Nota Editorial

Há pessoas que não apenas pensam o mundo — elas o sentem. E é exatamente assim que o Professor Alexandre Kalache nos chega: não como um nome de prestígio numa capa de revista, mas como uma presença que nos move, que nos incomoda no melhor sentido, que nos convoca a ser melhores do que somos.

Receber este artigo é, para a Revista Cuidar, um momento de profunda gratidão. Não a gratidão protocolar de quem agradece por um conteúdo recebido — mas aquela gratidão que aperta o peito, que faz parar e respirar fundo, porque se sabe que o que está diante dos olhos é verdadeiro.

O Professor Kalache tem dedicado sua vida a uma causa que muitos ainda não souberam ver com a seriedade que ela merece: a de que envelhecer é um direito humano, e que a forma como uma sociedade trata seus velhos revela, sem máscaras, quem ela verdadeiramente é. Ele cunhou palavras, percorreu continentes, formou gerações — e nunca perdeu a indignação necessária. Nunca se acomodou. Nunca silenciou.

E é essa mesma coragem que ele nos entrega, neste artigo anti-idadista que chegará às mãos de centenas de profissionais das ILPI brasileiras — homens e mulheres que, muitas vezes sozinhos, em turnos longos e estruturas frágeis, escolhem todos os dias não desistir de quem está sob seus cuidados.

Para eles, este texto pode ser um espelho. Um reencontro com o motivo pelo qual escolheram esta profissão. Uma lembrança de que cuidar com dignidade é um ato político, ético e profundamente humano.

Mas há algo que gostaríamos que o Professor soubesse: sua obra já vive em nós. Nas perguntas que fazemos antes de publicar. No cuidado com que escolhemos cada palavra. Na recusa em tratar o envelhecimento como tema menor. Ele tem plantado sementes que não param de brotar — muitos artigos da Revista Cuidar são, também, um desses frutos.

Que este manifesto não seja apenas lido. Que ele seja sentido. Que atravesse a armadura do cotidiano e acenda, em cada leitor, a centelha do anti-idadismo — essa revolução silenciosa e urgente que não se faz com heroísmo solitário, mas com gestos consistentes, com escuta verdadeira, com a decisão diária de ver o outro em sua inteireza.

Esperançamos — com Paulo Freire e com o Professor Kalache — que o futuro que desejamos comece aqui. Agora. Em cada mão que segurar esta revista.

Com admiração que não cabe em palavras, carinho que atravessa gerações e gratidão que é, ela mesma, um ato de cuidado —

Aline Salla Diretora Editorial — Revista Cuidar

Boa leitura para vocês!

Por: Professor Alexandre Kalache Médico-gerontólogo, Presidente do ILC Brazil e ex-diretor de Envelhecimento da OMS.

A Revolução da Longevidade e a Pedra de Toque da Civilização

A maior conquista social do século XX não foi a chegada do homem à Lua ou a revolução digital, mas o milagre da extensão da vida. Em 1900, a maior expectativa de vida ao nascer no mundo era de meros 46 anos, na Alemanha. Cem anos depois, nenhum país, por mais pobre, apresentava um índice tão baixo. No Brasil, essa revolução foi súbita e avassaladora, não só pelo aumento na expectativa de vida, mas também por conta da queda abrupta das taxas de natalidade. Em outras palavras, um número crescente de pessoas vivendo mais e mais e menos bebês nascendo. Estamos com taxas totais de fecundidade (número médio de filhos que uma mulher espera ter ao de sua vida reprodutiva) abaixo dos níveis de reposição desde o ano 2000. No entanto, essa conquista esbarra hoje em um empasse: enquanto celebramos o fato de vivermos mais, assistimos a níveis crescentes de abandono, abuso e negligência de pessoas idosas.

As Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI) não são apenas elos assistenciais; elas são a pedra de toque da nossa decência civilizatória. O modo como tratamos quem reside nelas revela quem somos como sociedade. É urgente compreender que o envelhecimento não nos transforma em “pessoas diferentes” ou em versões desbotadas de nós mesmos; somos a versão mais depurada, a essência nítida de quem sempre fomos. Um residente de ILPI não é um “paciente” passivo ou um corpo à espera do fim; é um cidadão cujos direitos fundamentais precisam ser permanentemente protegidos. Quando uma instituição funciona como um depósito de seres humanos, ela falhou em sua missão ética. E o combustível dessa falha tem nome: idadismo.

Desmascarando o Idadismo: A Opressão dos “Cinco Is”

O termo idadismo (ageism), cunhado em 1969 pelo meu saudoso mentor Robert Butler, descreve um preconceito tão insidioso quanto o racismo e o sexismo. Como fundamentado no Pequeno Manual Anti-idadista do Coletivo Velhices Cidadãs, o idadismo é uma força estrutural que aniquila a dignidade. Para combatê-lo nas ILPI, precisamos dissecar os “Cinco Is” que sustentam essa opressão:

  • Ideologia: A crença supremacista de que a juventude confere maior valor humano. Nas ILPI, isso pode se manifestar quando a equipe técnica assume que seus desejos, ritmos e conveniências são soberanos aos dos residentes, decidindo por eles, raramente os consultando.
  • Institucionalização: A operacionalização do preconceito pelo sistema. É a invisibilidade institucional: horários rígidos e arbitrários para banho ou refeições que ignoram a história de vida do indivíduo e a ausência de espaços privados que garantam o mínimo de intimidade.
  • Interpessoal: Os gestos cotidianos que diminuem o outro. É o silenciamento da identidade : “sua voz não é de interesse, não a levaremos em conta, o papel o ‘velho’ é ouvir calado, passivamente”. Um exemplo, ignorar a orientação sexual de um residente, forçando-o a “voltar para o armário”. A incoerência é absurda pois trata-se da mesma geração que lutou para se tornar mais visível e passa a ser condenada a ‘voltar para o armário’.
  • Internalização: O desfecho mais perverso. É quando a pessoa idosa, bombardeada por mensagens negativas, acaba aceitando que realmente vale menos que os demais e desiste de si mesma, incorporando a inutilidade que lhe foi impingida.
  • Inequidade: A “asfixia social” brasileira. Envelhecer em uma ILPI é uma experiência radicalmente distinta para uma mulher negra, pobre, de baixo nível educacional, vinda da periferia possivelmente vítima de violência e abuso ao longo de sua vida do que para um indivíduo de classe alta (embora nem esse escapa do idadismo, mesmo que ‘atenuado’).

À soma dos vários ismos, potencializando os cinco ‘is’ acima descritos, chamamos de interseccionalidade, que cobre de suas vítimas um sofrimento devastador.

Do Cotidiano à Violência Simbólica: O Perigo do “DNA”

O combate às opressões exige, como ensina Djamila Ribeiro, “duvidar do que parece natural”. No dia a dia de algumas ILPI, o idadismo se disfarça de benevolência através da infantilização. Chamar adultos com décadas de conquistas profissionais e pessoais de “vozinho” ou “vovó” é uma violência simbólica que apaga a trajetória do sujeito. Tratar a pessoa idosa como alguém que “voltou a ser criança” erradica seu passado, destruindo sua autonomia e autoestima.

Ainda mais grave é a negligência clínica mascarada por piadas. Quando um profissional atribui a dor de um residente ao “DNA” — Data de Nascimento Antiga —, ele não está sendo espirituoso; ele está cometendo uma falha ética grave. Esse tipo de atitude leva ao subtratamento da dor e ao descarte de sintomas tratáveis como se fossem “coisas da idade”. É um massacre silencioso do espírito e uma falência da técnica assistencial.

O Custo do Preconceito: Um Problema de US$ 63 Bilhões

O idadismo não decorre apenas da falta de empatia e de educação; é peçonhento sob o ponto de vista da saúde pública. O Relatório Mundial sobre o Idadismo da OMS (2021) é cristalino: a percepção negativa sobre a velhice encurta vidas. O custo econômico é astronômico — apenas nos Estados Unidos, o impacto anual do idadismo na saúde chega a US$ 63 bilhões.

As consequências reais nas instituições incluem maior isolamento, depressão profunda e um declínio cognitivo acelerado. Um profissional idadista é, por definição, um profissional tecnicamente inferior. Ao carregar estereótipos, ele perde a capacidade de enxergar a heterogeneidade clínica e humana, oferecendo um cuidado comprometido e despersonificado. O preconceito mata: evidências científicas confirmam que o idadismo leva à morte prematura. A neutralidade diante disso não é uma opção; é uma conivência inaceitável.

A Prática da Resistência: O Compromisso Anti-idadista

Não basta não ser idadista; é preciso ser anti-idadista. Inspirado pela máxima de Angela Davis, o anti-idadismo na ILPI exige um ativismo consciente e intransigente. Proponho quatro diretrizes para a transformação:

  1. Autoanálise Profunda: Reconheça o idadismo internalizado em você. Identifique os “botões preconceituosos” que a sociedade inseriu em sua mente e esforce-se para extirpá-los.
  2. Intervenção Imediata: Não silencie diante de piadas ou infantilizações feitas por colegas. Interrompa o ciclo. Eduque a família do residente. Denuncie a desumanização onde quer que ela ocorra.
  3. Protagonismo Radical: Aplique o lema “Nada sobre nós, sem nós”. O residente deve ser o centro absoluto de seu plano de cuidados. Sua voz, seus desejos e sua autonomia são sagrados.
  4. Educação Permanente: A técnica sem humanidade é cega. Busque conhecimento gerontológico para entender que a velhice é múltipla.

Lembre-se: ser anti-idadista é um ato de autopreservação. É uma solidariedade profunda com o seu próprio “eu” do futuro. O cuidado que você defende hoje é o cuidado que você receberá amanhã.

Um Legado de Cuidado e Cidadania

O envelhecimento é um direito social e uma celebração da vida. Na capa do Pequeno Manual Anti-idadista, as linhas curvas simbolizam o que há de mais belo em nossa existência: trajetórias múltiplas, caminhos únicos, movimento constante e fluidez. Nenhuma dessas curvas deve ser apagada pelo cinza do preconceito.

Convoco os profissionais das ILPI brasileiras a liderarem uma revolução do cuidado. Cuidar com dignidade é um ataque direto à desumanidade do idadismo. Transformem suas instituições em espaços de cidadania plena, onde a experiência é honrada e o ser humano é respeitado até o seu último suspiro. O futuro que desejamos começa agora, no respeito absoluto por quem já percorreu o caminho que todos esperamos trilhar com dignidade preservada.



Nota: Para fortalecer sua prática e se armar contra o preconceito, recomendo a leitura integral do “Pequeno Manual Anti-idadista” (Coletivo Velhices Cidadãs). Ele é uma ferramenta essencial para todo profissional que deseja ser um agente de transformação e dignidade.

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