Autores: Aline Salla, Aline Testasicca, Elizete Maciel, Márcia Kurz, Patrícia Mattos, Rosane Sangaleti, Willi Wetzel.
A Ferida Aberta da Pandemia
Nesta edição especial dedicada ao Dia Internacional da Pessoa Idosa, 1º de outubro de 2025, não estamos aqui para celebrar. Estamos aqui para refletir com esse desabafo coletivo. Pensávamos, de verdade, que a pandemia nos teria transformado para melhor. Depois dos dias sombrios em que as UTIs lotadas dominavam os noticiários, em que sirenes rasgavam o silêncio das cidades vazias, em que abraços viraram telas e despedidas se tornaram videochamadas, acreditávamos que tamanha dor não passaria sem deixar uma marca de solidariedade. Havia uma esperança de que, juntos, construiríamos um novo senso de comunidade.
Mas, olhando para o Brasil e outros países hoje, precisamos reconhecer: o pior, muitas vezes, falou mais alto. A fragilidade escancarada nos cuidados não se curou; pelo contrário, a ferida infeccionou. A superlotação, a falta de profissionais qualificados e a precarização do trabalho, que já existiam, tornaram-se chagas expostas. A solidariedade evaporou, deixando para trás um rastro de desconfiança e exaustão.
Este desabafo não nasce do pessimismo, mas da desilusão. Não é um sinal de desistência, mas uma convocação à ação. São vozes de quem vê, todos os dias, a dura realidade do cuidado em nosso país e se recusa a aceitar o silêncio. É a convicção inabalável de que cuidar tem valor, dignidade e a qualidade do cuidado não se negocia.
A Promessa Quebrada: Do Aplauso ao Abandono
Durante o auge da crise sanitária, a gratidão parecia ser a cola que nos unia. Profissionais na linha de frente eram heróis. Hoje, esse sentimento se deteriorou, deixando um vácuo de reconhecimento que desmoraliza e esgota quem se dedica a cuidar do outro.
O que antes era um sentimento coletivo de “ninguém solta as mãos de ninguém” deu lugar a dedos apontados. A solidariedade foi substituída por uma cultura de cobrança implacável, onde a desconfiança e as críticas se tornaram a norma. Assistimos, perplexos, a uma sociedade que se tornou menos solidária, mais acusatória, exigente de resultados, mas raramente grata.
Nesse processo, o valor humano, emocional e ético do cuidado foi esquecido. Ignora-se que cuidar não é apenas um serviço, mas um ato de profunda humanidade e responsabilidade. E essa desvalorização social não é abstrata; ela tem um impacto direto e devastador na vida e na saúde mental de quem escolheu o cuidado como profissão e missão.
O Êxodo Silencioso: Quando Cuidar Deixa de Ter Valor
A desvalorização profissional no setor sociossanitário não é apenas um problema trabalhista; é uma crise sistêmica que ameaça a própria sustentabilidade do cuidado no Brasil. As profissões essenciais – enfermeiros, assistentes sociais, técnicos, cuidadores e toda equipe multidisciplinar- estão se esvaziando, em um êxodo silencioso que trará consequências graves para todos nós, especialmente para os mais vulneráveis.
As causas são conhecidas:
- Jornadas exaustivas, que levam ao limite físico e mental.
- Inexistente valorização salarial, que comunica que um trabalho vital não merece remuneração digna.
- Escassa formação contínua, que desestimula quem busca excelência.
- Reconhecimento social quase nulo, que faz do cuidar uma profissão invisível.
Sim, salários e condições pesam, mas o que fere mais fundo é a falta de valorização. Muitos profissionais deixam suas áreas não apenas em busca de melhores salários, mas por um profundo desgaste emocional e moral. Sentem que sua dedicação é invisível, que seu trabalho é tratado como descartável.
Essa crise não atinge apenas quem cuida; seu impacto mais cruel recai sobre aqueles que mais dependem de cuidado e atenção: as pessoas idosas residentes em ILPI.
Vidas Invisíveis: A Urgência nas ILPI
Em algumas ILPI a negligência sistêmica se manifesta de forma mais aguda, evidenciando desafios históricos do setor. É nesses espaços que a crise do cuidado se manifesta de forma mais aguda e dolorosa. São milhares de pessoas idosas vivendo em isolamento, muitas vezes sem voz nas decisões sobre sua própria vida.
Mas é fundamental reforçar: nem todas as ILPI seguem pelo caminho do descuido. Existem gestores que, mesmo diante de obstáculos diários, conduzem suas instituições com ética, transparência e dedicação. São exemplos que merecem ser reconhecidos, pois provam que é possível cuidar com qualidade, dignidade e humanidade.
As falhas, por outro lado, não são responsabilidade de um único ator. Políticas públicas frágeis, recursos insuficientes, dificuldades de fiscalização e a falta de integração entre setores compõem o cenário. Por isso, é urgente afirmar: gestores, fiscalização, profissionais do cuidar, famílias e políticas públicas não podem caminhar em lados opostos. Só uma cooperação intersetorial verdadeira permitirá avanços concretos.
Nossa luta não é apenas por mais recursos ou melhores infraestruturas, embora estes sejam urgentes. É pela dignidade fundamental: o direito de cada pessoa idosa ser vista, ouvida e respeitada, assim como cada profissional que cuida.
Nossa Trincheira: Gratidão, Luta e Respeito
Eu, Aline Salla, sou a diretora desta revista, e esta luta é pessoal. Durante a pandemia, senti um medo profundo (como muitos de vocês): medo de morrer, medo de perder as pessoas que amo, medo pelas pessoas idosas com quem construí laços. Esse medo, transformado em propósito, me levou a doar mais de dois anos da minha vida de forma voluntária para lutar pelo bem coletivo, unindo pessoas de todo nosso país, combatendo a desinformação e buscando as melhores práticas. Foram dias incansáveis, muitas vezes sem dormir, movida apenas pela certeza de que vidas estavam em jogo.
Minha motivação nunca foi o holofote pessoal. O que me move é a gratidão e o amor às minhas raízes, e a todos vocês que lutam diariamente na trincheira do cuidado: humanos cuidando de humanos. Se chegamos até aqui, foi porque muitos braços se ancoraram, e o nosso estava lá também.
Posso parecer frágil evidenciando meus sentimentos. Pensei até em não publicar este desabafo, pois muitos irão julgar. Mas são justamente meus sentimentos que me fazem agir e acreditar que, pela arte da comunicação, podemos conectar uns aos outros. São eles que me fazem crer em uma cultura do cuidado que valoriza quem cuida e quem é cuidado.
A Revista Cuidar, apesar de nova no Brasil, já conquistou uma rede crescente de leitores que valorizam nossos conteúdos por serem livres de conflitos de interesse, embasados cientificamente e, sobretudo, por oferecerem a oportunidade de uns aprenderem com os outros. Mas, como nem tudo são louros, sabemos que também incomodamos. Afinal, nem todos estão dispostos a remar no mesmo barco pela qualidade do cuidado, alguns preferem apenas os palcos.
Mas esses obstáculos não nos silenciam. Pelo contrário: fortalecem nossa determinação e transformam este desabafo em demandas concretas e inadiáveis. E, se também incomodamos, é sinal de que estamos cumprindo nosso papel.
Nós seguimos e seguiremos firmes, porque o respeito à nossa história e à história de tantas pessoas que, todos os dias, cuidam nos bastidores com profissionalismo e humanidade é a nossa exigência central e inegociável.
Nosso Desabafo: Não Desistiremos do Cuidado
A indignação que nos move se transforma em demandas irrenunciáveis:
- Não queremos mais uma sociedade que aplaude na crise e esquece na calmaria.
- Não aceitaremos que mãos que deveriam estar estendidas se transformem em dedos acusadores.
- Não desistiremos de afirmar que cuidado é um ato essencial, humano, social e que precisa ser sustentado por reconhecimento, valorização, cooperação intersetorial e políticas permanentes.
Essas não são apenas palavras: são a declaração do nosso compromisso.
A Escolha é Nossa
O Brasil está em uma “encruzilhada”. De um lado, o caminho da indiferença, que permite “deixar o cuidado que acontece nas ILPI cair no vazio novamente”. Do outro, o caminho da ação coletiva, que nos convida a acolher este chamado e construir uma sociedade que verdadeiramente valoriza quem cuida e quem é cuidado.
Nós já fizemos a nossa escolha.
E você, de que lado dessa história quer estar?
Convite à Ação
Este desabafo não é um ponto final, é um convite. Se você acredita que o cuidado tem valor, ajude a espalhar esta mensagem:
- Compartilhe este texto para que mais pessoas reflitam.
- Valorize os profissionais do cuidar em sua comunidade.
- Apoie gestores e instituições que fazem o certo.
- Pressione para que políticas públicas saiam do papel, com embasamento científico, ouvindo profissionais que atuam com ética e transparência, e evidenciando claramente, por meio de indicadores, o bem-estar de quem cuida e de quem é cuidado.
A mudança começa com pequenas ações, mas só se concretiza quando caminhamos juntos.
Afinal, A vida de cada PESSOA IDOSA e cada PESSOA que TRABALHA nas ILPI – IMPORTA.
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A vida de cada pessoa idosa e de cada pessoa que cuida nas ILPI – importa.
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Emocionante e dolorosamente real. O texto traduz o que muitos sentem, mas poucos têm coragem de dizer em voz alta.
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Este desabafo toca fundo porque mostra a verdade nua e crua do cuidado em nosso país. A pandemia revelou feridas que ainda sangram e que não podem ser ignoradas (Na minha ILPI teve 3 vítimas, 2 idosos e uma funcionária, e ainda dói). É impossível ler sem se reconhecer na dor e na esperança de transformação. Que este chamado ecoe e mobilize cada um de nós a valorizar quem cuida e quem é cuidado. O pior do pesadelo passou, mas a gente ainda sente.
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Toca ao coração sua dedicação a essa causa. Tenha certeza que mostrar sua fragilidade te torna humana! Por isso seu empenho amoroso no cuidado dos idosos. Parabéns!!











Emocionante e dolorosamente real. O texto traduz o que muitos sentem, mas poucos têm coragem de dizer em voz alta.
Este desabafo toca fundo porque mostra a verdade nua e crua do cuidado em nosso país. A pandemia revelou feridas que ainda sangram e que não podem ser ignoradas (Na minha ILPI teve 3 vítimas, 2 idosos e uma funcionária, e ainda dói). É impossível ler sem se reconhecer na dor e na esperança de transformação. Que este chamado ecoe e mobilize cada um de nós a valorizar quem cuida e quem é cuidado. O pior do pesadelo passou, mas a gente ainda sente.
Toca ao coração sua dedicação a essa causa. Tenha certeza que mostrar sua fragilidade te torna humana! Por isso seu empenho amoroso no cuidado dos idosos. Parabéns!!