A Revista Cuidar inicia esta edição prestando um reconhecimento especial a todos os gestores e profissionais de Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI) que atuam com ética, dedicação e compromisso diário. Vocês são exemplos vivos de que o cuidado pode e deve ser traduzido em dignidade, respeito e humanidade.

É preciso afirmar com clareza: a qualidade do cuidado é inegociável. Mais do que uma escolha, trata-se de um dever e uma obrigação de todos aqueles que desejam atuar nesse campo tão delicado e decisivo. O envelhecimento da população brasileira exige não apenas estruturas e recursos, mas sobretudo consciência coletiva, coragem ética e compromisso incondicional.

Sabemos que muitos fazem o melhor todos os dias, mesmo diante de desafios imensos. Por isso, fazemos questão de dizer: não generalizamos. Valorizamos as práticas que elevam o padrão do cuidar e, ao mesmo tempo, assumimos o compromisso de evidenciar o que não condiz com boas práticas. Só assim poderemos avançar com verdade e em conjunto.

Unir forças é essencial. Gestores, profissionais, residentes, famílias e sociedade precisam formar uma rede solidária que proteja a dignidade e assegure que cada ILPI seja um espaço de vida, pertencimento e respeito. Essa é a missão que guia cada edição da Cuidar.

A Dignidade do Cuidado nas ILPI: Um Compromisso Inegociável

Cuidar não é apenas um conjunto de procedimentos técnicos; é uma expressão de valores que define a civilização de uma sociedade. Quando falamos de Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI, popularmente conhecidas como casa de repouso ou asilo), estamos diante de um teste morale ético: medimos não apenas a eficiência dos serviços prestados, mas a capacidade coletiva de reconhecer a dignidade humana quando ela se manifesta em corpos mais frágeis. Aceitar que a qualidade do cuidado possa ser negociada pelo mercado, por prazos ou por custos é aceitar a erosão do que nos torna humanos.

Cuidar não é favor, tampouco moeda de troca. É condição de justiça social.

Como gestores e profissionais podem contar a verdade sobre o que acontece dentro das ILPI, revelando suas belezas e desafios?

Para ilustrar a necessidade dessa autenticidade, a pintura Os Comedores de Batata (1885), de Vincent Van Gogh, publicada em nosso newsletter, surge como um fiel aliado. A mensagem principal é que não há necessidade de ter medo de dizer as coisas como elas são. Assim como os camponeses de Van Gogh são retratados de forma desajeitada, marcada pelo tempo, sem filtros ou embelezamentos, em um momento simples da vida cotidiana – e, ainda assim, a obra é linda, verdadeira, autêntica e histórica -, nós também precisamos da coragem de mostrar o cotidiano das ILPI sem medo. Isso implica expor falhas, acolher críticas e abandonar a postura defensiva, porque só assim alcançaremos narrativas verdadeiramente humanas.

É fundamental defender não apenas as ILPI, mas o que elas representam: respeito, dignidade, acolhimento e, sobretudo, a cultura do CUIDAR. Para isso, precisamos conquistar a confiança de quem está “de fora”, mostrando não apenas a estrutura física das entidades, mas principalmente as histórias de vida que elas abrigam.

Associação Cuidadosa

Estudos internacionais sobre person-centered care (Kitwood, 1997; Brooker, 2007) mostram que narrativas autênticas não apenas transformam a percepção social, mas também produzem melhores resultados clínicos e emocionais para os residentes.

Adultos idosos: Mais que um Corpo, Pessoas Completas

O ato de cuidar ultrapassa a simples manutenção biológica. Nas ILPI, não se trata de “guardar” corpos, mas de acolher pessoas com histórias, necessidades e dignidade. A maioria das pessoas idosas não escolhe ir para uma ILPI espontaneamente, mas por absoluta necessidade. Quando enxergamos a pessoa idosa apenas como um corpo, reduzimo-la a uma mercadoria, exposta ao risco de práticas predatórias.

A desumanização silenciosa acontece quando pessoas que convivem com demências são tratadas como “etiquetas ambulantes” – “tem Alzheimer, não sabe o que faz”-, ignorando suas capacidades remanescentes e sua subjetividade. O verdadeiro investimento no cuidado acontece quando a sociedade reconhece que cada pessoa tem dignidade e merece ser valorizada pelo que é, e não apenas pelo que pode produzir ou pelo custo que representa.

A qualidade do cuidado deve tornar-se parte do contrato social. Isso exige políticas públicas, financiamento adequado, formação profissional e participação comunitária. Não será por mera compaixão que transformaremos as ILPI: será pela convicção de que cuidar bem é investimento público e humano. Quando uma sociedade instrui suas instituições a proteger o frágil, garante sua própria continuidade humanitária.

A qualidade do cuidado é inegociável porque dela depende a dignidade coletiva. Defender esse princípio é investir no futuro humano da comunidade; exige recursos, políticas e mudança de atitude imediata. É urgente.

Resistindo ao Oportunismo

Infelizmente, existem instituições que priorizam exclusivamente a rentabilidade, negligenciando a dimensão holística do cuidar. Essa mercantilização do envelhecimento, associada à onda oportunista de abertura de ILPI sem critérios diante do aumento da população idosa, é grave e perigosa.

O crescimento de ILPI clandestinas precisa ser combatido, assim como os discursos que, sem evidências científicas ou comprovação prática, defendem reduzir equipes e negar a necessidade de profissionais de saúde qualificados. Fragilidade não pode ser tratada como oportunidade de negócio. Essa distorção gera abusos, cortes irresponsáveis de pessoal e a falsa ideia de que ILPI pode funcionar sem profissionais capacitados.

É fundamental abandonar a ilusão de que apenas reclamar por mais dinheiro e direitos trará a mudança. Dinheiro e direitos virão quando, como comunidade, acreditarmos que o cuidar com qualidade é um dos investimentos mais importantes que uma sociedade pode fazer.

A RDC 502/21 da Anvisa e o impacto nas ILPI

A RDC nº 502/2021 da Anvisa regula o funcionamento das ILPI e as reconhece como serviços de interesse à saúde. Embora seja um avanço necessário, sua aplicação prática pode ser desafiadora para os gestores, que muitas vezes se sentem inseguros quanto à fiscalização, temendo que seja exclusivamente punitiva em vez de orientadora.

A Anvisa tem buscado alinhar as interpretações com o Roteiro Objetivo de Inspeção (ROI), que visa padronizar e qualificar as fiscalizações, focando não apenas na identificação de falhas, mas em oferecer caminhos de adequação. O objetivo é reduzir a subjetividade e promover maior segurança jurídica, incentivando uma cultura de transparência e confiança.

No entanto, ainda há relatos de fiscais que atuam de forma desrespeitosa e de municípios que não fiscalizam ILPI clandestinas, colocando em risco as instituições regulares.

ILPI x Hospital: a principal diferença

A principal diferença é que uma ILPI não é um hospital. Enquanto hospitais são destinados a intervenções agudas e possuem alta rotatividade de pacientes, a ILPI tem caráter de moradia. É um espaço onde pessoas idosas residem de forma permanente ou prolongada, com foco em rotinas humanizadas, flexibilidade de horários, estímulo à autonomia, independência e promoção de relações afetivas.

O objetivo da ILPI é ser um equipamento sociossanitário, oferecendo cuidados em saúde (promoção, prevenção, reabilitação) e apoio social (vínculos, autonomia, convivência), e não um ambiente de hospitalização.

Cuidar bem exige conhecimento técnico, sensibilidade relacional e uma arquitetura organizacional que favoreça vínculos. A inteligência do cuidar combina saberes biomédicos, éticos e antropológicos. Não se trata de sentimentalismo, mas de precisão moral: saber quando intervir, como respeitar a autonomia e como interpretar gestos não verbais de uma pessoa que convive com demência.

Profissionais competentes fazem escolhas baseadas em evidências, empatia e responsabilidade. Por isso, investir em formação e valorização profissional não é custo: é a estratégia mais eficaz para reduzir sofrimento e promover vidas com sentido.

Profissionais como agentes transformadores

Os profissionais do cuidado são o coração das ILPI. São eles que, no dia a dia, traduzem políticas em práticas e intenções em gestos. Valorizar profissionais é reconhecer que competência exige remuneração justa, formação, supervisão e condições de trabalho saudáveis.

Um profissional reconhecido age com autonomia responsável, inova nas respostas e protege os vínculos. Investir nesses profissionais é multiplicar o impacto do cuidado.

Narrativas que transformam

A mudança exige uma revolução narrativa. Precisamos contar histórias que mostrem que ILPI são lugares de vida, não de abandono. Essas narrativas honestas precisam reconhecer falhas e celebrar práticas que restauram sentido. Contar histórias de cuidado com coragem intelectual é convidar a sociedade a assumir sua parcela de responsabilidade.

É preciso compreender que a qualidade do cuidado não é um detalhe administrativo: define o tipo de sociedade que desejamos ser. Reduzir o cuidado a custos marginais é delegar nossa responsabilidade ao mercado, com consequência concreta: famílias exauridas, hospitais sobrecarregados e memórias apagadas.

Investir em cuidado qualificado significa prevenção, dignidade e economia humana. A inteligência do cuidar combina técnica, sensibilidade e organização. Exige formação continuada que una saber biomédico, comunicação sensível e ética aplicada. Exige também modelos institucionais que favoreçam equipes de referência e continuidade de vínculos, diminuindo rupturas e melhorando resultados clínicos e emocionais.

Preservar a autonomia é desenhar práticas que permitam escolhas seguras: adaptar protocolos para que a recusa seja respeitada, envolver residentes em conselhos de gestão e reconhecer que a cidadania persiste mesmo com dependência. Pequenas liberdades cotidianas como escolher a roupa, recusar uma atividade, decidir um passeio são remédios poderosos para a autoestima.

Dar espaço ao tempo requer decisões institucionais simples: flexibilizar horários, criar rotinas que acolham rituais pessoais, abrir-se à presença de voluntariado e atividades intergeracionais. Essas medidas custam sensibilidade, não fortunas, e transformam ambientes funcionais em lugares de sentido.

No cuidado de pessoas que convivem com demência, reduzir a resposta ao arsenal farmacológico e muitas vezes a contenção física sem critérios é erro prático e ético. Intervenções não farmacológicas tais como: música, terapia ocupacional, ambientes sinalizados, leitura corporal e toques autênticos melhoram a qualidade de vida. Reconhecer a pessoa implica adaptar espaços e treinar equipes.

A mercantilização não é inevitável. Modelos híbridos, cooperativas e incentivos públicos a práticas centradas na pessoa são alternativas viáveis. Políticas que financiem capacitação e remuneração digna aos profissionais que atuam nas ILPI diminuem a pressão por soluções de baixo custo e alto dano.

Valorizar profissionais é estratégia de preservação do vínculo. A rotatividade corrói relações e produz custos ocultos. Uma carreira valorizada, com remuneração justa, supervisão e formação, cria profissionais responsáveis, criativos e multiplicadores de qualidade.

Regular com inteligência significa medir o humano. Auditorias participativas que incluam residentes e famílias geram legitimidade e sinalizam prioridades. Normas claras e mecanismos educativos convertem fiscalização em motor de melhoria.

Narrativas honestas transformam percepções. Contar práticas que respeitam pessoas, revelar falhas e mostrar caminhos de aprimoramento cria confiança e engaja a sociedade.

Sem barganhas

Cuidar é um ato político, técnico e ético. Não pode ser sujeito a barganhas. A qualidade do cuidado é inegociável porque está intrinsecamente ligada à dignidade humana e ao futuro coletivo.

Defender esse princípio não é retórica: é uma estratégia concreta para sociedades mais justas e compassivas.

Se quisermos envelhecer com dignidade, precisamos agir agora, sem hesitação. O cuidado merece nossa inteligência, nossos recursos e nosso compromisso incondicional.

O cuidado em ILPI é um compromisso coletivo. Na sua visão, quais caminhos precisamos percorrer para garantir qualidade inegociável? Compartilhe nos comentários e fortaleça essa conversa.

About the Author: Aline Salla

Fundadora e Diretora editorial da Revista Cuidar. Coordenadora de Comunicação e membro fundadora da Frente nacional de fortalecimento às ILPI, MBA em Comunicação e Marketing, Gestão de Tecnologia da Informação, Certificado de aluna especial, em: Análise de Dados científicos em gerontologia - USP Each, Inovação na Longevidade: Gerontecnologia - UNIFESP, Curso avançado em Gerontologia - SBGG, Cursos complementares na Itália na área de Digital marketing, comunicação e envelhecimento. Pesquisadora e professora universitária convidada - USP e Ensino Albert Einstein. Palestrante em eventos brasileiros e italianos abordando assuntos relacionados às ILPI, Gerontologia e Gerontecnologia. Membro da SIGG - Sociedade Italiana de Geriatria e Gerontologia.

5 Comments

  1. Rosane Sangaleti- Jardim do lírio 28/08/2025 at 08:48 - Reply

    Artigo incrível ! Infelizmente muitos gestores veem a pessoa idosa com um cifrão , cuidar não é apenas colocar dentro de um residencial dar banho, alimentar e trocar fralda, Cuidar vai muito além disso, exige MUITA qualificação, solidariedade e empatia . Muitos fazem um CTRL+C /CTRL+V do cuidado, sem respeitar a individualidade de cada um e sua historia .
    Gestores precisam mudar urgentemente o olhar para o cuidado da pessoa idosa. DIGNIDADE URGENTE !

  2. Renata Alves 28/08/2025 at 09:38 - Reply

    O texto acerta em cheio: a ILPI precisa garantir um cuidado integrado a um ambiente de vida. Ser híbrida não significa medicalizar tudo, mas sim equilibrar saúde e social. O que não podemos é naturalizar quedas, desnutrição ou agravos que seriam preveníveis com uma equipe qualificada e presente.

  3. Carlos Henrique 28/08/2025 at 09:41 - Reply

    Concordo plenamente, não é apenas questão de recursos financeiros, é de consciência coletiva. Enquanto houver instituições improvisadas e clandestinas, a imagem das casas sérias também fica comprometida

  4. Patrícia Souza 28/08/2025 at 09:48 - Reply

    Obrigada pelo artigo, Aline. Repetir que ‘ILPI não é hospital’ já virou modismo usado para distorcer a noção de qualidade do cuidado. Como você bem disse: é inegociável. O que precisamos é de prova concreta: indicadores de qualidade, transparência na gestão e equipes de saúde qualificadas. Quem deseja estar na linha de frente precisa comprovar qualificações. Ficar só no discurso vazio é subestimar a inteligência de quem conhece o assunto.

  5. Angela Ribeiro 29/08/2025 at 00:48 - Reply

    Excelente reflexão. Mas não podemos deixar de tocar em um ponto que segue sendo tabu: a implementação da Lei 14.434/2022 (piso da enfermagem) deixou muitas ILPI de fora dos repasses. Como exigir qualidade do cuidado sem garantir condições para manter equipes de enfermagem qualificadas? Em várias instituições privadas, o resultado prático tem sido corte ou ausência de enfermeiros um retrocesso perigoso. Até quando ando a fragilidade institucional das ILPI será invisibilizada nas políticas públicas?

O que você achou do artigo? Deixe um comentário!

🌱 Vamos espalhar o CUIDAR. Compartilhe nas suas redes sociais

5 Comments

  1. Rosane Sangaleti- Jardim do lírio 28/08/2025 at 08:48 - Reply

    Artigo incrível ! Infelizmente muitos gestores veem a pessoa idosa com um cifrão , cuidar não é apenas colocar dentro de um residencial dar banho, alimentar e trocar fralda, Cuidar vai muito além disso, exige MUITA qualificação, solidariedade e empatia . Muitos fazem um CTRL+C /CTRL+V do cuidado, sem respeitar a individualidade de cada um e sua historia .
    Gestores precisam mudar urgentemente o olhar para o cuidado da pessoa idosa. DIGNIDADE URGENTE !

  2. Renata Alves 28/08/2025 at 09:38 - Reply

    O texto acerta em cheio: a ILPI precisa garantir um cuidado integrado a um ambiente de vida. Ser híbrida não significa medicalizar tudo, mas sim equilibrar saúde e social. O que não podemos é naturalizar quedas, desnutrição ou agravos que seriam preveníveis com uma equipe qualificada e presente.

  3. Carlos Henrique 28/08/2025 at 09:41 - Reply

    Concordo plenamente, não é apenas questão de recursos financeiros, é de consciência coletiva. Enquanto houver instituições improvisadas e clandestinas, a imagem das casas sérias também fica comprometida

  4. Patrícia Souza 28/08/2025 at 09:48 - Reply

    Obrigada pelo artigo, Aline. Repetir que ‘ILPI não é hospital’ já virou modismo usado para distorcer a noção de qualidade do cuidado. Como você bem disse: é inegociável. O que precisamos é de prova concreta: indicadores de qualidade, transparência na gestão e equipes de saúde qualificadas. Quem deseja estar na linha de frente precisa comprovar qualificações. Ficar só no discurso vazio é subestimar a inteligência de quem conhece o assunto.

  5. Angela Ribeiro 29/08/2025 at 00:48 - Reply

    Excelente reflexão. Mas não podemos deixar de tocar em um ponto que segue sendo tabu: a implementação da Lei 14.434/2022 (piso da enfermagem) deixou muitas ILPI de fora dos repasses. Como exigir qualidade do cuidado sem garantir condições para manter equipes de enfermagem qualificadas? Em várias instituições privadas, o resultado prático tem sido corte ou ausência de enfermeiros um retrocesso perigoso. Até quando ando a fragilidade institucional das ILPI será invisibilizada nas políticas públicas?

O que você achou do artigo? Deixe um comentário!