Por: Aline Salla e Mayra Tofanetto
Antes das sete da manhã, alguém já percorre o corredor.
Confere se todas passaram bem a noite. Ajusta um travesseiro. Organiza um cabelo branco com a delicadeza de quem entende que dignidade também mora nos detalhes. Em outro quarto, uma residente desperta devagar — talvez com a memória de quando era ela quem levantava cedo para cuidar dos outros.
Esse é o momento em que a ILPI revela sua verdade mais íntima: aqui, cuidar não é apenas uma função. É um encontro entre histórias.
Domingo, 08 de março, é o Dia Internacional das Mulheres. Mas quem vive o cotidiano de uma Instituição de Longa Permanência sabe que, dentro dessas paredes, cada dia já nasce com o nome delas.
Das que chegam trazendo universos inteiros
As mulheres que hoje residem nas ILPI brasileiras não chegaram vazias.
São mulheres que viveram histórias incríveis, que cuidaram de famílias, que trabalharam, lutaram, amaram e deixaram marcas no coração de muitas pessoas.
Foram agricultoras que acordavam antes do sol. Professoras que formaram gerações. Comerciantes que sustentaram famílias com as próprias mãos. Mães, donas de casa que aprenderam a ser fortes quando não havia escolha. Mulheres que atravessaram o século XX com suas conquistas e suas cicatrizes — e que chegam ao envelhecimento carregando biografias que não cabem em nenhum prontuário.
O Brasil tem hoje mais de 32 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, e a maioria é mulher. Elas vivem mais, mas frequentemente com menos recursos, menor cobertura previdenciária e maior dependência de serviços de saúde. Quando chegam a uma ILPI, trazem consigo não apenas necessidades clínicas — trazem identidade, memória, preferências, medos e afetos que precisam ser reconhecidos.
Reconhecer essa trajetória é o primeiro ato de cuidado.
Das que sustentam o cuidado todos os dias
Do outro lado desse encontro estão as profissionais — cuidadoras, técnicas de enfermagem, enfermeiras, assistentes sociais, fisioterapeutas, nutricionistas, psicólogas, gerontólogas, recepcionistas, cozinheiras.
Também, em sua grande maioria, mulheres.
Mulheres que conciliam plantões com filhos, estudos com cansaço, responsabilidade técnica com escuta emocional. Que chegam ao final do turno exaustas e ainda assim guardam na memória o rosto de alguém que sorriu hoje. Que carregam, muitas vezes em silêncio, o peso de um setor que a sociedade ainda não aprendeu a valorizar como deveria.
Nos pequenos gestos, um sorriso, uma conversa, um cuidado delicado – as mulheres fazem toda a diferença dentro de uma ILPI. Elas estão presentes muitas vezes nos momentos difíceis e tornam os dias mais leves com afeto e respeito.
Pesquisas na área do envelhecimento confirmam o que os profissionais já sabem na prática: a qualidade das interações influencia diretamente o bem-estar emocional das pessoas idosas que moram nas ILPI. A escuta ativa, o estímulo à autonomia possível e o respeito à história de vida são fatores centrais para a qualidade de vida. Vínculo não é afeto romântico — é ciência aplicada ao cuidado.
O que o mito greco nos lembra
Há um antigo conto da mitologia greco-romana, narrado por Higino — mitógrafo latino — e retomado no século XX pelo filósofo Martin Heidegger, que diz algo essencial sobre tudo isso.
Diz a história que o Cuidado — chamado Cura — atravessava um rio quando viu um pedaço de argila. Moldou-o com atenção. Pediu a Júpiter que lhe desse espírito. A Terra reivindicou o corpo, pois a matéria era sua. Saturno, então, decidiu: quando esse ser morresse, o espírito voltaria a Júpiter e o corpo à Terra. Mas, enquanto vivesse, pertenceria ao Cuidado.
E assim nasceu o ser humano.
A mensagem atravessa séculos sem envelhecer: enquanto vivemos, somos sustentados pelo cuidado. Não como fraqueza. Como condição.
Dentro das ILPI, essa verdade se revela todos os dias — em cada banho dado com respeito, em cada conversa repetida com paciência, em cada decisão tomada em equipe para garantir segurança e dignidade. Cuidado não é fragilidade. É força organizada. É ética em movimento.
O que ainda precisa mudar
Valorizar mulheres nas ILPI — residentes e profissionais — exige mais do que homenagens em datas especiais.
Valorizar a mulher é reconhecer sua força, sua sensibilidade e tudo aquilo que ela representa.Valorizar a mulher é respeitar sua história, ouvir sua voz, reconhecer seu esforço e celebrar as conquistas.
Exige condições dignas de trabalho para quem cuida. Formação continuada acessível. Políticas públicas que levem a sério o envelhecimento populacional que se acelera no Brasil. E um combate firme ao idadismo — esse preconceito silencioso que apaga vozes femininas na velhice, trata a pessoa idosa como objeto de cuidado e não como sujeito de direitos.
Uma residente não é definida pela sua dependência atual. Ela é a soma de tudo que viveu.
Cada residente tem uma trajetória única, cheia de desafios superados, sonhos construídos e momentos que a tornaram ainda mais forte.
E uma profissional de ILPI não é menos qualificada por exercer uma profissão do cuidado. Ela é essencial para o tecido social — e merece ser tratada como tal.
Um convite à consciência coletiva
Que este 08 de março não seja apenas uma data no calendário.
Que seja um convite à consciência coletiva — para gestores, famílias, formuladores de políticas e para a sociedade que ainda fecha os olhos para o que acontece dentro das instituições de longa permanência.
Há mulheres que envelheceram construindo este país. Há mulheres que hoje sustentam, com as próprias mãos, a dignidade dessas vidas.
Elas merecem ser vistas. Não uma vez por ano — mas todos os dias.
Porque onde mora o cuidado, moram histórias de mulheres. E onde histórias são respeitadas, a dignidade floresce.
Porque quando uma mulher é valorizada, toda sociedade cresce e se fortalece.
Neste Dia Internacional das Mulheres, não ofereçamos apenas flores.
Ofereçamos respeito, visibilidade e compromisso com um envelhecimento digno.
Compartilhe esta homenagem às mulheres que vivem e trabalham nas ILPI.
Afinal, cuidar de quem envelhece é também cuidar da sociedade que queremos ser. 🌷
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Excelente. Convivo em um lar para idosos comp voluntária . Sinto que nem todos que trabalham nestas instituições tem vocação para ser cuidador 0 amor ao ser humano deve estar acima de tudo
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Amei tudo certo cheia de verdades dignidade que Deus abençoe seu coração ❤️ de semana cheia de paz felicidades abraço saudades minha 💋 💋 neta amada linda de alma de para suas obrigações te amo
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Um artigo memorável, pela delicadeza com que percebeu além da simplesmente residente, a grandeza dos sentimentos, das lutas, das decepções e da essência de anos de história das mulheres que são cuidadas e das mulheres que cuidam. Parabéns!












Excelente. Convivo em um lar para idosos comp voluntária . Sinto que nem todos que trabalham nestas instituições tem vocação para ser cuidador 0 amor ao ser humano deve estar acima de tudo
Amei tudo certo cheia de verdades dignidade que Deus abençoe seu coração ❤️ de semana cheia de paz felicidades abraço saudades minha 💋 💋 neta amada linda de alma de para suas obrigações te amo
Um artigo memorável, pela delicadeza com que percebeu além da simplesmente residente, a grandeza dos sentimentos, das lutas, das decepções e da essência de anos de história das mulheres que são cuidadas e das mulheres que cuidam. Parabéns!