Nota Editorial:

Em diversos artigos já publicados pelos parceiros da Revista Cuidar, refletimos sobre a importância de qualificar o cuidado às pessoas idosas nas ILPI, alertando para os riscos de uma visão meramente mercantilizada do envelhecimento. A continuidade desse debate se faz agora de forma sensível e concreta, com a contribuição da Casa dos Pobres São Francisco de Assis, de Caruaru (PE), instituição que conquistou o primeiro lugar no concurso Gentileza que Protege – Arte e Cultura nas ILPI.

No artigo a seguir, a equipe da Casa compartilha sua prática de comunicação contínua, respeitosa e afetiva com os familiares, mostrando que cuidado de qualidade vai muito além de infraestrutura ou de financiamento. Trata-se de uma postura ética, de um compromisso com a vida e com o vínculo – desde a porta de entrada da instituição até os pequenos gestos cotidianos.

É importante lembrar: não é a natureza jurídica da ILPI que define a qualidade do cuidado, mas sim a formação da equipe, a escuta ativa, a sensibilidade no acolhimento e o envolvimento com a história de cada residente. O cuidado verdadeiramente humanizado não se mede pelo requinte das instalações, mas pela presença atenta, pelo preparo especializado da equipe e pela construção de vínculos genuínos.

Que este artigo inspire mais instituições a praticarem uma comunicação que cuida – e mais famílias a se manterem próximas, presentes e parceiras no cuidado de seus entes queridos.

Boa leitura.

Entre Palavras e Afetos: Construindo Vínculos nas Residências Coletivas

A comunicação é um elemento estruturante no cuidado à pessoa idosa. Especialmente no contexto das Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI), comunicar-se de forma clara, respeitosa e contínua não apenas fortalece vínculos afetivos, como também contribui para a construção de um cuidado mais ético, afetivo e humanizado.

Associação Cuidadosa

Na Casa dos Pobres São Francisco de Assis, localizada em Caruaru  PE, essa premissa orienta toda a interação com os familiares dos residentes. O processo de morar em uma residencia coletiva para pessoas idosas não deve representar a ruptura dos laços afetivos, mas sim uma reorganização desses vínculos sob uma nova perspectiva.

Segundo Minayo (2006), o envelhecimento deve ser compreendido como um fenômeno social, histórico e relacional, em que a pessoa idosa continua sendo parte ativa de uma rede de significados. Por isso, a comunicação entre a instituição e a família é essencial para garantir continuidade nos laços de pertencimento, identidade e afeto.

Comunicação como Prática de Cuidado e Humanização

Na prática institucional, comunicar é cuidar. Esse cuidado se expressa tanto nos gestos cotidianos quanto nas estratégias formais de diálogo. De acordo com Boff (2004), o cuidado é uma atitude permanente de responsabilidade, zelo e envolvimento afetivo com o outro valores que se traduzem também nas palavras, escuta e presença.

Por isso, desde o acolhimento do residente, a Casa dos Pobres São Francisco de Assis orienta a família sobre o funcionamento da Instituição, explica rotinas e normas, e sobretudo estabelece um canal aberto de escuta mútua. Essa abordagem reduz o impacto emocional transição para a nova moradia e fortalece a corresponsabilidade no processo de adaptação.

Como afirma Cortella (2012), a comunicação é uma ponte entre pessoas e culturas. É por meio dela que construímos significados comuns e criamos vínculos de confiança. Além disso, em suas reflexões sobre empatia, o autor destaca que algo essencial quando se trata do cuidado de pessoas idosas em contextos institucionais.

A Família como Parceira no Cuidado

A presença da família no cotidiano institucional tem impacto direto na saúde emocional dos residentes. Segundo Néri (2001), o suporte afetivo da família influencia positivamente a autoestima, o humor e o senso de identidade da pessoa idosa, diminuindo a sensação de abandono e solidão.

A Casa dos Pobres estimula a participação dos familiares por meio de visitas, videochamadas, reuniões periódicas e eventos comemorativos. Além disso, adota práticas de escuta ativa nos contatos telefônicos, bilhetes, recados e momentos de convivência.

Um relato emblemático é o de um filho que, mesmo com a rotina de trabalho, passa seus dias de folga com a mãe na Instituição. Ele relata que, ao longo do tempo, criou com a equipe técnica uma relação de amizade familiar, baseada na escuta, no respeito mútuo e na orientação contínua. Essa relação mostra o poder da comunicação humanizada na construção de vínculos de confiança.

Conforme alerta Minayo (2006), o rompimento ou enfraquecimento dos vínculos familiares pode gerar sentimentos de exclusão e desamparo. Por isso, manter canais de comunicação ativos entre ILPI e família é também uma forma de cuidado ético e social.

Comunicação, Diálogo e Educação Afetiva

A comunicação, quando praticada com intencionalidade e escuta, aproxima e educa. Neste ponto, a contribuição de Paulo Freire (1996) é fundamental: para ele, o diálogo é a base da construção de relações éticas, libertadoras e humanas. Como afirma o educador:

“Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo”.

Na Instituição, o diálogo com os familiares promove um aprendizado mútuo. A equipe técnica compreende melhor o contexto do residente e sua trajetória de vida, enquanto os familiares passam a entender a rotina institucional, os desafios do envelhecimento e os cuidados necessários. Esse intercâmbio constante gera empatia, reduz conflitos e previne mal-entendidos.

Impactos Positivos da Comunicação Institucional

Uma política de comunicação ativa, empática e estruturada proporciona benefícios amplos:

  • Fortalece os vínculos afetivos entre idoso, família e instituição;
  • Reduz conflitos e dúvidas por meio de orientações claras e humanizadas;
  • Promove bem-estar emocional ao residente, que se sente pertencente e lembrado;
  • Facilita a atuação da equipe técnica, com maior contextualização e apoio familiar;
  • Gera cultura de empatia, escuta e respeito entre todos os envolvidos.

Como destaca Boff (2004), o cuidado só é pleno quando incorpora a afetividade, a ética e a responsabilidade – dimensões que a comunicação bem conduzida é capaz de fortalecer diariamente.

Considerações Finais

 Na Casa dos Pobres São Francisco de Assis, comunicar é mais do que informar  é um gesto de cuidado, respeito e compromisso com a dignidade da pessoa idosa. A comunicação contínua com os familiares reforça vínculos, amplia a rede de apoio e promove um ambiente institucional mais humano e sensível.

Ao incorporar as reflexões de Cortella, Minayo, Néri, Boff e Freire, entendemos que a comunicação é simultaneamente instrumento, atitude e valor. Investir em uma escuta ativa, respeitosa e empática é garantir que a pessoa idosa não seja apenas cuidado, mas também compreendido, respeitado e acompanhado por aqueles que fazem parte de sua história.

Artigos assinados por profissionais que são referências nacionais e internacionais, parceiros da ©Revista Cuidar.

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