NOTA EDITORIAL

Quando a escuta se transforma em cuidado

É com admiração que a Revista Cuidar recebe a pesquisa “Unir Forças entre Profissionais, apesar das Dificuldades”, realizada na Casa dos Pobres São Francisco de Assis, em Caruaru/PE.

O que mais nos toca neste trabalho não são apenas os dados, mas a postura da gestão ao receber os resultados. Reconhecer que muitas dificuldades eram desconhecidas e mobilizar-se para resolvê-las mostra um compromisso real com a escuta e a transformação. Esse é o caminho: ouvir sem julgar, acolher sem arrogância, agir com responsabilidade.

Quantas vezes vemos instituições que preferem reclamar das equipes, julgar os profissionais, atribuir a eles toda a responsabilidade pelos problemas? Isso deveria ser exceção. Uma gestão que escuta, que qualifica seus colaboradores de forma humanizada, que fortalece vínculos, terá sempre os melhores resultados. Porque cuidar bem de quem cuida é a base de tudo.

Precisamos reafirmar: cuidar de pessoas idosas em ILPI não é trabalho para amadores. É uma missão que exige qualificação técnica, preparo emocional e compromisso ético. Estamos lidando com vidas, tanto dos residentes quanto dos profissionais.

Esta pesquisa pode inspirar todas as instituições que buscam oferecer o melhor cuidado possível. Ela nos ensina que a união nasce da escuta, que a resiliência se constrói no diálogo, e que a excelência depende de uma gestão que caminha junto com sua equipe.

A Revista Cuidar segue firme no compromisso de compartilhar boas práticas que possam acolher e inspirar todos que, no dia a dia, entregam o seu melhor.

Associação Cuidadosa

Parabéns à Casa dos Pobres São Francisco de Assis e a todos os envolvidos nesta jornada de cuidado e aprendizado.

Diretora Editorial | Revista Cuidar

Autores: Antonio Fernando Santos Silva e os Funcionários da Casa dos Pobres São Francisco de Assis.

Unir forças entre profissionais, apesar das dificuldades: um estudo sobre solidariedade, missão e vínculos afetivos na Casa dos Pobres São Francisco de Assis – Caruaru/PE

Este artigo apresenta uma reflexão sobre a importância da união, da solidariedade e dos vínculos afetivos entre profissionais que atuam em contextos de cuidado institucional. A pesquisa foi realizada na ILPI Casa dos Pobres São Francisco de Assis, em Caruaru/PE, e buscou compreender como os funcionários fortalecem os laços humanos e espirituais diante das dificuldades do cotidiano.

O estudo envolveu 55 funcionários, dos quais 46 responderam ao questionário aplicado, resultando em uma taxa de resposta de 83,6%. A metodologia combinou dados quantitativos e qualitativos, interpretando percepções e experiências de trabalho. Os resultados apontam que as principais forças da equipe são a fé, a paciência, o respeito, o amor e o trabalho coletivo, que se sobrepõem aos desafios de sobrecarga e convivência.

Conclui-se que, mesmo diante das limitações materiais e emocionais, o grupo mantém uma cultura de cuidado baseada na missão e na espiritualidade, reafirmando o valor da união como caminho de humanização e resiliência.

A Dimensão Humana e Coletiva do Cuidar Institucional

As instituições de acolhimento para idosos representam ambientes desafiadores e, ao mesmo tempo, profundamente humanos. São espaços em que o cuidado ultrapassa o campo técnico e se converte em prática de amor, empatia e convivência.

Na Casa dos Pobres São Francisco de Assis, localizada em Caruaru/PE, o cotidiano dos profissionais é marcado por esforços, limitações e superações diárias. Apesar das adversidades estruturais e emocionais, o grupo mantém viva uma força interior alimentada pela fé, pela solidariedade e pelo desejo de servir.

Segundo Paulo Freire (1996), “ninguém educa ninguém, ninguém se educa sozinho; os homens se educam em comunhão”. Essa comunhão está no cerne do trabalho realizado na Casa: cuidar torna-se um ato educativo, que transforma tanto quem é cuidado quanto quem cuida.

O presente estudo busca compreender como os profissionais da Casa dos Pobres fortalecem os vínculos e mantêm a união, mesmo diante das dificuldades cotidianas.

Objetivo geral: Analisar como a união e os valores humanos sustentam o trabalho coletivo dos funcionários da Casa dos Pobres São Francisco de Assis.

Objetivos específicos:

  • Identificar as principais forças e dificuldades da equipe;
  • Compreender as formas de expressão de união e solidariedade;
  • Propor encaminhamentos que fortaleçam a cultura organizacional e emocional da instituição.

O trabalho coletivo e o sentido de missão

Freire (1996) considera o trabalho como um ato de amor e libertação. Pichon-Rivière (1986) complementa, afirmando que o grupo é um sistema vivo, capaz de criar e aprender em conjunto. Essa perspectiva se aplica à Casa dos Pobres, onde a equipe se organiza como um verdadeiro grupo operativo, sustentado pelo propósito de cuidar.

Morin (2001) reforça que a complexidade do humano exige integrar razão e emoção, técnica e afeto, ciência e solidariedade. Assim, a união dos profissionais reflete não apenas uma estratégia de trabalho, mas um modo de existir e resistir.

Valores humanos e resiliência

Seligman (2011) apresenta o conceito de “forças de caráter”, virtudes que promovem o florescimento humano — entre elas, fé, gratidão, esperança e amor. Frankl (1989), por sua vez, explica que o sentido da vida nasce quando o indivíduo encontra um “porquê” que o sustenta. Na Casa dos Pobres, esse “porquê” é o compromisso com o outro.

Dalai Lama (1998) ensina que a compaixão é um poder ativo, que transforma o sofrimento em oportunidade de crescimento. Esse princípio se manifesta nos gestos cotidianos de cuidado, onde o trabalho deixa de ser obrigação e se torna vocação.

Desafios das instituições de cuidado

De acordo com Bastos (2018) e a Organização Mundial da Saúde (2020), os profissionais de instituições de longa permanência enfrentam sobrecarga física, emocional e psicológica. Os desafios incluem jornadas exaustivas, escassez de recursos e a convivência com o sofrimento alheio.

Contudo, a união e a partilha de sentido ajudam a equipe a transformar o peso do trabalho em aprendizado e espiritualidade. A cooperação torna-se um antídoto contra o esgotamento e fortalece o sentido de pertencimento.

Métodos e Técnicas de Investigação

A pesquisa caracteriza-se como exploratória e descritiva, com abordagem qualitativa e quantitativa. O instrumento utilizado foi um questionário aplicado a 55 funcionários, dos quais 46 responderam, o que corresponde a 83,6% de taxa de resposta.

Os dados foram tabulados e interpretados à luz de categorias temáticas — forças individuais e coletivas, dificuldades, valores humanos e percepções afetivas. As respostas foram complementadas por observações e relatos orais obtidos em rodas de conversa e momentos de escuta.

Apresentação e Interpretação dos Resultados

Os resultados revelam que os profissionais destacam como principais forças: pontualidade (38 menções), paciência (34), respeito (32), fé (29) e trabalho em equipe. Esses elementos traduzem o que Seligman (2011) define como virtudes de caráter. A fé e a espiritualidade surgem como alicerces emocionais que fortalecem o grupo, confirmando a teoria de Frankl (1989), segundo a qual o sentido do trabalho é o que sustenta o ser humano diante das adversidades.

As dificuldades mais frequentes foram a sobrecarga de atividades e os conflitos relacionais, o que está em consonância com o relatório da Organização Mundial da Saúde (2020) sobre a saúde mental de cuidadores. Contudo, mesmo diante da exaustão, a equipe revelou elevada capacidade de cooperação, resiliência e amor ao trabalho —um sinal de fé e propósito, como descrevem Dalai Lama (1998) e Morin (2001) ao abordar o poder da compaixão e da interdependência.

Importante destacar que a gestão da Casa dos Pobres São Francisco de Assis recebeu os resultados da pesquisa com profundo senso de responsabilidade e compromisso ético. Ao identificar que muitas das dificuldades apontadas pelos funcionários eram desconhecidas até então, a direção reconheceu a relevância desse diagnóstico participativo e já iniciou movimentos concretos para suprir as necessidades identificadas.

Entre as medidas em planejamento e execução, estão a redistribuição de tarefas, o fortalecimento do diálogo interno, a criação de espaços de escuta emocional e o incentivo à formação continuada. Essas ações refletem o entendimento de que cuidar bem dos cuidadores é condição essencial para garantir um ambiente de trabalho saudável e sustentável.

Assim, a pesquisa não apenas revelou desafios, mas também provocou um despertar institucional, reforçando o papel da gestão como agente de mudança e promotora de um cuidado integral — aquele que acolhe tanto quem serve quanto quem é servido.

Os momentos de união mais lembrados pelos funcionários ocorreram em celebrações, orações, ações coletivas e cuidados partilhados — vivências que se aproximam do conceito de “grupo operativo” de Pichon-Rivière (1986).

Essas percepções confirmam que o cuidado, quando humanizado, se transforma em via de aprendizado mútuo, renovando o sentido da missão de servir.

Valores pessoais mais presentes no trabalho

Os valores mais mencionados pelos funcionários foram:

Amor – ênfase no cuidado e na empatia;

– sustentação emocional e espiritual;

Respeito – base das relações e do acolhimento;

Paciência – lidar com o tempo e a fragilidade do outro;

Responsabilidade – compromisso com o bem-estar coletivo.

Esses valores traduzem a essência do trabalho na Casa dos Pobres São Francisco de Assis: um espaço em que a espiritualidade e a ética se fundem em missão. Como ensina Frankl (1989), o sentido do trabalho nasce quando se serve a algo maior que si mesmo — e, nesse contexto, o cuidado se torna expressão de fé, compaixão e propósito. Esses valores não apenas orientam o comportamento dos profissionais, mas configuram o alicerce simbólico do ambiente organizacional. Morin (2001) lembra que “a complexidade humana exige unir razão e emoção, técnica e solidariedade” — e é isso que se observa entre os cuidadores da Casa dos Pobres São Francisco de Assis.

A análise das respostas qualitativas reforça essa perspectiva. As falas dos moradores, como as de Dona Gilvete Ferreira, 82 anos, “Aqui eu me sinto em casa. Todos me escutam, dão atenção a mim e me tratam pelo nome.” e Dona Dona Luzia Rodrigues, 77 anos, Aqui todos cuidam de nós com amor. Sou muito grata e quando a gente agradece, o coração da gente fica leve. Aqui encontrei o que eu estava precisando”, revelam gratidão e carinho, demonstrando que o cuidado recebido ultrapassa o âmbito da obrigação e se transforma em um gesto de amor genuíno. Tais relatos confirmam que o vínculo afetivo é recíproco: os profissionais cuidam, mas também são curados pela convivência. Essa relação dialógica e empática, que une quem serve e quem é servido, materializa o que Freire (1996) chamaria de “educação pela presença amorosa”

Orientações e encaminhamentos diante das dificuldades identificadas

A análise dos dados revelou que, embora a equipe da Casa dos Pobres São Francisco de Assis mantenha uma postura resiliente e comprometida, enfrenta desafios que exigem

atenção institucional contínua. As principais dificuldades relatadas — sobrecarga de trabalho, cansaço físico e emocional, falta de pessoal e recursos, convivência com o sofrimento dos idosos e conflitos ocasionais entre colegas — estão alinhadas a problemáticas amplamente documentadas na literatura sobre instituições de longa permanência para idosos.

Nesse sentido, o presente estudo propõe orientações e encaminhamentos baseados em evidências científicas e nas boas práticas de gestão humanizada, com vistas ao fortalecimento do cuidado integral e à promoção da saúde emocional dos profissionais.

Sobrecarga de trabalho

A Organização Mundial da Saúde (2020) aponta que a sobrecarga de tarefas compromete o desempenho, o bem-estar e a saúde física e emocional dos cuidadores. O excesso de demandas cotidianas, aliado à escassez de recursos, eleva o risco de estresse ocupacional e fadiga crônica.

Para minimizar esses impactos, recomenda-se a redistribuição de responsabilidades, o estímulo ao trabalho em equipe colaborativo e a inclusão de pausas planejadas durante a jornada. A gestão da Casa já se mostra sensível a esse tema e sinaliza a intenção de revisar escalas, ajustar turnos e reorganizar funções, de modo a preservar o equilíbrio entre produtividade e bem-estar.

Cansaço físico e emocional

Segundo Bastos (2018), o esgotamento emocional é uma das principais causas de afastamento de profissionais em contextos de cuidado. Já Seligman (2011) reforça que o florescimento humano depende do cultivo das forças pessoais, como esperança, gratidão e propósito.

Para enfrentar o cansaço físico e emocional, sugere-se a criação de espaços de escuta ativa e apoio psicológico, bem como momentos de convivência e relaxamento. Atividades como rodas de conversa, dinâmicas de autocuidado e celebrações simbólicas fortalecem o vínculo entre os membros da equipe e renovam o sentido da missão.

Falta de pessoal e recursos

O déficit de pessoal e recursos é uma realidade recorrente em instituições filantrópicas. Para Morin (2001), a criatividade e a solidariedade são elementos-chave na superação de contextos adversos. Assim, a gestão tem buscado soluções inovadoras, como o fortalecimento do trabalho voluntário, a formação de parcerias com instituições de ensino e a otimização dos processos internos.

Além disso, pretende-se realizar um mapeamento das funções, identificando pontos de sobreposição ou lacunas, a fim de favorecer um ambiente mais equilibrado e eficiente, sem perder de vista a dimensão humana do cuidado.

Convivência com o sofrimento dos idosos

Cuidar de pessoas idosas implica lidar com a vulnerabilidade, o declínio físico e, muitas vezes, o sofrimento emocional. Conforme Frankl (1989), é possível encontrar sentido mesmo diante da dor, quando se compreende o valor espiritual do serviço prestado. Dalai Lama (1998) complementa que a compaixão é o caminho mais eficaz para transformar o sofrimento em crescimento interior.

Para auxiliar os cuidadores nesse processo, recomenda-se o desenvolvimento de formações específicas sobre luto, empatia e espiritualidade no cuidado, além da realização de momentos de reflexão guiada e meditação coletiva. Essas práticas fortalecem o emocional dos profissionais e ajudam a ressignificar experiências dolorosas.

5.5.  Conflitos ocasionais entre colegas

As relações humanas, inevitavelmente, geram tensões. Pichon-Rivière (1986) destaca que o grupo é um espaço de aprendizagem e que os conflitos, quando mediados, podem se transformar em oportunidades de crescimento coletivo. Freire (1996) reforça que o diálogo é o alicerce de qualquer convivência solidária.

Dessa forma, recomenda-se à gestão instituir canais permanentes de comunicação interna, como reuniões de alinhamento, mediações conduzidas com escuta empática e oficinas sobre convivência e cooperação. A intenção é fortalecer a confiança mútua e a corresponsabilidade entre os membros da equipe.

Síntese e comprometimento da gestão

As orientações apresentadas não se limitam à teoria. A gestão da Casa dos Pobres São Francisco de Assis acolheu os resultados desta pesquisa com sensibilidade e senso de missão. Muitas das situações aqui descritas eram desconhecidas até o levantamento realizado, e a partir dele novos caminhos de escuta, reorganização e cuidado institucional foram abertos.

Esse movimento reafirma o compromisso da direção em cuidar também dos cuidadores, reconhecendo que a qualidade do atendimento prestado aos moradores depende diretamente do bem-estar físico, emocional e espiritual de cada profissional.

Assim, a pesquisa cumpre um papel transformador: além de descrever uma realidade, inspira ações concretas de melhoria e fortalece a cultura de amor, solidariedade e propósito que sustenta a Casa.

Reflexões Finais

O estudo demonstrou que o trabalho na Casa dos Pobres São Francisco de Assis transcende a dimensão profissional e assume um caráter espiritual e coletivo. Mesmo em meio às dificuldades, os funcionários mantêm viva uma cultura de solidariedade e fé, que dá sentido às ações e fortalece os vínculos entre todos.

Fortalecer essa cultura exige criar espaços de escuta e reconhecimento, investir em formações sobre saúde emocional e estimular rituais de celebração e espiritualidade no trabalho.

Conclui-se que unir forças é mais do que dividir tarefas: é partilhar sentidos, afetos e esperanças. É tornar o cotidiano do cuidado uma expressão viva de amor e missão.

Porque cuidar é também escrever histórias juntos.

Artigos assinados por profissionais que são referências nacionais e internacionais, parceiros da ©Revista Cuidar.

One Comment

  1. Carla 19/11/2025 at 23:08 - Reply

    Maravilhosa essa pesquisa.

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  1. Carla 19/11/2025 at 23:08 - Reply

    Maravilhosa essa pesquisa.

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