Nota Editorial
Nos últimos dias, a creatina voltou a ocupar espaço nas manchetes e nas redes sociais. Infelizmente, muitas das informações divulgadas trazem equívocos que podem confundir familiares, cuidadores e até mesmo profissionais.
É por isso que publicamos o artigo do Dr. Ivan Aprahamian – médico geriatra e Diretor Científico da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) para oferecer uma visão clara, baseada em evidências, sobre quando a suplementação pode ser aliada na saúde da pessoa idosa e quando não há benefício.
A suplementação com creatina é uma tendência na atualidade. No entanto, o quanto temos certeza sobre sua eficácia e segurança em pessoas idosas?
Infelizmente, no mundo tecnológico, muitas informações são disseminadas de forma errônea ou por pessoas menos informadas ou não tão bem formadas para fornecer tal aconselhamento em saúde. Primeiramente, a creatina já é produzida em nosso organismo e é uma substância importante em diversos mecanismos, especialmente na saúde muscular. De forma simples, a creatina atua potencializando a energia muscular, atuando em sua recuperação e permitindo que todo esforço feito em atividade física com a intenção de mantermos ou melhorarmos nosso rendimento muscular seja ainda mais efetiva. Isso pode ser ainda mais importante em idosos desnutridos, com condições que atinjam o músculo como fragilidade física ou sarcopenia e, finalmente, em pessoas mais velhas com atividade física mais intensa.
Creatina: eficácia e segurança na população idosa
Um segundo ponto importante é a segurança em ingerir creatina suplementar. Se há uma boa indicação para seu uso, a creatina normalmente é segura. Algumas situações clínicas merecem maior discussão médica, como em pessoas com doenças renais, e de forma geral, recomenda-se uma individualização na prescrição de creatina. Esta última recomendação também envolve eficácia, além de segurança. Resultados positivos com a suplementação de creatina foram observados em estudos com pessoas idosas com atividade física regular e, no mínimo, moderada, como musculação durante 1 hora, 3 vezes por semana.
Quando a suplementação faz diferença (e quando não faz)
Uma ótima indicação de creatina seria para idosos sarcopênicos (baixa força e massa muscular), nos quais a creatina complementaria os tratamentos principais com atividade física resistiva (musculação) e nutrição com suplementação proteica. Neste cenário a creatina seria um potencializar do tratamento. Esta é uma observação muito importante.
Idosos com boa nutrição e sedentários normalmente não são bons candidatos ao uso de creatina. Em termos práticos, a creatina tem uma boa expressão em derivados de carne. Por exemplo, 200 gramas de carne forneceriam 1 grama de creatina ao organismo. Se uma pessoa possui alimentação diversificada, bom estado nutricional e é sedentária, dificilmente ela necessitará de maior quantidade de creatina.
Para aqueles futuros usuários, com boa indicação, o uso deve ser diário em doses entre 3 e 5 gramas ao dia, podendo ser ajustada a uma dose ao redor de 0,1 grama por quilograma de peso. Um ponto a ser discutido é o melhor momento de se ingerir a creatina no dia da atividade física. Há uma possibilidade de melhor aproveitamento se ingerida após o treino, em um intervalo curto, para melhor aproveitamento muscular.
Finalmente, uma dúvida na literatura atual é sobre o menor rendimento da creatina em mulheres idosas. Mulheres têm maior reserva muscular de creatina e respondem de forma pior à suplementação, mas as razões definitivas deste pior rendimento permanecem obscuras.
Concluindo, a creatina deve ter sua recomendação ou prescrição individualizada para cada pessoa idosa, sendo seu maior benefício em idosos com pior perfil nutricional e com necessidades de melhora de sua saúde muscular.

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