- Silêncio ou respostas ambíguas sobre a demência: assim não ajudamos as crianças
- Compartilhamento empático e emocional: uma chave que as crianças possuem (mais do que os adultos)
- Qual é o papel do adulto ao abordar o tema da demência com uma criança?
- O amor que todos compreendem, o amor que ninguém esquece
Quando as famílias frequentam Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI – popularmente conhecidas como “Casa de Repouso”), as visitas dos netos aos avós ganham uma dimensão especial: além de reforçarem os laços afetivos, podem despertar nos pequenos dúvidas e preocupações ao perceberem comportamentos diferentes – como esquecimentos ou repetições de histórias. Este artigo irá ajudar os adultos a:
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Explicar de forma simples e sensível o que é a demência e por que ela acontece;
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Oferecer exemplos práticos para que a criança reconheça e compreenda as emoções do avô ou da avó;
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Sugerir atividades e gestos de carinho que reforcem o vínculo, mesmo diante das dificuldades de comunicação;
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Ensinar estratégias de paciência e respeito, mostrando à criança que o amor transcende o esquecimento.
Assim, cada visita à ILPI pode se tornar uma oportunidade de aprendizado mútuo, onde crianças e idosos compartilham cuidado, afeto e empatia.
Autor: Silvia Pellegrini
Texto: Revista CURA.
Tradução: Aline Salla – Revista CUIDAR.
Quando a demência atinge um avô, uma avó ou parente idoso(a), os adultos precisam lidar com novas necessidades e demandas, e muitas vezes não há tempo ou não se sabe como explicar a demência às crianças de forma clara.
Quando uma doença demencial surge na família, o equilíbrio de todo o sistema vacila: os adultos se veem diante de novas necessidades e desafios, e muitas vezes demonstram dúvidas sobre como abordar esse tema com clareza diante das crianças.
O medo mais comum é o de assustá-las, e às vezes se acredita que o melhor seja esconder a verdade sobre a doença: pensa-se que a demência causa medo e teme-se que as crianças possam se afastar da “nova” figura dos avós, que mudou em muitos aspectos.
Silêncio ou respostas ambíguas sobre a demência: assim não ajudamos as crianças
Na verdade, as crianças – que têm muito ativa a capacidade de captar e interpretar sinais de comunicação não verbal – já perceberam, de forma empática, o que está acontecendo; se os adultos se calam ou respondem de forma evasiva às suas perguntas, os pequenos tendem a preencher o silêncio ou a ambiguidade com fantasias ou sentimentos de culpa, que podem intensificar suas preocupações ou fazê-los sentir-se abandonados e traídos pelas pessoas mais próximas. É fácil entender a intenção de proteção por trás desses comportamentos dos adultos. No entanto, isso pode ser uma fonte de sofrimento e pode se tornar a causa – e não a solução- de uma reação de afastamento. Esconder o que está acontecendo ou minimizar as reações ou comportamentos das pessoas idosas são atitudes que refletem o medo e a dificuldade de aceitar a situação por parte dos adultos, resultado de estigmas que ainda cercam essa doença.
Compartilhamento empático e emocional: uma chave que as crianças possuem (mais do que os adultos)
Nem todas as crianças reagem da mesma forma, e isso também depende da idade: algumas podem vivenciar a doença dos avós com extrema naturalidade, enquanto outras podem se mostrar muito tristes, aflitas, frustradas ou impacientes – ou, ao contrário, podem até manifestar uma atitude de indiferença.
No entanto, as crianças têm uma capacidade de resiliência muito alta e podem se adaptar a situações inusitadas (como ajudar uma pessoa idosa que esquece o nome dos objetos que está usando) e continuar mantendo uma relação positiva com seus avós. As crianças, de fato, diferentemente dos adultos, são menos fixadas no aspecto cognitivo da vida e das ações, e mais voltadas para o compartilhamento empático e emocional.
Além disso, elas percebem a frustração e o constrangimento da pessoa idosa não apenas de maneira mais evidente, mas também sem usar o critério de julgamento que os adultos frequentemente aplicam – às vezes sem estar plenamente conscientes disso – a quem manifesta comportamentos incomuns. As crianças também tendem a compartilhar o problema com a pessoa em dificuldade e a buscar, junto com ela – e não em seu lugar – uma solução “positiva”.
Qual é o papel do adulto ao abordar o tema da demência com uma criança?
Qual é, então, o papel do adulto (geralmente o pai ou a mãe) ao apresentar e ajudar a enfrentar a demência dos avós? Cabe ao adulto apresentar a demência como um tema sério, mostrar e identificar juntos as suas “manifestações” e, ao mesmo tempo, buscar explicações possíveis; além disso, encontrar – com a ajuda da fantasia e da sensibilidade das crianças – possíveis “remédios”.
Por exemplo, ao perceber que o avô tende a repetir as mesmas perguntas, é útil explicar à criança que as pessoas com demência muitas vezes se lembram de eventos que aconteceram há muitos anos, mas não conseguem lembrar algo que aconteceu ontem ou mesmo alguns minutos antes. Captando a emoção por trás desse momento de dificuldade (raiva, vergonha, frustração, medo), a criança pode ser guiada a reconhecer uma emoção semelhante nela mesma (“Como você se sente quando não lembra de algo?”) e ser convidada a ter paciência e responder com calma, mesmo que já tenha respondido antes. Reconhecer, também, que manifestações de raiva não são dirigidas a ela, mas são fruto de uma reação ao que está acontecendo, pode ajudar a criança a não se sentir atingida pela atitude do idoso.
O amor que todos compreendem, o amor que ninguém esquece
As crianças frequentemente perguntam se a doença demencial é contagiosa e, nesse caso, é útil tranquilizá-las de que não é. Da mesma forma, é importante ser honesto ao reconhecer que não existem medicamentos capazes de fazer com que tudo volte ao normal (o avô ou a avó não poderão se curar), mas que cercá-los de cuidados e sentimentos positivos pode ser uma boa maneira de enfrentar as dificuldades. A coisa mais importante que uma criança pode fazer – e isso deve ser dito de forma direta e com exemplos práticos – é fazer com que a pessoa idosa se sinta amada(o) e mostrar que gosta da sua companhia e de fazer coisas juntos. O pai ou a mãe deve tranquilizar a criança de que, juntos, poderão encontrar as maneiras mais adequadas de demonstrar amor ao avô ou à avó – maneiras que podem mudar com o tempo, podendo incluir apenas ficar em silêncio, dar um abraço ou um sorriso. A criança deve ser ajudada a entender que, à medida que a doença avança, a vovó ou o vovô podem esquecer muitas coisas, mas sempre se lembrarão – de um modo especial – de quanto amavam seu neto ou sua neta.
Você já precisou explicar a demência para uma criança? Como foi essa experiência durante uma visita à ILPI ou em casa?
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Excelente artigo.Esclarecedor ,dando as orientações corretas de como falar sobre a doença que tanto afeta as pessoas idosas , mundialmente e atualmente.
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Belíssimo texto! Com sensibilidade, sinceridade e sabedoria é possível transmitir afetos, valores e histórias de vida que jamais se apagarão da mente infantil. Parabéns!!
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Excelente artigo. Lancei um livro ilustrado pela editora Itapuca “Porta-retratos – há coisas que o tempo não apaga” – que conta a história de um menino que, ao visitar os avós, quer descobrir porque seu avô não conversa mais com ele. Abordo o tema pelo olhar da criança, da sua tristeza e do estranhamento da situação. Aos poucos ele aceita a situação da demência de seu avô, e descobre que ele tem momentos felizes quando sua avó lhe mostra as fotos antigas da família. É um curativo poético.
Penso que este tipo de literatura pode ser uma das estratégias para levar a compreensão para a criança que sofre a dor de perder um familiar para o mundo do esquecimento. @denisevianna.arteterapia











Excelente artigo.Esclarecedor ,dando as orientações corretas de como falar sobre a doença que tanto afeta as pessoas idosas , mundialmente e atualmente.
Belíssimo texto! Com sensibilidade, sinceridade e sabedoria é possível transmitir afetos, valores e histórias de vida que jamais se apagarão da mente infantil. Parabéns!!
Excelente artigo. Lancei um livro ilustrado pela editora Itapuca “Porta-retratos – há coisas que o tempo não apaga” – que conta a história de um menino que, ao visitar os avós, quer descobrir porque seu avô não conversa mais com ele. Abordo o tema pelo olhar da criança, da sua tristeza e do estranhamento da situação. Aos poucos ele aceita a situação da demência de seu avô, e descobre que ele tem momentos felizes quando sua avó lhe mostra as fotos antigas da família. É um curativo poético.
Penso que este tipo de literatura pode ser uma das estratégias para levar a compreensão para a criança que sofre a dor de perder um familiar para o mundo do esquecimento. @denisevianna.arteterapia