O que aprendemos com o professor Alexandre Kalache

Alexandre Kalache, referência global em envelhecimento ativo, nos lembra que envelhecer com dignidade não nasce ao chegar aos 60 anos. É fruto de hábitos, escolhas e políticas que construímos ao longo da vida. E mais: esse mesmo princípio vale para quem dedica seu dia a dia a cuidar de outras pessoas. Se queremos um futuro de autonomia e qualidade para os residentes das moradias coletivas (Instituições de Longa Permanência para pessoas Idosas – ILPI, popularmente conhecido como “casa de repouso, asilo”), precisamos começar agora a cuidar de quem cuida, precisamos nos cuidar.

A pressão do dia a dia

Imagine uma rotina em que cada minuto conta, em que cada cuidado pode fazer a diferença entre conforto e dor, entre segurança e risco. Acordar cedo, enfrentar longos trajetos em transportes públicos muitas vezes exaustivos, administrar medicação, ajudar na higiene, oferecer suporte emocional, alimentar, transferir, registrar centenas de detalhes… e ainda encontrar forças para um sorriso genuíno. Nesse vai e vem de demandas, não raro os profissionais das ILPI esquecem de beber água, de alongar o corpo, de alinhar a postura, de perceber como está a própria respiração.

A cada avaliação de risco ignorada, a cada gesto de autoabandono, consumimos um pouco de nossa própria capacidade de estar presentes. Exaustão física, tensão emocional, sentimento de culpa e medo de falhar se tornam companheiros silenciosos. E quando o corpo trava ou a mente se fecha, o residente percebe. A chama do cuidado vacila.

Autocuidado é segurança

Cuidar de si não é ato de vaidade. É estratégia de segurança, ética profissional e preservação de vidas. Estudos em ergonomia e saúde ocupacional mostram que incluir pausas regulares e respeitar limites físicos pode reduzir significativamente o risco de afastamentos por lesões.
Do mesmo modo, práticas de escuta coletiva e apoio psicológico estão associadas a maior resiliência e empatia, embora os percentuais variem conforme o tipo e a intensidade da intervenção.

Esses dados não são estatística fria. São vidas preservadas, vínculos reforçados, sorrisos trocados com mais tranquilidade.

Quatro pilares para tornar o autocuidado rotina

A jornada do autocuidado se sustenta em quatro eixos que se reforçam mutuamente:

1. Saúde física e postural
Pausas curtas a cada duas horas. Alongamentos simples para aliviar a tensão acumulada. Treinamentos em ergonomia que previnem lesões. Esses gestos demoram segundos, mas salvam carreiras.

Associação Cuidadosa

2. Saúde emocional
Rodas de conversa quinzenais oferecem espaço seguro para ouvir e ser ouvido. Supervisão psicológica contínua evita que pequenos estresses se tornem grandes crises.

3. Aprendizado permanente
Oficinas de comunicação compassiva, cursos de gestão de estresse e mindfulness aumentam nossa capacidade de resposta diante de situações desafiadoras. Cada nova técnica é um aliado na prevenção do burnout.

4. Ambientes de recuperação
Salas de descanso acolhedoras, com leituras leves e música suave. Escalas que garantem intervalos para refeição e desconexão. Esse espaço de respiro não é privilégio de poucos. É direito de toda equipe.

O papel decisivo da liderança

Uma ILPI amiga da sua equipe não depende apenas de boas intenções. Exige políticas claras, práticas consistentes e comprometimento da gestão. É preciso revisar escalas para evitar jornadas exaustivas. É preciso garantir pausas efetivas e espaços confortáveis para recuperação. É preciso reconhecer e celebrar conquistas diárias. Um simples “obrigado(a)” público já muda o clima institucional.

Quando a liderança valoriza o bem‑estar da equipe, retém talentos, reduz custos com substituições e melhora significativamente a qualidade do serviço. Equipes motivadas agem com mais calma, escutam melhor e transmitem segurança aos residentes.

Histórias que inspiram

Experiências em diferentes contextos mostram que pequenas mudanças geram grandes transformações. Pesquisas publicadas em periódicos internacionais (como BMJ Open, 2022) indicam que pausas ativas e alongamentos curtos, realizados de forma regular durante a jornada de trabalho, reduzem dores musculoesqueléticas – especialmente na região cervical e lombar – além de melhorar o humor e diminuir a fadiga.

Revisões recentes também apontam que rodas de conversa e práticas de debriefing em equipes de saúde fortalecem a resiliência emocional, reduzem sinais de burnout e melhoram o clima organizacional. Profissionais relatam mais clareza ao lidar com situações de crise e maior satisfação no trabalho quando contam com esses espaços estruturados.

Essas experiências não são exceções. Elas reforçam um princípio simples e poderoso: quando a equipe cuida de si, o cuidado com os residentes se fortalece:

• Redução das licenças por motivo de saúde
• Menor rotatividade de profissionais
• Melhora do clima entre colegas
• Mais atenção, paciência e sensibilidade no atendimento

As pessoas idosas percebem a diferença. O ambiente muda. O cuidado se humaniza.

Nunca é tarde, mas quanto antes, melhor

O professor Kalache também nos recorda que se queremos envelhecer com saúde, precisamos começar agora. Isso vale para todos.

Bem envelhecer, dizem. Mas quem gostaria de envelhecer mal? E temos mesmo essa escolha?
— Ixchel Delaporte, Dame de Compagnie

Profissionais de ILPI, que convivem diariamente com a velhice em suas múltiplas formas, têm uma oportunidade rara: a de aprender com os próprios residentes sobre o tempo e sobre as consequências das escolhas.

Adiar o cuidado de si mesmo é adiar também a chance de envelhecer com mais autonomia e independência. O momento de começar é hoje, agora. Incorporar o autocuidado na rotina profissional é uma decisão que transforma o presente e prepara um futuro melhor.

Por que compartilhar isso agora?

Vivemos uma era em que a longevidade se torna norma global. As pessoas idosas que hoje chegam às ILPI carregam histórias de décadas de conquistas, perdas, sonhos e desafios. Profissionais que os acompanham desempenham papel duplo: prestam cuidado e testemunham vidas inteiras. É uma honra e uma responsabilidade que exige máxima energia e equilíbrio.

Este editorial é um apelo: não deixem para amanhã o cuidado de sua própria vida. Não permitam que o cansaço cronifique o sorriso. Não aceitem que a cultura de excesso seja celebrada como “comprometimento”. A cultura certa é a do equilíbrio respaldada por práticas de autocuidado e por políticas institucionais sustentáveis.

O futuro que construímos juntos

Quando cuidamos de quem cuida, fortalecemos todo o ecossistema de envelhecimento ativo. Profissionais mais saudáveis e felizes geram residentes mais seguros e satisfeitos. Instituições mais estruturadas atraem novas gerações de cuidadores e se tornam referência de qualidade.

Este artigo foi pensado para circular amplamente, causar reflexão e inspirar transformações imediatas. Compartilhe, discuta nas redes, leve esse tema ao seu gestor. Quanto antes incorporarmos o autocuidado nas ILPI, mais humanos e efetivos seremos no cuidado com as pessoas mais velhas.

O desafio de envelhecer bem começa hoje. E passa, necessariamente, por cuidarmos de nós mesmos.

Artigos assinados por profissionais que são referências nacionais e internacionais, parceiros da ©Revista Cuidar.

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