Nota Editorial — Revista Cuidar:

No dia 12 de outubro, o Brasil celebra o Dia das Crianças. Uma data dedicada à ternura, à pureza e à importância do cuidado, valores que também fazem parte da essência do trabalho diário dentro das Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI).

Mas nesta data escolhemos fazer uma reflexão diferente.Embora as pessoas idosas precisem de cuidado, elas não são crianças.
São adultos, com histórias de vida, desejos, memórias, autonomia e o direito de viver plenamente sua afetividade e sexualidade.

Em muitas ILPI, o afeto e a sexualidade ainda são tratados como tabu, algo a ser escondido ou negado. Falar sobre amor e vínculos na velhice é, na verdade, falar sobre dignidade e humanidade. É reconhecer que o desejo de amar, de se sentir querido e de compartilhar a vida com alguém não se aposenta com o tempo.

Publicar o artigo “Afeto e Sexualidade na ILPI: Rompendo Tabus e Cultivando Vínculos”, da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), neste dia é uma escolha proposital e simbólica. Queremos lembrar que o envelhecimento não anula o direito à autonomia e à expressão afetiva. Pelo contrário: é justamente nessa fase que o carinho, o toque e a presença ganham ainda mais sentido.

Idoso não é criança, e por isso mesmo tem todo o direito de ser adulto e de exercer sua autonomia para decidir sobre sua sexualidade e afetividade.
Respeitar essas escolhas é reconhecer o idoso como sujeito pleno de direitos, capaz de decidir, escolher e amar.

Que o cuidado venha acompanhado de escuta, empatia e respeito às individualidades.
E que o amor continue sendo o maior e mais bonito dos direitos.

Associação Cuidadosa

Reality show da Netflix inspira reflexão sobre vínculos afetivos na maturidade

Especialista da SBGG explica como se relacionar depois dos 60 anos pode fortalecer autoestima, saúde e qualidade de vida.

Recentemente, a Netflix apresentou mais uma edição do reality show “Casamento às Cegas Brasil”, que contou com participantes acima dos 50 anos em busca de um relacionamento sério e duradouro.

De um total de 30 participantes, apenas cinco casais foram formados durante os encontros às cegas, sendo que dois não chegaram até o dia de dizer “sim” ou “não” no altar. Entre esses três casais, um disse o esperado “sim”.

Mas, a pergunta que fica é: o amor tem idade? Segundo a psicóloga, Valmari Cristina Aranha Toscano, membro da Comissão de Formação Gerontológica da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), a resposta é não. 

Ela explica que é possível se interessar e querer viver com uma pessoa, independentemente da idade, sendo que essa decisão depende muito mais do interesse do casal em criar esse vínculo e das condições atuais de vida. “O que sabemos é que o amor acontece de maneiras diferentes em cada etapa das nossas vidas e essa questão de se relacionar afetivamente na velhice é importante, pois faz a pessoa se sentir viva e socialmente inserida.”

Valmari comenta que o “estar” em uma relação também melhora o autocuidado da pessoa idosa, que passa a ter mais vontade de viver e deseja experimentar novas situações com o par. De acordo com a psicóloga, a autoestima também melhora quando se está em um relacionamento saudável, principalmente depois dos 60 anos, quando os “protocolos” acabam. “Com o aumento da expectativa de vida, esses relacionamentos podem ser muito melhores, qualitativamente falando, depois de uma certa experiência de vida”, diz.

Afeto e Sexualidade na ILPI: Rompendo Tabus e Cultivando Vínculos

A vida em uma Instituição de Longa Permanência não deve ser um impedimento para que os moradores cultivem e expressem sua vida afetiva e sexual. É fundamental reconhecer que o amor não tem idade e que o desejo de se relacionar e criar vínculos afetivos persiste em qualquer fase da vida.

Para muitos, existe um grande tabu em relação à sexualidade na velhice, pois é comum que a maturidade seja imaginada de uma maneira mais “sagrada” e até mesmo assexuada, o que acaba gerando estranheza quando pessoas idosas iniciam um relacionamento. No entanto, é essencial mudar essa perspectiva.

Dentro do ambiente da ILPI, a busca por companhia é uma maneira poderosa de espantar a solidão. Entretanto, quando se trata de ILPI, além do idadismo, muitas pessoas ainda enfrentam preconceito por viverem em uma residência coletiva para idosos.

Infelizmente, em alguns locais há inclusive restrições ao envolvimento afetivo entre os moradores, o que reforça estigmas e impede o exercício de um direito básico: o de amar e ser amado.

Para combater esses estigmas, é necessário promover uma cultura institucional que valorize o direito à afetividade, respeitando os limites, preferências e particularidades de cada indivíduo, sem infantilizar ou desumanizar os residentes.

Caso a pessoa idosa enfrente resistência familiar ao se envolver afetivamente – como a interferência que tenta “protegê-la” de forma negativa – é preciso lembrar que idade é apenas um marcador biológico. A capacidade de sustentar relacionamentos depende muito mais da personalidade e das experiências individuais do que da faixa etária.

Portanto, para os moradores das ILPI, é fundamental incentivar o cultivo da autoestima e o convívio social com pessoas que favoreçam interações saudáveis e respeitosas. O relacionamento afetivo na velhice constitui um direito humano e representa um importante determinante de qualidade de vida.

Diferenças

Relacionar-se aos 30, 40, 50 e após os 60 anos é diferente. Diferenças essas mais condicionadas às características de personalidade, ao meio social e cultural que essas pessoas estão inseridas. Segundo Valmari, um ponto que chama a atenção é que ocorreram mudanças significativas na forma que as pessoas se relacionam. Hoje, por exemplo, é comum que pessoas com 30 e 40 anos tenham filhos nessa fase, já as de 50 e 60 anos têm uma história de vida já construída, com hábitos e experiências. “Hoje, aos 60 anos, muitas pessoas estão bem física e cognitivamente, sentindo-se com a autoestima preservada, aptos a uma vida sexual importante e saudável. Sendo assim, elas têm a oportunidade de terem relações mais saudáveis do que tinham as pessoas de 60 anos há poucos anos”, relata a psicóloga, ao comentar que a família tem um papel diferente na relação das pessoas, independentemente da idade. “A interferência dos familiares é diferente em relação às faixas-etárias. No caso da pessoa idosa, a família pode tentar tratá-la com uma pessoa inexperiente e acabar interferindo, às vezes, de maneira negativa, tentando protegê-la.”

Essa “proteção” muitas vezes adoece a pessoa idosa, fazendo com que ela não conte sobre os seus relacionamentos e passe a viver uma relação escondida. Segundo Valmari, o tabu em relação à sexualidade ainda é grande. Afinal, para muitas pessoas é difícil imaginar seus pais ou avòs namorando com outras pessoas. “É comum imaginar a velhice de uma maneira mais ‘sagrada’ e até mesmo assexuada, por isso a estranheza. Então, é preciso saber se essa proteção faz sentido realmente ou se é dificuldade em aceitar essa nova relação por ciúme”, relata, ao afirmar que quando um filho não aceita esse relacionamento, ele precisa, sim, ser escutado para saber se o motivo faz sentido. “O famoso ‘Porque não’, não pode ser levado em consideração.” 

Idadismo

Embora a população 60+ esteja pronta (e apta) para o amor, o etarismo ainda é muito presente. No Casamento às Cegas Brasil 50+ uma mulher de 70 anos, saudável e pronta para um relacionamento, comentou em um dos episódios que a sua idade pesou na hora de ser escolhida por um homem. De acordo com a psicóloga, esse reality é interessante porque mostra homens e mulheres totalmente diferentes, reafirmando que não precisa ser jovem, bonito, inteligente ou ter uma boa condição financeira para iniciar um romance. “Uma mulher mais jovem ficou em dúvida entre um homem de 50 anos e outro de mais de 60, que era mais ativo, atuante e brincalhão. Nesse caso, embora não tenham ficado juntos, não existiu idadismo, o que é interessante e reforça que é a idade é apenas um marcador biológico”, diz. Outro ponto que chamou atenção foi a imaturidade de alguns participantes. “Idade não traz maturidade. É preciso considerar as experiências e a personalidade, muito mais que a faixa-etária quando o assunto é capacidade de sustentar relacionamentos.” 

Proteger-se também faz parte. O risco de ser traído, preterido e explorado existe em qualquer faixa-etária. Para evitar cair em uma “cilada afetiva”, Valmari orienta a pessoa a cuidar de sua autoestima, olhando para o par sem tantas idealizações e não aceitar qualquer relacionamento para não ficar sozinho. “Existem muitas formas de se espantar a solidão e ter companhia, buscando convívio social com pessoas que não sejam tóxicas e que permitam relações saudáveis e que venham para agregar.”

Recomendação de leitura:

Baixe gratuitamente o Pequeno Manual Anti-idadista, capitaneado pelo professor Alexandre Kalache.

Como sua instituição lida com o tema da afetividade e sexualidade na velhice? Escreva nos comentários.

Artigos assinados por profissionais que são referências nacionais e internacionais, parceiros da ©Revista Cuidar.

2 Comments

  1. Deborah Soares Amorim 12/10/2025 at 11:30 - Reply

    Gostei muito do Artigo . Tenho 62 anos e há 10 anos namoro com um homem da mesma idade. Temos nossas diferenças, mas convivemos muito bem cada um em sua casa e nos encontramos há cada 15 dias. Prova que a união faz parte de todas faixas etárias.

  2. Sou responsável por uma ILPI e realmente a sexualidade ainda é um tabu até mesmo para parte da equipe que ainda vê com estranheza quando alguém esboça interesse pelo outro, mas ao mesmo tempo todos apoiam. Realmente olha para a sexualidade do idoso é de extrema importância pois, nós ainda jovens sabemos o quanto a companhia afetiva de alguém nos motiva a ter mais vontade de viver.

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2 Comments

  1. Deborah Soares Amorim 12/10/2025 at 11:30 - Reply

    Gostei muito do Artigo . Tenho 62 anos e há 10 anos namoro com um homem da mesma idade. Temos nossas diferenças, mas convivemos muito bem cada um em sua casa e nos encontramos há cada 15 dias. Prova que a união faz parte de todas faixas etárias.

  2. Sou responsável por uma ILPI e realmente a sexualidade ainda é um tabu até mesmo para parte da equipe que ainda vê com estranheza quando alguém esboça interesse pelo outro, mas ao mesmo tempo todos apoiam. Realmente olha para a sexualidade do idoso é de extrema importância pois, nós ainda jovens sabemos o quanto a companhia afetiva de alguém nos motiva a ter mais vontade de viver.

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