Artigo inspirado na fala de Letizia Espanoli. 

Com a voz embargada pela emoção, durante uma reunião, uma profissional trouxe esse desabafo:

“Sim. Vocês também precisam de cuidado. E muitas vezes nos esquecemos disso.”

Ela estava exausta. Mas não fisicamente. Aquela exaustão era mais funda – vinha de uma sequência de turnos, de um acúmulo de demandas, de um silêncio pesado que se forma quando o esforço passa despercebido.

No mesmo dia, uma filha escreveu à equipe:

“Como posso criar uma relação verdadeira com quem cuida da minha mãe?”

Essa pergunta não é apenas dela. É de todos nós. Porque cuidar não é só técnica. É relação. E quem cuida também precisa ser cuidado.

O sistema cobra produtividade. O relógio corre. As contas chegam. Mas ninguém pergunta: “Como você vive enquanto trabalha? E como você trabalha enquanto tenta viver?

Associação Cuidadosa

O que acontece quando esquecemos quem está por trás do cuidado?

Entrar numa Instituição de Longa Permanência para Idosos (ILPI) e ver o quarto limpo, a pessoa idosa bem alimentada, medicada, vestida – tudo isso é resultado de um trabalho invisível. Um trabalho que exige corpo, qualificação técnica, mente e coração. Mas esse trabalho, quase sempre, vem sem aplausos.

Em muitas ILPI, as equipes de cuidado enfrentam longas jornadas, baixos salários, falta de formação contínua e uma sobrecarga emocional silenciosa.
Dados revelam que menos de 11% das instituições cumprem a proporção ideal de cuidadores por idoso, como determinado pela Anvisa (RDC 502/2021). O resultado? Um cuidador que precisa atender além de sua capacidade, colocando em risco a própria saúde física e emocional.

Em uma pesquisa conduzida em Minas Gerais, profissionais relataram sintomas frequentes de ansiedade, estresse e solidão. Em outra, feita no Rio Grande do Norte, embora muitos tivessem anos de experiência, poucos sentiam-se verdadeiramente preparados ou reconhecidos para o desafio diário que enfrentam.

E o mais grave: a maioria sente que não é vista. Que está ali apenas como um número no quadro de funcionários.

Quantas vezes reuniões ou treinamentos acontecem sem a presença da equipe que está no cuidado direto?

E se mudássemos a lente?

Imagine por um instante o seguinte cenário:

O plantão da noite está terminando. Silvia, cuidadora há oito anos, caminha devagar pelos corredores. Troca o curativo do seu João, ajuda dona Lourdes a levantar da cama e prepara o café da dona Marina com o cuidado de quem conhece cada detalhe das preferências dela.

Na saída, a filha da dona Marina se aproxima. Não para reclamar de um lençol fora do lugar. Mas para dizer:

“Silvia, obrigada. Sei que minha mãe se sente segura com você aqui.”

Essa frase tão simples é uma ponte. Uma forma de enxergar Silvia não como “a moça do plantão”, mas como alguém que cuida, que sente, que vive. Alguém que também precisa ser reconhecida.

A humanização começa pela equipe

Falamos tanto em “cuidado centrado na pessoa idosa”. Mas esquecemos que o cuidado só será realmente humanizado se também valorizarmos quem cuida.

Os profissionais que cuidam não são acessórios do cuidado. Eles são o coração da engrenagem. São quem escutam desabafos, limpam lágrimas, alimentam com paciência, colocam a mão no ombro e dizem “vai ficar tudo bem” mesmo quando o próprio dia está desabando.

Humanizar o cuidado é, também:

  • Chamar pelo nome.
    Cada profissional tem uma história. E se sentir visto é o primeiro passo para se sentir respeitado.
  • Perguntar como está. De verdade.
    Mostrar interesse genuíno. Porque quem cuida de pessoas também precisa ser acolhido.
  • Reconhecer os pequenos gestos.
    Um elogio espontâneo vale mais do que se imagina.
  • Falar para construir, não para cobrar.
    O tom com que se fala define o clima do cuidado.
  • Oferecer escuta ativa e suporte emocional.
    Supervisores, coordenadores e diretores precisam criar espaços seguros de escuta, formação contínua para toda equipe, descanso – e também acolhimento emocional para lidar com perdas, como a morte de um residente querido.

E os gestores?

A cultura de cuidado precisa começar de cima. Instituições que priorizam o bem-estar da equipe têm menor rotatividade, menos absenteísmo e maior adesão aos protocolos de qualidade.

Mais do que isso: formam ambientes onde o cuidado flui com leveza, empatia e excelência. Porque quando a equipe se sente valorizada, ela cuida com mais presença, mais vínculo, mais propósito.

Gestores precisam olhar além do organograma. Por trás do crachá está uma pessoa, algumas com filhos, boletos, sonhos e dores. Que, todos os dias, escolhe cuidar de alguém mesmo quando deixa de cuidar de si.

Ética do cuidado

O cuidado não é um ato robotizado. É um encontro humano. E como todo encontro, ele só se sustenta quando há reciprocidade.

À rede sociofamiliar: construam pontes, não muros. Reconheçam quem está todos os dias com seu pai, sua mãe, seu avô, sua avó, amigos, etc;

Aos gestores: liderem com empatia. Criem políticas que sustentem a equipe com descanso, formação, salário justo, escuta ativa.

Aos profissionais do cuidado: da limpeza à cozinha, dos cuidadores à enfermagem, da assistência social à psicologia, da nutrição aos educadores etc.: saibam que sua presença transforma vidas. Vocês são o elo entre o acolhimento e o afeto, entre o cuidado técnico e o cuidado humanizado.

E a todos nós: que possamos lembrar, todos os dias, que quem cuida também é uma pessoa.
E pessoa precisa ser vista, ouvida, respeitada.

Porque a qualidade do cuidado começa onde termina o esquecimento: no reconhecimento de que, antes de tudo, somos todos pessoas.

💬 E você, gestor(a): já tem cultivado um ambiente onde quem cuida também é cuidado?
Se sim, compartilhe nos comentários o que tem feito para apoiar sua equipe.
Seu exemplo pode inspirar outras instituições a transformarem o cuidado desde dentro. 💛

About the Author: Aline Salla

Fundadora e Diretora editorial da Revista Cuidar. Coordenadora de Comunicação e membro fundadora da Frente nacional de fortalecimento às ILPI, MBA em Comunicação e Marketing, Gestão de Tecnologia da Informação, Certificado de aluna especial, em: Análise de Dados científicos em gerontologia - USP Each, Inovação na Longevidade: Gerontecnologia - UNIFESP, Curso avançado em Gerontologia - SBGG, Cursos complementares na Itália na área de Digital marketing, comunicação e envelhecimento. Pesquisadora e professora universitária convidada - USP e Ensino Albert Einstein. Palestrante em eventos brasileiros e italianos abordando assuntos relacionados às ILPI, Gerontologia e Gerontecnologia. Membro da SIGG - Sociedade Italiana de Geriatria e Gerontologia.

2 Comments

  1. Willian Garighan 03/08/2025 at 12:12 - Reply

    Bom dia!
    O artigo aborda uma temática fundamental e nos convida a refletir sobre a importância de valorizarmos também o cuidado com os profissionais que atuam nas instituições, reconhecendo que o bem-estar da equipe está diretamente relacionado à qualidade do cuidado ofertado às pessoas idosas.
    Como assistente social, senti-me inspirado a explorar esse tema internamente, incentivando propostas e iniciativas que fortaleçam o ambiente de trabalho, promovam a integração da equipe e estimulem relações mais colaborativas.
    Sabemos que todo espaço institucional está em constante construção, e investir em ações que promovam o respeito mútuo, o diálogo e o reconhecimento profissional contribui significativamente para um clima organizacional mais saudável e eficaz.

  2. Rosane Sangaleti da Silva 03/08/2025 at 12:13 - Reply

    Infelizmente é a realidade de muitos gestores!
    Parabéns pelo artigo que destaca a importância da escuta ativa e do apoio as cuidadores. É fundamental reconhecer que os cuidadores são os pilares central do cuidado, se sentirem valorizados e acolhidos é essencial para garantir a qualidade. A falta de escuta ativa e de apoio ao cuidadores refere diretamente ao cuidado.
    Ao priorizar a escuta ativa e o apoio ao cuidadores as ILPIs melhoram a qualidade do cuidado e cria um ambiente acolhedor e produtivo.
    É fundamental que os gestores sejam conscientes das seguintes questões:
    * Quais são as principais dificuldades que os cuidadores enfrentando no cuidado?
    * Como podemos ajudar os cuidadores a lidar com essas dificuldades?
    * Com que frequência faço treinamentos e reuniões com esses cuidadores?
    * Quais são as necessidades desses cuidadores?
    * Como podemos reconhecer e valorizar o trabalho dos cuidadores?
    Ao abordar essas questões as ILPIs podem crias um ambiente acolhedor, apoiador e eficaz aos cuidadores e consequentemente cuidado mais humanizado e qualificado aos hóspedes desta ILPI .
    Tudo depende de mudar o olhar da gestão para esses cuidadores !
    CUIDADORES SÃO PESSOAS QUE MERECEM SER CUIDADAS ! !!

    Rosane Sangaleti @ Residencial Jardim do Lírio

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2 Comments

  1. Willian Garighan 03/08/2025 at 12:12 - Reply

    Bom dia!
    O artigo aborda uma temática fundamental e nos convida a refletir sobre a importância de valorizarmos também o cuidado com os profissionais que atuam nas instituições, reconhecendo que o bem-estar da equipe está diretamente relacionado à qualidade do cuidado ofertado às pessoas idosas.
    Como assistente social, senti-me inspirado a explorar esse tema internamente, incentivando propostas e iniciativas que fortaleçam o ambiente de trabalho, promovam a integração da equipe e estimulem relações mais colaborativas.
    Sabemos que todo espaço institucional está em constante construção, e investir em ações que promovam o respeito mútuo, o diálogo e o reconhecimento profissional contribui significativamente para um clima organizacional mais saudável e eficaz.

  2. Rosane Sangaleti da Silva 03/08/2025 at 12:13 - Reply

    Infelizmente é a realidade de muitos gestores!
    Parabéns pelo artigo que destaca a importância da escuta ativa e do apoio as cuidadores. É fundamental reconhecer que os cuidadores são os pilares central do cuidado, se sentirem valorizados e acolhidos é essencial para garantir a qualidade. A falta de escuta ativa e de apoio ao cuidadores refere diretamente ao cuidado.
    Ao priorizar a escuta ativa e o apoio ao cuidadores as ILPIs melhoram a qualidade do cuidado e cria um ambiente acolhedor e produtivo.
    É fundamental que os gestores sejam conscientes das seguintes questões:
    * Quais são as principais dificuldades que os cuidadores enfrentando no cuidado?
    * Como podemos ajudar os cuidadores a lidar com essas dificuldades?
    * Com que frequência faço treinamentos e reuniões com esses cuidadores?
    * Quais são as necessidades desses cuidadores?
    * Como podemos reconhecer e valorizar o trabalho dos cuidadores?
    Ao abordar essas questões as ILPIs podem crias um ambiente acolhedor, apoiador e eficaz aos cuidadores e consequentemente cuidado mais humanizado e qualificado aos hóspedes desta ILPI .
    Tudo depende de mudar o olhar da gestão para esses cuidadores !
    CUIDADORES SÃO PESSOAS QUE MERECEM SER CUIDADAS ! !!

    Rosane Sangaleti @ Residencial Jardim do Lírio

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