Editorial: Janeiro, o mês de firmar os passos
Um novo ano se inicia e, com ele, renovamos nosso compromisso com a excelência no cuidar. Na rotina vibrante e desafiadora da ILPI, muitas vezes voltamos nosso olhar para os grandes indicadores de saúde, mas é nos detalhes — lá embaixo, no contato com o chão — que reside a base da autonomia e da dignidade da pessoa idosa.
Abrimos nossa primeira edição do ano com um tema fundamental e, por vezes, negligenciado sob as altas temperaturas do verão: a saúde dos pés. Cuidar dos pés é garantir que a pessoa idosa continue habitando seu próprio movimento.
Convidamos você, profissional e gestor, a descobrir conosco como unir o olhar atento e a técnica para transformar o cuidado podológico em um ritual de bem-estar e segurança.
Cuidando dos pés da pessoa idosa no verão: prevenção, conforto e qualidade de vida
Os pés são a base do corpo: sustentam todo o nosso peso e nos permitem mover no espaço. Em todas as fases da vida, cuidar deles é essencial, mas para a pessoa idosa — especialmente durante o intenso verão brasileiro — esse cuidado torna-se uma prioridade de saúde e bem-estar.
Como profissionais, precisamos estar atentos: o calor e a umidade podem transformar o conforto em dor, e a dor em alterações de comportamento que a pessoa idosa nem sempre consegue verbalizar. Neste artigo, oferecemos orientações práticas para proporcionar bem-estar aos pés das pessoas idosas durante o período estival.
A Escolha Certa: Calçados que Protegem e Respiram
Para evitar complicações cutâneas e proporcionar conforto, o calçado ideal deve seguir critérios rigorosos:
Leveza e Ventilação:
Priorize calçados leves e ventilados, com tramas que permitam a circulação de ar, sem comprometer a estabilidade. O suor excessivo, além de causar odor desagradável devido à proliferação de bactérias, facilita o surgimento de micoses, dermatites e maceração da pele, além de aumentar a predisposição à formação de bolhas e vesículas.
Boa Fixação e Solado Seguro:
Sempre que possível, opte por calçados que possuam boa fixação no calcanhar e solado antiderrapante. Mesmo no verão, a segurança na marcha deve ser priorizada, especialmente em ambientes institucionais, para reduzir o risco de quedas.
Espaço Adequado para os Dedos:
Calçados apertados são grandes vilões das unhas encravadas, especialmente nos hálux (dedões). Garanta que não haja compressão lateral ou frontal excessiva, respeitando o formato natural dos pés.
Palmilhas Absorventes:
Dê preferência a calçados com palmilhas em material absorvente, que auxiliem no controle da umidade e reduzam a proliferação bacteriana e fúngica.
Inspeção Interna Diária:
Antes de calçar a pessoa idosa, verifique cuidadosamente o interior dos calçados, observando a presença de pedrinhas, detritos, costuras soltas ou áreas desgastadas que possam causar lesões sem serem percebidas.
Higiene, Revezamento e Secagem:
Na ILPI, é fundamental estabelecer uma rotina de higienização das palmilhas. Sempre que possível, os calçados podem ser lavados periodicamente, inclusive em máquina, seguindo as orientações do fabricante. Após a lavagem, assegure-se de que estejam completamente secos, preferencialmente em local ventilado ou ao sol. Evite o uso do mesmo calçado por dias consecutivos, permitindo a secagem total do material entre os usos.
Respeito às Preferências Individuais:
Sempre que possível, respeite os gostos, hábitos e preferências da pessoa idosa na escolha do calçado e nos cuidados diários. Essa atitude fortalece a autonomia, a identidade e o bem-estar emocional.
Compreendendo a Dor Silenciosa: O Olhar Clínico no Cuidado Diário
Para pessoas idosas que vivem com demência, a dor nos pés pode se manifestar por meio dos Sintomas Psicológicos e Comportamentais da Demência (SPCD), como agitação, agressividade, recusa em caminhar, inquietação ou alterações súbitas de humor.
Fatores como calçados inadequados, umidade excessiva, lesões cutâneas ou alterações ungueais podem contribuir para o surgimento de dor. Muitas dessas pessoas apresentam dificuldade de expressar verbalmente o desconforto, exigindo da equipe um olhar clínico atento, sensível e interpretativo.
Por isso, é essencial que a equipe estabeleça rotinas sistematizadas de inspeção e cuidado diário com os pés.
Rotina Diária de Cuidados com os Pés
Corte de Unhas:
As unhas devem ser cortadas de forma reta, garantindo que os cantos fiquem visíveis e não penetrem na pele, prevenindo unhas encravadas.
Atenção: O corte de unhas em pessoas idosas com diabetes ou problemas circulatórios deve ser realizado por profissional capacitado (podólogo ou enfermeiro), devido ao risco de complicações graves.
Secagem Interdigital Cuidadosa:
Após o banho ou pedilúvio, seque cuidadosamente entre os dedos. Muitas pessoas idosas não apreciam essa prática; por isso, posicione-se de frente para ela, com postura acolhedora, sorriso tranquilo e explicações simples sobre o que será feito. Utilize uma ponta da toalha para inserir delicadamente entre os dedos, sem afastá-los excessivamente, realizando movimentos suaves.
⚠️ Este é um erro frequente: não se deve aplicar creme hidratante entre os dedos, pois isso favorece maceração e proliferação de fungos.
Manejo de Calosidades:
Na presença de pele espessada, especialmente no calcanhar, pode-se utilizar delicadamente a pedra-pomes, preferencialmente após o banho ou pedilúvio, quando a pele está amolecida. Nunca realize remoções agressivas ou profundas.
Tratamento de Fissuras:
Ao identificar rachaduras, não remova a pele ao redor. A conduta correta é a aplicação regular de creme hidratante específico para os pés, favorecendo a elasticidade da pele.
Hidratação Inteligente:
Aplique cremes hidratantes no calcanhar e dorso dos pés, evitando rigorosamente a região entre os dedos, para prevenir micoses e maceração cutânea.
Uso de Meias Adequadas:
Quando necessário, prefira meias confeccionadas em fibras naturais, como algodão, que permitem a transpiração e facilitam a evaporação do suor.
Ritual de Afeto: O Pedilúvio Terapêutico
Nas noites quentes de verão, oferecer um pedilúvio terapêutico antes de dormir pode ser uma prática extremamente benéfica. Além da higiene, esse momento promove relaxamento, vínculo, sensação de cuidado e acolhimento.
Como realizar:
Preparação da água:
Utilize água morna, com temperatura entre 37°C e 40°C. Evite água fria, geralmente mal tolerada pela pessoa idosa.
Ingredientes opcionais (uso moderado):
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Uma colher de sopa de bicarbonato de sódio
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Algumas gotas de óleo essencial de lavanda (efeito relaxante)
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Óleo essencial de limão, em baixa concentração, como coadjuvante na higiene (evitar exposição solar posterior)
Momento de conexão:
Durante o pedilúvio, o cuidador deve permanecer próximo, sentado à frente da pessoa idosa, oferecendo presença, escuta atenta e explicações tranquilizadoras sobre cada etapa do cuidado. Esse momento favorece o vínculo, o relaxamento e o bem-estar emocional.
Nota de Segurança:
Sempre teste a temperatura da água com o antebraço antes de imergir os pés da pessoa idosa. Pessoas com diabetes podem apresentar neuropatia periférica, com redução da sensibilidade térmica, estando mais suscetíveis a queimaduras sem perceber.
Guia de Inspeção Diária: Sinais de Alerta
Ao realizar o cuidado diário, o profissional deve atuar como um observador atento. Fique alerta aos seguintes sinais nos pés das pessoas idosas:
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Alterações de Cor e Temperatura
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Vermelhidão e calor local: Podem indicar processos inflamatórios, pontos de pressão excessiva do calçado ou o início de uma infecção (celulite).
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Palidez ou cianose (tons arroxeados): Sinais de alerta para alterações circulatórias graves e falta de oxigenação (isquemia).
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Integridade da Pele e Umidade
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Fissuras e bolhas: Geralmente causadas por atrito, ressecamento severo ou uso de calçados inadequados.
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Maceração interdigital (pele branca e úmida entre os dedos): Indica excesso de umidade retida, ambiente ideal para fungos.
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Micoses persistentes: Manchas ou descamações que necessitam de tratamento medicamentoso específico.
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Estrutura e Volume
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Edema com “Sinal de Cacifo”: Aquele inchaço que retém a marca do dedo após a pressão. Pode indicar alterações cardíacas, renais ou insuficiência venosa.
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Calosidades extensas: Sinal de que o pé está sofrendo pressão inadequada em pontos específicos.
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Deformidades (Joanetes ou dedos em garra): Indicam a necessidade urgente de avaliação para calçados adaptados ou terapêuticos.
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Saúde das Unhas e Odores
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Alterações Ungueais: Unhas espessadas, encravadas ou com mudança súbita de cor precisam de avaliação técnica (Enfermagem ou Podologia).
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Odor fétido ou exsudato (pus): Sinais claros de possível infecção bacteriana que exigem intervenção imediata.
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Fluxo de Encaminhamento: Quando e Para Quem
1. Acionar a Enfermagem Imediatamente
O cuidador ou profissional deve comunicar imediatamente a enfermagem ou o Responsável Técnico diante de:
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Presença de exsudato, secreção ou odor fétido
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Qualquer lesão em pessoas idosas com diabetes
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Alteração súbita da marcha ou claudicação
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Sinais locais ou sistêmicos de infecção (febre, calor, rubor, edema)
- Dor intensa associada a alteração comportamental ou funcional
2. Avaliação Podológica (mediante indicação da enfermagem)
A avaliação por podólogo é indicada quando houver:
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Unhas encravadas, espessadas ou deformadas
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Calosidades extensas ou recorrentes
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Micoses persistentes ou de difícil controle
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Deformidades estruturais dos pés
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Necessidade de corte de unhas em residentes com diabetes, doença vascular ou outras comorbidades
⚠️ O atendimento podológico deve ocorrer sem presença de lesões infectadas ativas, salvo se autorizado e articulado com a enfermagem.
3. Encaminhamento para Avaliação Médica
A avaliação médica é indicada quando houver:
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Alterações circulatórias importantes (palidez, cianose, edema persistente)
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Feridas que não cicatrizam após 7 a 10 dias de cuidados supervisionados
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Suspeita de pé diabético ou úlceras
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Dor intensa refratária às medidas iniciais
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Infecções sem resposta ao tratamento instituído pela enfermagem
Considerações Finais
Prevenir é o caminho mais curto para a qualidade de vida dentro da ILPI. Uma rotina de inspeção que leva apenas alguns minutos pode ser o diferencial entre a mobilidade preservada e uma internação hospitalar por infecção. Ao adotarmos essas práticas simples de higiene e observação, estamos protegendo a saúde física e fortalecendo o vínculo de confiança entre o cuidado na ILPI e a pessoa idosa. Cuidar da base é, literalmente, garantir que o envelhecer seja vivido com passos seguros e respeito absoluto à individualidade de cada um.
Não perca nenhum passo da excelência no cuidar.” Este é apenas o início de um ano repleto de conteúdos técnicos e humanizados.
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