite minha privacidade e intimidade.
- Experimente novas soluções que possam evitar que eu me sinta constrangido.
- Concentre-se na relação comigo.
- O banho eu faço.
Créditos: Por: ANNA GABURRI e LETIZIA ESPANOLI – Sente-mente®
Artigo autorizado, traduzido em parceria com ALINE SALLA – Revista Cuidar.
Pense no último banho ou ducha agradável que você se presenteou. Talvez tenha sido um banho quente para relaxar, ou no fim de um dia cansativo. Ou então o banho fresco que você escolhe tomar todas as manhãs para começar o dia com energia. Cada um tem suas preferências, seus motivos, seus rituais. E talvez o primeiro pensamento nem esteja ligado às necessidades de higiene. Mas e para a pessoa que vive com demência?
Qual é o pensamento que nos acompanha ao oferecer os cuidados de higiene ao nosso ente querido que vive com demência? Estudos científicos demonstram que o momento do banho é considerado uma das tarefas mais estressantes e desagradáveis tanto para quem oferece ajuda quanto para a pessoa com demência (Kovach e Meyer-Arnold, 1996) e que o processo do banho cria alguns dos maiores níveis de desconforto físico e emocional para pessoas com demência (Dunn et al., 2002).
Por que para mim o banho pode representar um verdadeiro desafio?
Pessoas idosas que precisam de ajuda para tomar banho frequentemente consideram essa atividade difícil tanto física quanto emocionalmente, e o mesmo vale para quem cuida deles. A pesquisa identificou diversos fatores que contribuem para essas dificuldades, entre eles: dor, fadiga, fraqueza, confusão e ansiedade. Esta última pode derivar do fato de ficar nu diante de outras pessoas, do medo de cair e de estar em um ambiente desconfortável. Além disso, o desconforto pode ser aumentado por áreas frias, correntes de ar ou jatos de água muito fortes.
Os autores deste artigo defendem a eliminação da ideia de um banho que precisa ser feito a qualquer custo. A pesquisa apoia essa mudança de filosofia e prática, sugerindo que o banho não deve ser visto como uma tarefa a ser executada, mas sim como uma interação humana. Essa abordagem visa transformar o momento do banho em uma experiência mais serena e respeitosa para todos.
Banho, ducha ou uma parte do corpo de cada vez?
Revisitar a história de vida, os hábitos do seu ente querido em relação ao autocuidado é fundamental para que ele possa vivenciar com prazer o momento da higiene. Diversos estudos recomendaram personalizar a forma como o banho ou a ducha são oferecidos. Por exemplo, oferecendo a ducha em vez do banho de imersão (Miller, 1994).
Essa atenção aos hábitos pessoais não é importante apenas no contexto familiar, mas também quando a pessoa idosa passa a morar em uma Instituição de Longa Permanência (ILPI). Nesses casos, compartilhar com a equipe de cuidadores informações sobre a forma como o idoso costumava se cuidar em casa – como, quando e de que maneira preferia tomar banho é essencial para que o cuidado seja mais individualizado, respeitoso e acolhedor.
Pergunte-se:
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Meu ente querido estava acostumado a tomar banho de chuveiro ou preferia se lavar por partes?
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Costumava tomar banho pela manhã, depois do almoço, ao fim da tarde ou antes de dormir?
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Tomava banho uma vez ao dia, mais de uma vez ou intercalava banhos completos com lavagens rápidas (rosto, pés, axilas)?
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Preferia banhos rápidos ou demorados, aproveitando a água morna para relaxar?
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Gostava de usar sabonete em barra, sabonete líquido ou tinha uma marca/perfume preferido?
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Usava bucha vegetal, esponja sintética ou apenas as mãos para se ensaboar?
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Qual era o perfume que mais gostava de sentir no sabonete, shampoo ou colônia depois do banho?
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Hoje prefere água mais morna, quase fria ou mais quente?
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Sente desconforto com o barulho ou com a pressão do chuveiro?
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Precisa de apoio para se equilibrar durante o banho (banqueta, barras de apoio)?
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Quando cuidava dos cabelos, fazia isso no próprio chuveiro, em casa no lavatório ou preferia ir regularmente ao cabeleireiro?
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Costumava secar os cabelos naturalmente, com toalha ou sempre com secador?
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Tinha o hábito de pequenos rituais após o banho, como passar creme hidratante, óleo corporal, colônia ou talco?
Conhecer a história de vida e os hábitos de higiene da pessoa idosa permite que o cuidado oferecido no dia a dia seja mais próximo da sua rotina original, fortalecendo o vínculo, preservando a identidade e favorecendo o bem-estar.
Além disso, é importante considerar que as preferências podem mudar com o tempo, em resposta às transformações que a pessoa enfrenta e aos recursos que ainda possui. Hoje, seu ente querido com demência pode preferir outra temperatura da água, a ducha em vez do banho de imersão, pode se incomodar com o barulho do secador ou com o jato de água molhando a cabeça.
São detalhes fundamentais que nos ajudam a compreender por que a pessoa com demência pode reagir à forma como é oferecida a ajuda no autocuidado e que devem ser observados e readaptados para que o momento da higiene, do banho ou da ducha possa ser ainda uma experiência de bem-estar e prazer, tanto para a pessoa com demência quanto para quem cuida.
Eu preciso mesmo tomar banho agora?
Pode ser que seu ente querido sempre tenha tomado banho ou ducha no sábado ao fim da tarde e que todos se esforcem para manter esse ritual importante. Mas, chegando o momento, ele simplesmente não quer. Ou, iniciado o banho, não deseja continuar.
É preciso parar. É importante perguntar-se: será que realmente precisa ser hoje (talvez só porque foi programado com a pessoa que vem ajudar em casa justamente nesse horário)? E se a recusa for porque “algo não está bem” (pode estar com dor, fome, sede ou com desejo de outra coisa antes…)? E se, justamente hoje, não quiser receber ajuda de mim?
Experimente deixar de lado a ideia de ter que executar uma tarefa e viver a relação de outra forma. Evite discutir ou tentar convencê-lo (com frases sobre quanto tempo faz desde o último banho ou a importância da higiene), e evite expressões infantilizantes ou que possam envergonhá-lo ou feri-lo (como dizer que ele está com mau cheiro ou que as roupas estão sujas).
Dê-se um tempo para compreender como seu ente querido se sente agora, e dê também tempo a ele. Proponha algo prazeroso para compartilharem juntos (um lanche preferido, algo que goste de beber, descubra o que deseja naquele momento e ajude a realizar). Depois de um tempo, tente oferecer novamente o banho. Cada dia pode ser diferente. E se hoje ele não quiser de jeito nenhum, é melhor adiar e aproveitar o momento em que estiver disponível.
Respeite minha privacidade e intimidade.
Aquilo que normalmente é uma atividade solitária e privada acaba se tornando mais público, exigindo a ajuda de outros para ser concluído. (…) Para muitos idosos com demência, que comumente perdem a capacidade de compreender as intenções dos outros ou de expressar seus desejos, o banho pode parecer um abuso, talvez até uma tortura, a ser suportada pelas mãos de outra pessoa. Para os idosos que têm alguma deficiência física, o banho já não está mais associado a imagens, sentimentos ou significados amados e prazerosos. (L. K. Evans, Enfermeira, 2004).
O momento da higiene é muito delicado e íntimo, e pessoas com demência podem vivê-lo como uma invasão de privacidade.
Experimente novas soluções que possam evitar que eu me sinta constrangido.
Em um estudo de 2004, cuidadores de instituições de longa permanência foram incentivados a identificar quais situações desencadeavam comportamentos reativos nas pessoas com demência e a desenvolver soluções criativas. Por exemplo, se os residentes ficavam irritados ou envergonhados ao serem ajudados a se despir, permitia-se que permanecessem com roupas leves até mesmo durante a ducha, e muita atenção era dada para evitar exposição desnecessária. Para algumas pessoas, permanecer envoltas em uma toalha quente, descobrindo apenas a parte do corpo que está sendo lavada, ou utilizar sabonete sem enxágue, pode ser mais eficaz e agradável do que um banho ou ducha tradicionais de corpo inteiro.
Os estudos demonstraram que:
“a ducha centrada na pessoa e o banho com toalha representam métodos seguros e eficazes para reduzir a agitação, a agressividade e o desconforto durante o banho em pessoas com demência” (F.D. Sloane et al., 2004).
As pesquisas constataram:
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redução de 56% no comportamento agressivo em relação aos cuidadores,
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redução de 62% na agitação dos cuidados recebidos,
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redução de 67% no desconforto dos cuidados recebidos,
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diminuição de 38% no tempo em que o banho era acompanhado de choro ou gritos.
Concentre-se na relação comigo.
Estudos mostram que focar na pessoa e na relação, em vez de na tarefa, reduz consideravelmente o desconforto e a resistência ao cuidado.
Pesquisas revelaram que cuidadores que ajudavam no banho frequentemente se sentiam apressados e frustrados, enquanto as pessoas cuidadas sentiam perda de controle e até agressão. Ao assumir o ponto de vista da pessoa, os cuidadores perceberam que comportamentos anteriormente rotulados como “agressivos” ou “resistentes” eram muitas vezes ações defensivas diante da sensação de ameaça e ansiedade.
Comece pelo que seu ente querido gosta de compartilhar com você: sua música preferida (antes e durante o banho), preparar juntos os itens necessários, escolher as roupas, aquecer as toalhas, saborear uma bebida preferida, tomar café da manhã antes da ducha, ter à disposição um lanche gostoso e um chá no banheiro…
O banho eu faço.
A independência no autocuidado é um fator importante para a satisfação de vida em pessoas idosas (J. Cohen-Mansfield, B. Jensenb – 2005).
Tomar banho exige muitas etapas e é uma experiência difícil para uma pessoa com demência. Ela pode não se lembrar da sequência, mas pode repetir gestos que fazem parte do autocuidado. É importante que possa fazer o máximo possível sozinha. Uma grande parte das reações negativas ocorre como resposta ao toque ou à invasão do espaço pessoal (Marx et al., 1989). Como você se sentiria se alguém aproximasse as mãos sem que você entendesse suas intenções e o que estava acontecendo?
Compartilhe antes de cada etapa o que deseja propor e sempre peça permissão, envolvendo seu ente querido em tudo o que lhe diz respeito. Isso pode evitar que ele se sinta assustado ou ansioso. Você também pode mostrar a ação em si mesmo (por exemplo, desabotoar a blusa, passar a esponja nos braços, sentir a temperatura da água com a mão…).
Dê tempo. Se necessário, permaneça próximo de forma discreta (por exemplo, entregando o sabonete e virando-se para preservar a privacidade) e ofereça ajuda gentil quando preciso. Isso permitirá que ele perceba que tem controle e aumentará sua autoestima.
Acompanhar o seu ente querido no momento do autocuidado, exercitando-se em transformar uma tarefa cotidiana em um momento especial de conexão e cuidado, melhora a qualidade de vida dele e gera serenidade. Nesta jornada, cada gesto gentil se torna um ato de amor que ilumina o caminho de ambos.
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Você já passou por situações de resistência ao banho? Como lidou com isso? Deixe sua história nos comentários.
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4 Comments
-
Muito bom , adoro ler e aprender sempre é muito bom .
-
Muito bom
-
Para mim é um terror tomar banho, fiquei só e demente
Já cai algumas vezes
Meu corpo está horrível e a genitalia horrenda é triste eu ver e pior estranhos verem -
Achei ótimo. Respeitar a privacidade da pessoa cuidada. Por ex. Eu sou sozinha ainda com minhas atividades mentais em ordem. Mas se não acontecer no futuro. O que fazer?. Gosto de privacidade não gosto de dividir com ninguém meus asseios: ir ao banheiro para um simples xixi até o banho. Como fazer se precisar? Fico apavorada só em pensar. O que você gosto. O que faço. Como lavar meus cabelos. Perfumes. Como passar estas coisas para quando precisar. E difícil ser não casada vai tenho filhos ou ninguém.











Muito bom , adoro ler e aprender sempre é muito bom .
Muito bom
Para mim é um terror tomar banho, fiquei só e demente
Já cai algumas vezes
Meu corpo está horrível e a genitalia horrenda é triste eu ver e pior estranhos verem
Achei ótimo. Respeitar a privacidade da pessoa cuidada. Por ex. Eu sou sozinha ainda com minhas atividades mentais em ordem. Mas se não acontecer no futuro. O que fazer?. Gosto de privacidade não gosto de dividir com ninguém meus asseios: ir ao banheiro para um simples xixi até o banho. Como fazer se precisar? Fico apavorada só em pensar. O que você gosto. O que faço. Como lavar meus cabelos. Perfumes. Como passar estas coisas para quando precisar. E difícil ser não casada vai tenho filhos ou ninguém.