O que fazer se uma pessoa idosa não quer comer? Cinzia Siviero, da Agape AVO,nos oferece sugestões simples e aplicáveis, que ajudam tanto familiares quanto profissionais de Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI) a lidar com essa situação frequente. O foco está no modo como entramos em relação e devolvemos compreensão à pessoa com demência – seja no ambiente familiar ou no cuidado profissional.
Traduzido e adaptado por: Aline Salla
Texto: Revista Cura – IT.
A pessoa idosa não quer comer: uma dificuldade comum
Nos encontros que conduzo com familiares e também nas capacitações e supervisões com equipes de ILPI, o tema das dificuldades ligadas à alimentação é recorrente. Lembro que, certa vez, ao perguntar a um grupo o que costumavam fazer quando um morador não queria comer, um jovem cuidador respondeu:
“Eu não perco a paciência, sento ali e, com calma, tento fazê-lo entender que não pode continuar assim, porque está emagrecendo. O médico também disse isso.
Eu proponho várias opções para ver se algo o atrai e faço de tudo para que consiga engolir alguma coisa”.
Admirável a postura desse jovem.
No entanto, em uma ILPI, onde o tempo é dividido entre muitos idosos, as rotinas são mais rígidas e a equipe precisa conciliar atenção individual com demandas coletivas, encontrar o equilíbrio entre insistência e acolhimento pode ser ainda mais desafiador. É sobre isso que vamos refletir.
Tentarei, portanto, listar de forma geral os conteúdos que surgiram no grupo naquela ocasião.
Acolher as emoções da pessoa
Se algum dia um morador está agitado, dizer “fique tranquilo” infelizmente não ajuda muito.
O mesmo vale para quando observamos que a recusa alimentar vem acompanhada de confusão, irritabilidade ou tristeza – respostas comuns em pessoas com demência.
Se percebemos que um residente está particularmente confuso e diz algo que não corresponde à realidade, corrigi-lo não o apoia – pelo contrário, enfatiza o erro.
Da mesma forma, insistir com a pessoa idosa que não quer comer, mesmo com toda a delicadeza que possamos ter, não alivia.
O método Validation® nos ensina, ao contrário, a validar as emoções do indivíduo, ou seja, dar valor ao que ele sente.
Assumir uma postura validante significa acolher, no plano emocional, aquilo que a pessoa sente.
“Vejo que você está preocupado” pode ser uma boa forma de iniciar a comunicação com uma pessoa agitada, por exemplo.
Pedir que explique melhor será um aprofundamento adequado com um idoso confuso.
E dizer ao nosso residente que entendemos que deve ser difícil comer quando não se tem fome fará com que ele se sinta mais acolhido.
Pensar como se fôssemos nós
As pessoas idosas desorientadas convivem o dia todo com a negação do que sentem, com nossos:
“não”, “não foi assim”, “não faça”, “não vá”;
e também com nossos:
“você precisa”, “volte aqui”, “cuidado”, “sente-se”.
Em instituições, isso pode se somar às ordens operacionais do dia a dia – “hora do banho”, “hora do almoço”, “hora de deitar” – que, embora necessárias para a organização, podem aumentar a sensação de perda de autonomia.
Ressalto que não somos culpados de nada, mas dar o primeiro passo em direção a uma mudança, mesmo que difícil, acredito que seja nossa verdadeira responsabilidade.
Para nos colocarmos no lugar das pessoas idosas que convivem com a demência, uma boa ideia é pensar no que também acontece conosco.
Pensemos em quando não temos fome e alguém insiste para que comamos. Em geral, o que sentimos primeiro é ansiedade, e assim não conseguimos engolir nem um pedaço.
Reconhecer a situação pelo que ela é, legitimando-a, acalma o ambiente e, além disso, pode nos dar mais chances de obter, depois, um pequeno esforço da pessoa.
Teremos mais probabilidade de fazê-la comer algo se ouvirmos aquele “não estou com vontade”.
Em um contexto de ILPI, isso pode significar respeitar o momento e tentar novamente mais tarde, oferecendo pequenas porções ou adaptando a apresentação do alimento.
Fazer guerra nunca traz vantagens e no ambiente institucionsial, pode até comprometer o vínculo de confiança com a equipe.
Esclarecer com paciência nossa compreensão emocional
Pensar no que realmente nos ajuda nos faz encontrar o caminho para ajudar os outros.
Mergulhar com coragem na emoção, no entanto, não é fácil – dá medo.
Muitas vezes, dentro de nós, uma voz misteriosa diz que é perigoso, que não se sabe onde isso vai parar; mas, na realidade, nada de grave acontece – pelo contrário.
Por outro lado, o profissional de ILPI geralmente não tem dificuldade em sentir a emoção do residente.
Encontra naturalmente dentro de si a capacidade empática, movido pelo afeto, pelo compromisso com o cuidado e pelo conhecimento da história daquela pessoa.
O que muda, no contexto institucional, é que essa empatia precisa ser conciliada com prazos, rotinas e demandas de outros moradores – o que pode gerar pressão e frustração.
Mas enfrenta outras dificuldades, como conviver com sentimentos contraditórios, com antigas dinâmicas familiares trazidas pelo residente, com o cansaço, com o fato de se sentir sobrecarregado.
Esses fatores podem bloquear o fluxo de energia e impedir o contato emocional.
Minha trajetória pessoal, além da profissional, me fez descobrir outro aspecto a considerar, nada simples: expressar ao outro a nossa compreensão emocional da maneira certa não é fácil.
A pessoa idosa que convive com a demência nem sempre consegue perceber nossa compreensão profunda, nem decodificar os sinais que nosso corpo transmite, por isso é necessário não apenas nos colocarmos no lugar dele, ler, ver e sentir o que ele sente, mas também aprender a dar um retorno claro sobre o que sentimos.
Nas ILPI, isso pode significar usar frases simples, manter contato visual e uma postura corporal aberta, além de demonstrar paciência mesmo em momentos de agitação – lembrando que a clareza e a consistência da comunicação são tão importantes quanto o gesto de cuidado em si.
Dar-se tempo para aceitar o que é
Tudo isso, porém, começa com a aceitação do que aconteceu.
Se não conseguimos conviver dentro de nós, de forma pacífica, com a nossa “nova” mãe, pai ou irmão – ou seja, se não conseguimos viver de maneira criativa a nova situação, colocando em prática nossas capacidades de adaptação, não será possível sermos empáticos.
Para o profissional de ILPI, a aceitação significa também reconhecer que cada residente terá dias bons e dias difíceis – e que nem sempre será possível mudar imediatamente um comportamento ou reverter uma recusa alimentar.
Essa aceitação é sempre o passo mais difícil para um cuidador, seja familiar ou institucional. Não é algo que se faz de uma vez – é um processo.
Não é apenas a aceitação da doença, mas também algo que podemos tentar aplicar a uma situação específica, diferente daquela do dia anterior e da que virá, dizia uma voluntária da associação Al Confine de Milão.
É a aceitação do que acontece em um momento específico, no dia a dia, do que a pessoa faz; “e, sobretudo”, acrescentava um familiar, “da nossa impotência”.
Nas ILPI, essa consciência da “impotência” pode ser compartilhada e acolhida em equipe, para que nenhum profissional carregue sozinho o peso de uma situação desafiadora. Reuniões breves, trocas entre colegas e apoio institucional ajudam a manter o cuidado centrado na pessoa, sem que a sobrecarga emocional impeça a empatia.
Quando conseguimos dar esse grande passo amoroso em direção a nós mesmos, então somos capazes de tentar a relação empática e, finalmente, descobrir que ainda há muito a fazer.

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