Muitas pessoas se perguntam se as pessoas idosas sentem a morte.
Elisa Mencacci, psicóloga e tanatóloga, tenta responder a essa pergunta, ajudando-nos a ir ainda mais fundo, até aquele lugar onde reside a necessidade da pessoa de poder se expressar e de se sentir acolhida com autenticidade.
Artigo original da Revista Cura – Itália.
Traduzido por Aline Salla.
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Os idosos sentem a morte?
“Doutora, na sua opinião, minha mãe sabe que está morrendo?”
Essa é uma das perguntas que mais frequentemente escuto no meu trabalho como psicóloga tanatóloga.
Por trás dessas palavras, muitas vezes, esconde-se uma mistura de angústia, culpa e um desejo profundo de proteger a pessoa amada, mas também de compreendê-la até o fim.
A resposta não é simples nem única, mas podemos dizer que sim: na maioria dos casos, as pessoas idosas percebem a aproximação da morte.
Sim, portanto, na maior parte das situações, as pessoas idosas sentem a morte.
Nem sempre isso acontece de forma consciente e racional, mas por meio de sinais sutis que o corpo e a mente lhes enviam.
É um processo natural, tão antigo quanto a própria humanidade.
O que frequentemente surpreende os familiares é descobrir que essa consciência não é necessariamente fonte de terror.
Ao contrário, muitas pessoas idosas desenvolvem uma forma de aceitação serena, uma sabedoria instintiva que as ajuda a enfrentar essa passagem.
A verdadeira dor nasce, muitas vezes, da impossibilidade de falar sobre isso, de sentir que aqueles que estão ao redor evitam o assunto para “protegê-los”.
Neste artigo, vamos explorar juntos as formas — muitas vezes indiretas — pelas quais nossos entes queridos nos comunicam suas percepções e descobrir como acompanhá-los com presença e autenticidade nesse momento tão delicado da vida.
Trata-se de um processo complexo e, ao mesmo tempo, natural, que nunca tem uma resposta ou uma ação certa ou errada a priori.
Não existem soluções prontas, mas pessoas com histórias e vidas diferentes, únicas.
Decifrar as mensagens na passagem final
A experiência clínica nos ensina que essa consciência se manifesta, sobretudo, por meio de uma linguagem simbólica, carregada de significados que exigem um ouvido atento para serem compreendidos.
“Quero ir para casa” / “Está na hora de partir” / “Preciso preparar as malas”.
Frases como essas são frequentemente interpretadas pelos familiares como confusão ou desorientação, mas, na realidade, tratam-se de mensagens precisas.
A “Casa” da qual falam não é necessariamente a casa física: muitas vezes é um lugar da alma, um retorno às origens que precede o desligamento.
Quando uma pessoa idosa, em fase avançada da vida, diz “preciso ir até a minha mãe”, mesmo que sua mãe tenha morrido há décadas, ela não está delirando: está comunicando uma preparação interior para o reencontro.
Não é por acaso que as pessoas que ela deseja alcançar são aquelas que, em nossa existência, foram referências afetivas, aquela segurança, aquele senso de paz.
Antes de partir, como tantos idosos me confidenciaram em seus últimos dias, antes de se separar da vida, existe a necessidade de saber que se está protegido:
“Não posso me deixar ir se não sinto que há uma mão firme me segurando.”
Visões no leito de morte e sonhos recorrentes
As pesquisas sobre as deathbed visions (visões no leito de morte) — End-of-Life Dreams and Visions (ELDVs) — documentam um fenômeno universal que ocorre em cerca de 50–60% das pessoas em fase final da vida quando estão conscientes (Kerr et al., 2014).
Uma característica peculiar desses fenômenos é que, para a pessoa que está morrendo, aparecem entes queridos que já faleceram, e nunca aqueles que ainda estão vivos.
88,1% dos pacientes estudados relataram ao menos um sonho ou visão de um parente ou amigo falecido, e quase todos afirmaram que esses sonhos ou visões pareciam reais e ofereciam conforto ou orientação.
Estudos recentes sugerem que essas visões não são alucinações patológicas, mas podem representar um mecanismo neurobiológico que facilita o processo de morrer, criando uma ponte simbólica para o desconhecido.
Portanto, não devemos nos assustar, mas acolher e permitir que nosso ente querido viva essa experiência sem medo.
Igualmente significativos são os sonhos recorrentes: eles podem começar dias, ou até semanas, antes da morte.
Ainda mais significativo é que, à medida que as pessoas se aproximam do fim da vida, a frequência dessas visões aumenta, concentrando-se cada vez mais em pessoas ou animais de estimação que já morreram.
O estudo pioneiro de Osis e Haraldsson (1977), conduzido entre 1959 e 1973, documentou que 50% das dezenas de milhares de pessoas estudadas nos Estados Unidos e na Índia haviam vivenciado visões no leito de morte.
Comunicar-se além das palavras
A importância de escutar para além das palavras torna-se crucial.
As pesquisas sobre comunicação em cuidados paliativos evidenciam como as pessoas que recebem cuidados paliativos e de fim de vida podem apresentar necessidades comunicativas complexas.
Os distúrbios da comunicação são um desafio que muitos pacientes em cuidados paliativos enfrentam, mas, muitas vezes, é no silêncio que se escondem as mensagens mais profundas: o olhar que permanece um instante a mais, a mão que segura a do filho(a), o sorriso que surge quando se menciona uma pessoa querida já falecida.
Estudos recentes sobre comunicação terapêutica no fim da vida destacam como informações honestas e abertas entre idosos e familiares contribuem para uma comunicação eficaz.
As pessoas frequentemente se sentem desconfortáveis diante da possibilidade de conversar sobre o fim da vida, mas não se trata de interpretar cada palavra como profética, e sim de desenvolver uma sensibilidade que nos permita perceber quando, por trás de uma frase aparentemente banal, existe uma necessidade profunda de compartilhamento.
Por isso, torna-se útil aprender a ir além das palavras, da linguagem comum: o percurso do fim da vida aparece como um tempo extraordinário, no qual podemos encontrar o outro da forma mais autêntica e profunda possível, sem filtros, muitas vezes por meio de canais incomuns.
A pessoa idosa em processo de morrer pode sentir ainda mais intensamente a necessidade de expressar emoções e pensamentos, percebendo pequenas ou grandes mudanças no corpo e na mente: como cuidadores, podemos ajudá-los a reconhecer essas passagens, tranquilizando-os quanto à sua normalidade nessa fase especial da vida.
A linguagem do morrer é antiga e universal, feita de metáforas que atravessam culturas e gerações.
Reconhecê-la significa oferecer à pessoa amada a possibilidade de ser compreendida em sua totalidade, mesmo quando as palavras parecem não fazer mais sentido lógico, mas conservam toda a sua potência emocional.
Por fim, é necessário estar junto da pessoa idosa que morre nesse território de fronteira, um espaço de passagem entre o aqui e o além, no qual nem sempre a racionalidade ou as explicações médicas oferecem compreensão total: é um exercício, feito juntos, de habitar o Mistério.
O que devo dizer ao meu ente querido?
Quando me perguntam: “Doutora, o que devo dizer ao meu pai?”, minha primeira resposta é sempre:
“Depende dele, de vocês, do que vocês sentem”.
Não existem frases mágicas ou protocolos universais para abordar o tema da morte com uma pessoa querida.
Cada história é única, cada família tem seus códigos comunicativos, cada idoso carrega consigo uma vida inteira de experiências que moldaram seu modo de olhar para o fim.
O momento certo para abordar o assunto geralmente se apresenta sozinho.
Raramente é uma conversa planejada, mas sim uma oportunidade que nasce espontaneamente:
uma frase dita pelo seu ente querido, uma pergunta sussurrada, um olhar que se prolonga mais do que o habitual.
Rina, filha de um idoso com câncer em fase avançada, me contou:
Às vezes, são eles mesmos que nos conduzem por esses territórios delicados, usando a linguagem simbólica da qual falamos.
Quando você decide acolher ou abrir esse diálogo, lembre-se de que não precisa ter todas as respostas.
“Não sei, pai” é uma resposta perfeitamente legítima.
“Eu também tenho medo, estou aqui com você vivendo tudo isso” é uma admissão de humanidade que, muitas vezes, aproxima mais do que qualquer tentativa de tranquilização forçada.
A pessoa idosa que sente a aproximação da morte precisa de autenticidade, não de performances otimistas que soam falsas aos seus ouvidos cada vez mais sensíveis.
O poder da presença
A presença física torna-se uma linguagem em si.
Sentar ao lado da cama, segurar uma mão, acariciar uma testa: esses gestos comunicam mais do que mil palavras.
Giovanni, que acompanhou a esposa nos últimos meses, me disse:
“Parei de me preocupar com o que dizer. Eu simplesmente estava ali, e ela sabia.”
O silêncio compartilhado pode ser mais eloquente do que qualquer conversa, especialmente quando os dias se tornam mais difíceis e as palavras começam a faltar.
É natural sentir-se frágil
Gerenciar as próprias emoções enquanto se acompanha alguém em direção à morte é talvez o maior desafio.
É natural sentir-se tomado pela tristeza, pela raiva, pelo medo.
É normal ter dias em que você sente que não vai conseguir, momentos em que gostaria de fugir de uma realidade pesada demais.
Anna, que cuidou da mãe por meses, me confidenciou:
“Algumas manhãs eu acordava pensando: ‘hoje eu não dou conta’.
Depois eu a via e entendia que precisava estar ali.”
Permita-se esses momentos de fragilidade: eles são humanos e compreensíveis.
O importante é não deixá-los se tornar dominantes.
Criar pequenos rituais pode ajudar tanto você quanto a pessoa amada.
Ler juntos, olhar fotos antigas, ouvir a música preferida dela: essas atividades criam pontes de intimidade que transcendem a doença.
É uma forma eficaz de estar com o outro, juntos e no morrer, sem a necessidade de mergulhar na racionalidade de discursos ou explicações específicas.
Luigi, todas as noites, lia para a mãe os obituários do jornal local, porque ela queria saber “quem tinha partido antes dela”.
O que para muitos poderia parecer mórbido era, na verdade, o modo deles falarem sobre a morte, normalizando-a, tornando-a parte da conversa cotidiana.
Não devemos ter medo de pedir ajuda profissional.
Isso não é um fracasso, é um recurso.
A partir de perguntas aparentemente simples como essa (“o pai sente que está morrendo?”), podemos abrir um espaço de reflexão valioso.
Quando percebemos que a situação nos ultrapassa emocionalmente, quando não conseguimos mais nos comunicar de forma eficaz, quando os conflitos familiares se intensificam sob a pressão, precisamos lembrar que todos esses são sinais de que é necessário um apoio externo.
Psicólogos, médicos paliativistas, assistentes espirituais: cada um pode oferecer perspectivas e ferramentas valiosas para navegar por esse período tão delicado.
Lembremo-nos sempre:
não existe uma maneira certa de acompanhar alguém rumo à morte.
Existe apenas a nossa maneira, aquela que nasce da relação única que construímos juntos ao longo dos anos.
Um olhar especial para as ILPI
Nas Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI), o acompanhamento do fim da vida assume contornos ainda mais delicados e, ao mesmo tempo, profundamente humanos. Para muitos residentes, a ILPI não é apenas um local de cuidado, mas se torna a última casa, o espaço onde vínculos significativos são construídos com profissionais, cuidadores e outros residentes.
Nesse contexto, reconhecer que a pessoa idosa pode perceber a proximidade da morte é essencial para oferecer um cuidado verdadeiramente integral. Não se trata apenas de atender às necessidades físicas, mas também de acolher os aspectos emocionais, simbólicos, espirituais e relacionais que emergem nessa fase da vida.
Os profissionais das ILPI: cuidadores, técnicos, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais, médicos e equipes de apoio, etc; exercem um papel fundamental ao legitimar as falas, os silêncios, os medos e as expressões simbólicas do idoso, evitando reduzi-los a “confusão”, “desorientação” ou “sintomas”. Escutar, estar presente e não interromper esses processos internos pode oferecer ao residente algo precioso: a sensação de ser visto e respeitado até o fim.
Criar uma cultura institucional que permita falar sobre a morte com naturalidade, quando a pessoa idosa demonstra essa necessidade, contribui para reduzir o sofrimento emocional, fortalecer vínculos e humanizar o cuidado. Pequenos gestos – sentar ao lado da cama, segurar uma mão, chamar pelo nome, respeitar rituais, facilitar a presença da família quando possível – tornam-se grandes atos de cuidado.
A ILPI pode, assim, transformar-se em um espaço onde o morrer não é negado nem apressado, mas acompanhado com dignidade, presença e autenticidade, reconhecendo que o fim da vida também é parte da vida e merece atenção, respeito e sentido.
Acompanhar uma pessoa idosa em seu processo de morrer, dentro de uma ILPI, é um trabalho coletivo, que exige sensibilidade, formação e apoio emocional às equipes. Cuidar de quem parte também implica cuidar de quem permanece.
Porque, mesmo no final, ou talvez especialmente no final — ninguém deveria estar sozinho.
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