Alta rotatividade de equipe. Quedas que se repetem. Um residente descrito como “agressivo” na hora do banho. Se você atua em uma Instituição de Longa Permanência para Idosos (ILPI), essas frases provavelmente já passaram pela sua rotina. Foram ditas por um colega, por você mesmo, ou registradas em algum relatório de plantão.
E, quase sempre, vem junto a resposta mais confortável: “é assim mesmo, sempre foi assim.”
Essa frase, mais do que qualquer falta de recursos, é o principal obstáculo à qualidade do cuidado. O cérebro humano é programado para preferir o que já conhece àquilo que seria mais vantajoso. A psicologia chama esse mecanismo de viés do status quo. Ele se disfarça de bom senso, mas na prática costuma ser apenas medo de mudar uma rotina.
A queixa não é ruído. É informação. O primeiro passo para transformar uma instituição é parar de temer o problema e começar a escutá-lo.
Toda queixa esconde um projeto
Dificuldades cotidianas, como “não temos tempo”, a queda que se repete ou a equipe desmotivada, não são fatalidades. São matéria-prima. Onde existe uma dificuldade recorrente, existe também um desejo ainda não formulado: a visão de como as coisas poderiam ser diferentes. Unir os dois, o incômodo real e a direção desejada, é o que transforma reclamação em plano de ação.
Um exercício simples ajuda a separar o que merece energia do que só produz desgaste: distinguir condições (fatos que hoje não mudamos, como o quadro de pessoal disponível) de problemas reais (situações que podem ser resolvidas com processo e liderança). Só o segundo grupo merece a atenção diária da equipe.
O custo invisível de manter o “sempre foi assim”
Manter uma contenção porque “sempre foi assim”, por exemplo, é um conflito entre o que a equipe faz e o que ela acredita ser certo. Desse conflito nasce o que a literatura de enfermagem chama de sofrimento moral. Esse sofrimento se propaga: uma equipe exausta transmite tensão, e essa tensão é sentida pelos residentes como mais agitação e mais resistência.
Por isso, o cuidado só se transforma de verdade quando a instituição para de se contentar com o “bom”, com padrões cumpridos e fiscalizações aprovadas, e passa a se perguntar: isso ainda é a melhor forma de cuidar?
Três círculos para não se perder na frustração
Uma forma prática de manter o foco da equipe é dividir cada situação difícil em três círculos.
No centro está o que posso controlar: meu método, minha forma de conduzir a manhã de higiene, a revisão de uma rotina. É aqui que deveria estar a maior parte do esforço.
Ao redor, o que posso influenciar: a conversa com a família, a sensibilização sobre diretivas antecipadas de vontade, o diálogo com a comunidade.
Por fim, o que não está ao meu alcance: legislação, orçamento público, contexto econômico. Insistir nesse último círculo só produz frustração e tira energia de onde ela realmente faria diferença.
Da etiqueta à pergunta
O mesmo princípio muda a forma como interpretamos comportamentos difíceis. “Residente agressivo no banho” é uma etiqueta, não um fato. Em um caso real, a equipe percebeu que a resistência de uma residente surgia sempre no mesmo instante: quando as pernas precisavam ser abertas para a higiene íntima. Ao investigar sua história de vida, encontraram um passado de abuso. A solução não veio de mais contenção. Veio de menos invasão: o banho passou a ser feito com chuveirinho, sem contato direto. A “agressividade” desapareceu, porque o comportamento nunca tinha sido desobediência: era a forma que ela ainda tinha de se comunicar.
O convite desta semana
Excelência, em uma ILPI, raramente depende de mais recursos. Depende de método, curiosidade e coragem para abandonar o “sempre foi assim”. Escolha uma única queixa recorrente da sua equipe esta semana. Pergunte-se: isso está no meu círculo de controle? Se a resposta for sim, dê um primeiro passo pequeno, mensurável e visível em uma semana, em direção ao projeto que essa queixa está pedindo, há tempos, para nascer.
No fim, cada ajuste de método é também um ato de cuidado: devolve sentido a quem trabalha e dignidade a quem é cuidado.
Aperte o play!
Esperamos por você e toda sua equipe no MPC Brasil nos dia 01 e 02 de outubro de 2026.
Com muitas informações que você poderá aplicar na segunda-feira.
Nos vemos lá.
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