Artigo atualizado, publicado em abril de 2025.
“O idoso que não reconhece sua própria casa” é o tema deste artigo elaborado pela psicóloga Sara Sabbadin, que se dirige aqui a quem cuida de um ente querido em casa, abordando um problema comum no dia a dia.
Se as dicas práticas são voltadas principalmente para os cuidadores, a reflexão mais ampla sobre a pessoa pode ser útil também para aqueles que trabalham diariamente com pessoas que convivem com a demência.
“Esta não é minha casa…”
Pode acontecer a qualquer momento do dia, mas, na maioria das vezes, ocorre ao entardecer, quando a luz diminui e o cérebro já está cansado e sobrecarregado do dia, criando um espaço e um momento particularmente propícios para confusão e agitação.
E assim acontece que o pai, que até pouco antes estava sentado tranquilamente em sua poltrona, começa a ficar inquieto, levanta-se e procura algo que nem ele sabe dizer o que é, pega o chapéu e busca a porta para sair…
“Mas para onde você vai?”
“Vou para minha casa…”
“Mas que casa?! Olha, você já está em casa!”
“Me deixa ir para casa!!”
“Mas, pai! Esta é sua casa! Foi você quem a construiu! Você fez esses móveis com suas próprias mãos! Olha, aqui está a foto com a mamãe no dia do casamento de vocês…”
“Esta não é minha casa!! QUERO IR PARA MINHA CASA!”
“Fique calmo e o acompanhe”, dizem nos cursos sobre como lidar com os distúrbios de comportamento. “Não o contradiga, pois isso só piora a situação.” Verdade… mas que difícil! Não é nada simples manter a calma e a clareza quando, diante de você, está um pai idoso que não reconhece a casa que ele mesmo construiu e da qual tanto se orgulhava.
E, no entanto, quanto mais tentamos fazê-lo se lembrar, mais ele, incrivelmente, parece não enxergar o óbvio diante dos seus olhos, indiferente às fotos da família e até mesmo à poltrona moldada pelo seu próprio corpo.
Mas este é exatamente o ponto. Naquele momento, ele realmente não a reconhece. E, para encontrar respostas e reações que ajudem a conter sua angústia (e a nossa), precisamos partir dessa compreensão.
Como é possível, depois de uma vida inteira vivida naquele lugar?
As doenças neurodegenerativas corroem lentamente a capacidade do cérebro de compreender o mundo. Normalmente, vivemos em ambientes cheios de estímulos, sons, objetos e pessoas que conseguimos identificar e reconhecer sem dificuldade. Para uma pessoa com demência, as coisas são diferentes.
O mundo ao redor torna-se progressivamente mais confuso, os elementos que antes faziam um ambiente ser familiar já não são mais reconhecidos, as fotos da família mostram rostos que ela não consegue mais identificar. E tudo isso gera medo; um medo que cresce com a confusão, num ciclo vicioso alimentado pela sensação de perda de controle da situação e, muitas vezes, pelas pessoas ao seu redor que tentam convencê-la de que está errada.
E então surge a vontade de ir embora, de fugir para um lugar seguro.
Ou seja, para sua própria casa.
Talvez a casa da infância, que muitas vezes representa uma lembrança que a doença leva mais tempo para apagar.
Afinal, colocando-se no lugar da pessoa, se de repente você se encontrasse em um lugar desconhecido, sem saber como chegou ali, mas todos ao seu redor dissessem que você está enganado e que aquele é o seu lar, como se sentiria? Aceitaria a explicação sem questionar?
O que fazer diante de um idoso que não reconhece sua própria casa?
Vamos por partes.
- Antes de tudo… mantenha a calma!
A regra de ouro para aplicar em qualquer caso, com qualquer pessoa, em qualquer momento difícil que o Alzheimer nos impõe: respire fundo e mantenha a calma.
Nos momentos de agitação, quem convive com a demência tem grande dificuldade para compreender palavras, mas percebe claramente as emoções. Lembre-se: sua agitação amplifica a dele.
2. Pergunte-se o que está acontecendo e aja de acordo
Os distúrbios da linguagem são um sintoma comum da demência e muitas vezes impedem a pessoa de encontrar as palavras certas para expressar seus sentimentos e dizer o que está incomodando. “Quero ir para casa” pode, na verdade, significar: “Não estou confortável, estou com medo, estou confuso, me ajude.”
A casa é o lugar para onde todos queremos voltar quando estamos cansados, quando já tivemos o suficiente, quando enfrentamos dificuldades. Representa um espaço psicológico seguro. Isso também vale para quem sofre de demência.
Pergunte-se se a pessoa está com fome, sede, dor ou desconforto em alguma parte do corpo, se está com calor ou frio, se há muito barulho no ambiente (lembre-se: quanto mais confusão ao redor, mais confusão dentro!). Tente entender se algo a está incomodando e, se possível, resolva.
- Aceite que, naquele momento, ele não reconhece o ambiente e não tente convencê-lo do contrário
Trata-se de um delírio, uma convicção errada sobre a realidade que um discurso racional, por mais calmo e paciente que seja, não poderá mudar. Deixe a lógica de lado e entre no mundo dele, acolhendo sua angústia.
“Você tem razão, já estamos aqui há um tempo… deve estar cansado…”
“Tudo bem, pai, eu te ajudo…”
4. Responda à necessidade de “ir”
Tente dar uma resposta concreta. Não apenas um vago “sim, sim, depois vamos”, mas uma resposta real, que o faça se sentir compreendido.
As pessoas com demência percebem quando não as levamos a sério e, normalmente, isso as deixa ainda mais agitadas.
“Assim que o Bruno chegar com o carro, vamos…”
“Assim que seus filhos voltarem do trabalho, eles te levam para casa…”
“Vamos demorar um pouco para chegar, quer comer algo antes da viagem?”
“Vamos tomar um chá e depois vamos…”
O objetivo deve ser fazê-lo se sentir compreendido. Nada acalma mais a angústia do que sentir que alguém percebeu sua dificuldade e está disposto a ajudar.
E, se isso não for suficiente, acompanhe-o. Coloquem o casaco, deem uma volta no quarteirão e voltem. Na maioria das vezes, incrivelmente, ver a casa de outro ângulo ajuda no reconhecimento. Mas, acima de tudo, é o fato de ter atendido à necessidade de “ir” que alivia a angústia e reduz a confusão.
De fato, qualquer coisa que possa tranquilizá-lo sem minimizar sua preocupação é válida. Você está mentindo, mas não está enganando. É uma outra verdade, dita para o bem dele.
Perdoe-se e termine o dia com serenidade
E quando você perceber que a angústia diminuiu um pouco, então pode tentar mudar de assunto e direcionar a atenção para algo que lhe interesse. Em momentos de agitação como esse, um objetivo realista é ajudá-lo a conter a angústia o suficiente para que ele consiga direcionar a atenção para outra coisa.
Naturalmente, nenhuma estratégia ou explicação é válida sempre e para todos.
E o que funciona hoje pode não funcionar amanhã.
O objetivo mais realista que podemos estabelecer ao cuidar de uma pessoa com uma doença neurodegenerativa é chegar ao fim do dia o mais serenos possível (tanto nós quanto ela!).
Vale a pena sempre nos perdoarmos se, em algum momento, as coisas não saírem como deveriam, se, apesar das tentativas, não conseguirmos lidar com a situação. Vai dar certo na próxima vez. Há dias em que é mais difícil manter a calma, em que estamos mais cansados, mais desanimados ou mais revoltados com essa doença tão difícil de entender e aceitar. E, nesses dias, é ainda mais desafiador chegar ao fim do dia sem enlouquecer junto com nosso ente querido.
Pois bem, é justamente nesses dias que é importante lembrar que não é o colapso do momento que define a qualidade do cuidado. O que realmente tem valor, o que faz a diferença na vida de quem estamos assistindo, é o empenho que dedicamos a cada dia.
Escrito por: Sara Sabbadin
Ex-cuidadora e psicóloga especializada em aconselhamento psicológico; Ele faz parte da equipe de contadores de histórias da Revista CURA.
Traduzido e adaptado para o portugês por: Aline Salla
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Orientações precisas para quem cuida de pessoas com demência que por muitas vezes, não sabem como agir em certas situações.












Orientações precisas para quem cuida de pessoas com demência que por muitas vezes, não sabem como agir em certas situações.