O Silêncio que Precede a Catástrofe
Enquanto você lê este artigo, uma decisão está sendo tomada em nome de todas as Instituições de Longa Permanência para Idosos do Brasil. Uma decisão que pode definir se a senhora de 85 anos com Alzheimer receberá cuidados de saúde dignos ou se será apenas “assistida socialmente” até sua morte. Uma decisão que determina se o senhor de 78 anos, acamado após um AVC, terá acesso a fisioterapia e acompanhamento médico ou se ficará relegado ao esquecimento sob o pretexto de “redução de custos”.
Não estamos exagerando. Estamos denunciando.
O setor de ILPI no Brasil cresce de forma desorganizada, impulsionado pelo aumento da longevidade e pela incapacidade das famílias em oferecer cuidados complexos que as doenças neurodegenerativas e as limitações funcionais exigem. Até 2050, estima-se que 2,3 milhões de idosos necessitarão de cuidadores remunerados, segundo Ana Amélia Camarano, pesquisadora do IPEA que há décadas mapeia o envelhecimento brasileiro.
Mas eis o paradoxo cruel: justamente quando mais precisamos qualificar o cuidado, surgem propostas que defendem a retirada da saúde das instituições. Não porque seja melhor para os residentes. Mas porque a equipe de saúde tem “um custo alto”.
A Voz da Ciência que Ninguém Quer Ouvir
Ana Amélia Camarano, em seus estudos pioneiros sobre ILPI, demonstrou que essas instituições abrigam predominantemente pessoas com alta dependência funcional e múltiplas doenças crônicas. São idosos frágeis, altamente vulneráveis. Não são pessoas que precisam apenas de um lugar para morar. São pessoas que precisam de cuidado integral.
Yeda Duarte, coordenadora do Estudo SABE e uma das maiores autoridades em envelhecimento no país, alerta: “Uma das principais razões que levaram a pessoa idosa a residir numa ILPI é a incapacidade da família em assistir às necessidades de saúde dessas pessoas”. Leia de novo: necessidades de SAÚDE.
Karla Giacomin, médica geriatra, coordenadora da Frente Nacional de Fortalecimento à ILPI e referência em cuidado institucional, é categórica: uma ILPI deve ser entendida como um equipamento híbrido que garanta o cuidado da saúde e a vivência social. Ela denuncia a cisão artificial entre saúde e assistência social como se fossem campos incompatíveis, quando na verdade são indissociáveis. Isso não quer dizer impor rotinas hospitalares em residências para pessoas idosas.
Tomiko Born, assistente social que introduziu o termo ILPI no Brasil para substituir o estigmatizante “asilo”, dedicou sua vida a defender que a nomenclatura representava mais que uma troca de nome: era uma tentativa de reposicionar essas instituições como espaços de moradia coletiva que oferecem dignidade e respeitam os direitos dos residentes. Ela lutou contra o preconceito e pela profissionalização do cuidado, inclusive do cuidador.
Alexandre Kalache, ex-diretor do Departamento de Envelhecimento da OMS e presidente do Centro Internacional de Longevidade Brasil, nos lembra que o Brasil fez sua transição demográfica em ritmo acelerado — cerca de duas décadas — enquanto países europeus levaram mais de um século. Envelhecemos sem ter enriquecido, sem estrutura, sem preparo. E agora, quando deveríamos investir massivamente em qualificação, há quem proponha desinvestir da saúde nas ILPI?
O Que Está Realmente em Jogo
Vamos ser diretos: propostas que defendem a separação entre saúde e assistência social na ILPI não têm embasamento científico. Não representam o interesse dos residentes. Representam uma lógica que é incapaz de enxergar o ser humano em sua integralidade, o que compromete a sua dignidade.
E mais grave: essas propostas estão sendo feitas em nome de todas as ILPI, sem consulta pública, sem participação democrática, sem o aval da comunidade científica. Como se um punhado de vozes pudesse decidir o destino de milhares de vidas.
Cadê a união do setor? Cadê a pressão coletiva sobre o Estado para garantir apoio financeiro a todas as ILPI, independentemente da natureza jurídica? Cadê o debate sério sobre como integrar SUS e SUAS de forma efetiva? Isso inclui garantir orçamento e planejamento intersetorial dentro da Política Nacional de Cuidados, criar mecanismos fiscais nas políticas setoriais que possibilitem a execução de boas práticas das duas políticas nos espaços de acolhimento.
O que vemos é fragmentação. Individualismo. Instituições isoladas lutando pela própria sobrevivência enquanto o setor como um todo insiste ora na falta de profissionalismo, por falta de recursos financeiros e humanos, ora na mercantilização, ainda que ela resulte desumana.
A Realidade que os Números Mostram
Apenas 6% das ILPI brasileiras são públicas, segundo dados apresentados por Karla Giacomin e estudos do IPEA. O restante sobrevive com recursos próprios dos residentes, das famílias e de doações. O Estado, que constitucionalmente tem o dever de proteger as pessoas idosas, está ausente.
Em 2023, as ILPI representavam mais de 90% das unidades de acolhimento de longa permanência registradas no Sistema Único de Assistência Social. São essenciais. São o principal equipamento de cuidado de longa duração no país. E estão subfinanciadas, desvalorizadas, invisibilizadas. Desde 2007, o valor repassado pelo SUAS, em nível federal não é reajustado e alcança em média R$70,00 por mês para cada pessoa idosa. E ainda assim, este valor pode ser repassado para outro público, a depender da gestão local do SUAS. No âmbito da Saúde, os repasses são indiretos, via medicamentos, insumos e custos com o cuidado na rede SUAS. Isso tampouco é suficiente. Gostaríamos de ver o SUS e o SUAS trabalhando juntos pela melhoria do cuidado, pela transparência nos critérios de priorização e de acesso às ILPI.
O subfinanciamento das ILPI tem comprometido a saúde deste segmento e põe em risco seus moradores. Essa é a realidade brutal que precisamos enfrentar.
O Que Precisa Ser Dito
Primeiro: Nenhuma decisão sobre o modelo de cuidado nas ILPI pode ser tomada sem participação majoritária dos profissionais da linha de frente, da ciência e da sociedade civil. O nome ILPI pertence a todos os que trabalham pelo cuidado digno, não a grupos que se autoproclamam porta-vozes do setor.
Segundo: Saúde e assistência social não são campos excludentes. São complementares, interdependentes, indissociáveis. Uma ILPI sem o apoio de uma equipe de saúde adequada compromete a qualidade de vida e de morte das pessoas moradoras.
Terceiro: Assegurar a sustentabilidade do setor passa por uma gestão inovadora e profissional. No caso das ILPI credenciadas junto ao SUAS, isso pressupõe SUS e SUAS atuando juntos. No caso das ILPI privadas, filantrópicas ou com fins econômicos, preparar e qualificar equipes de cuidado sempre com foco no bem-estar dos moradores, dos trabalhadores e dos gestores.
Quarto: O Estado brasileiro precisa assumir sua responsabilidade constitucional. Isso significa apoio financeiro real, contínuo e proporcional à demanda. Significa benefícios fiscais, subsídios, editais de fomento, linhas de financiamento específicas para ILPI de todas as naturezas jurídicas.
Quinto: Precisamos urgentemente de uma política nacional de cuidados de longa duração que integre efetivamente SUS e SUAS. Como bem lembra Karla Giacomin, transformar uma ILPI em um hospital ou um hospital em uma ILPI não é razoável. Negar cuidados a pessoas idosas doentes porque estão em uma ILPI não é digno.
Os Erros do Futuro que Podemos Evitar
Imagine você daqui a 20, 30 anos. Você desenvolve demência. Seus filhos não têm condições de cuidar de você em casa porque trabalham o dia todo, porque não têm formação para lidar com os desafios da doença, porque a estrutura residencial não comporta as adaptações necessárias.
Você entra numa ILPI. E descobre que lá não há equipe preparada para cuidar de você. Porque em 2025, alguém decidiu que as ILPI são “apenas” de assistência social, não podem admitir pessoas com demência, nem doentes que demandam cuidados de saúde.
Você morre alguns meses depois, não pela doença, mas pela negligência sistêmica. Pela falta de acompanhamento adequado. Pela ausência de cuidado qualificado.
É esse o futuro que queremos?
O Chamado à Ação
Este grito de alerta é baseado em evidências científicas, na experiência de décadas de profissionais comprometidos e na defesa intransigente da dignidade humana.
Convocamos todas as ILPI do Brasil a se unirem e participarem nas decisões que afetam o setor. Isso inclui pressionar o Estado por apoio financeiro adequado e defender, sem negociação, a integração entre as políticas e equipes de saúde e assistência social. Os grupos de WhatsApp da Frente Nacional de Fortalecimento às ILPI, criados em 2020 sob coordenação de Karla Giacomin e Aline Salla, estão abertos ao diálogo, à troca de informações e à transparência — fortalecendo a união do setor de forma ética e sem conflitos de interesses.
Convocamos os profissionais a não aceitarem propostas simplistas e perigosas como “soluções”. A estudarem, a se qualificarem, a conhecerem as evidências científicas. A serem críticos e vigilantes.
Convocamos as famílias a questionarem: onde estará seu pai, sua mãe, quando precisarem de cuidados? Que tipo de cuidado você deseja quando chegar sua vez de envelhecer?
Convocamos os políticos a ouvirem os profissionais que atuam nas instituições, abrindo canais de comunicação transparentes, sempre considerando as evidências da ciência para legislar.
E convocamos a sociedade brasileira a compreender que o envelhecimento populacional não é um problema distante. É agora. É por você. É por nós.
A Qualidade do Cuidado Não É Negociável
Cuidar é reconhecer no outro a humanidade que um dia será também a nossa.
Mas adicione-se: cuidar não é apenas ter boa vontade. É ter competência. É ter estrutura. É ter equipe. É ter saúde e assistência trabalhando juntas.
A velhice no Brasil não pode continuar sendo tratada como mercadoria, como problema, como peso. Precisa ser tratada como direito. Como conquista civilizatória. Como responsabilidade coletiva.
Não descansaremos enquanto as ILPI não receberem o reconhecimento, o apoio e a estrutura que merecem. Não aceitaremos retrocessos disfarçados de inovação. Não permitiremos que o amadorismo e a lógica do lucro prevaleçam sobre a ética do cuidado.
A pergunta que fica é simples e urgente: de que lado você está?
Do lado da dignidade ou do retrocesso?
Do lado da ciência ou do amadorismo?
Do lado do cuidado qualificado ou da redução de custos a qualquer preço?
Porque não há meio-termo quando se trata de vidas humanas.
Se não nós, quem? Se não agora, quando?
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Artigo valioso, através de profissionais preparados temos acesso a uma realidade que coloca em risco o cuidado e a saúde da pessoa humana que chega na velhice. Precisamos pensar, como vamos contribuir enquanto instituição para que o poder público, a sociedade, as famílias tenham consciência da realidade vivida pelas ILPI. Os dados oficiais nos mostram que velhice, longevidade é realidade que bate na porta, somente com a soma de esforços, comprometimento, responsabilidade e respeito, a dignidade humana prevalecerá.
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fiz estagio em uma instituição de grande porte em bairro nobre e o caos é em todos os setores Terminei o plantão como se tivesse trabalhado 12 horas abrindo valas para jogar sentimentos,amor e vida daqueles que gritam por sua ajuda.











Artigo valioso, através de profissionais preparados temos acesso a uma realidade que coloca em risco o cuidado e a saúde da pessoa humana que chega na velhice. Precisamos pensar, como vamos contribuir enquanto instituição para que o poder público, a sociedade, as famílias tenham consciência da realidade vivida pelas ILPI. Os dados oficiais nos mostram que velhice, longevidade é realidade que bate na porta, somente com a soma de esforços, comprometimento, responsabilidade e respeito, a dignidade humana prevalecerá.
fiz estagio em uma instituição de grande porte em bairro nobre e o caos é em todos os setores Terminei o plantão como se tivesse trabalhado 12 horas abrindo valas para jogar sentimentos,amor e vida daqueles que gritam por sua ajuda.