Cuidar de alguém é um gesto que nasce do encontro. Encontro entre histórias, fragilidades, expectativas e afetos. Nas Instituições de Longa Permanência para Idosos, esse encontro acontece todos os dias, muitas vezes de forma silenciosa, em pequenos gestos: um olhar atento, uma mão estendida, uma escuta paciente. É nesse cotidiano, feito de rotinas e desafios, que precisamos nos perguntar, com honestidade e sensibilidade: como estamos cuidando?
Apesar das mudanças culturais e da evolução do setor de ILPI, ainda é, infelizmente, comum nos depararmos com a realidade de algumas instituições que reproduzem modelos antigos, herdados dos antigos asilos. Nesse contexto, ao se tornar moradora de uma instituição, a pessoa idosa passa a ser vista como “institucionalizada”. Esse rótulo, muitas vezes invisível, carrega consigo a perda progressiva da identidade, da voz e da liberdade.
Em muitos cenários, práticas que nasceram como exceção acabaram se tornando parte da rotina, sem que percebamos plenamente o impacto profundo que causam. Entre elas, a contenção física ou farmacológica ocupa um lugar que precisa ser olhado com atenção e responsabilidade.
Quando a Rotina Silencia a Pessoa: Reflexões Sobre a Contenção
Falar sobre contenção é necessário. E não se trata de apontar culpados. Quem trabalha em ILPI sabe o quanto o cuidado pode ser exigente. Jornadas longas, equipes reduzidas, demandas complexas e decisões difíceis fazem parte da realidade diária. Em meio a esse cenário, a contenção pode surgir como uma resposta rápida ao medo, à insegurança ou à sensação de não haver alternativas. Justamente por isso, é tão importante parar e refletir juntos.
Para a pessoa idosa, especialmente aquela que vive com demência, o corpo muitas vezes se torna sua principal forma de comunicação. Um caminhar constante, uma recusa ao banho, uma agitação no fim do dia raramente são “problemas” em si. São mensagens. Podem falar de dor, de saudade, de confusão, de tédio ou de medo. Quando não conseguimos escutar essa linguagem, corremos o risco de silenciar a pessoa em vez de compreendê-la.
A contenção, ainda que bem-intencionada, pode romper algo muito delicado: a relação de confiança entre quem cuida e quem é cuidado. Quando o idoso passa a associar o cuidador ao medo ou à perda de controle, o cuidado se torna mais difícil para todos. Alimentar, higienizar, acompanhar deixam de ser momentos de encontro e passam a ser vividos com tensão. O sofrimento se instala de forma silenciosa, mas persistente
O Impacto Invisível do Cuidado: Idoso, Família e Profissional
Esse sofrimento não atinge apenas o residente. As famílias, muitas vezes, vivem um misto de alívio e culpa ao confiar o cuidado de quem amam a uma instituição. Quando se deparam com práticas que não compreendem totalmente, sentem-se impotentes. Querem proteger, mas não sabem como. Por isso, é fundamental que sejam incluídas no diálogo, informadas e escutadas. Famílias não são adversárias do cuidado; são aliadas essenciais quando acolhidas com respeito.
Há também o impacto sobre o profissional. Pouco se fala sobre o peso emocional que determinadas práticas podem gerar em quem cuida. Muitos escolheram essa profissão movidos pelo desejo de ajudar, aliviar o sofrimento e fazer a diferença. Quando se veem repetidamente diante de ações que entram em conflito com seus valores, algo se desgasta por dentro. Surge o cansaço, o endurecimento emocional, a perda do sentido. Cuidar não deveria adoecer quem cuida.
Outros Caminhos Possíveis
Felizmente, existem outros caminhos. Em muitas instituições, pequenas mudanças têm produzido grandes transformações. Conhecer a história de vida do residente, respeitar seus horários e ritmos, adaptar o ambiente, oferecer atividades com sentido, ajustar a forma de comunicação — nada disso exige grandes investimentos financeiros. Exige, sobretudo, disponibilidade para enxergar a pessoa para além do diagnóstico.
Quando uma equipe passa a se perguntar: “o que essa pessoa está tentando me dizer?”, algo muda. O cuidado se torna mais atento, mais criativo, mais humano. A contenção deixa de ser a primeira opção e passa a ser questionada. E, muitas vezes, deixa de ser necessária.
A legislação brasileira e as diretrizes sanitárias caminham nessa mesma direção: a contenção deve ser exceção, nunca regra. Mas, mais do que cumprir normas, trata-se de assumir um compromisso ético com a dignidade humana. Cada pessoa idosa carrega uma vida inteira de histórias, afetos, conquistas e perdas. Mesmo quando a memória falha, essa essência permanece.
A Revista Cuidar, juntamente com centenas de profissionais do setor do envelhecimento — nacionais e internacionais — acredita e vivencia que muitas ILPI são, sim, espaços de vida, de vínculo e de respeito. Lugares onde o cuidado não se limita a manter o corpo seguro, mas se estende à preservação da identidade, da autonomia possível e do sentido de existir. Isso não significa negar as dificuldades, mas enfrentá-las com humanidade, responsabilidade e compromisso ético.
Talvez a pergunta mais importante que possamos nos fazer seja simples e profunda: se um dia fôssemos nós a precisar de cuidado, como gostaríamos de ser tratados? A resposta a essa pergunta pode orientar escolhas, transformar práticas e reacender o sentido do cuidar.
Cuidar é mais do que conter.
Cuidar é reconhecer a pessoa que existe ali, todos os dias, mesmo quando ela já não consegue dizer quem é.
E esse reconhecimento começa em cada gesto, em cada decisão, em cada encontro.
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2 Comments
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Perfeito
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Muito bom mesmo, precisamos parar e entender os gestos e movimentos que a pessoa idosa tenta passar, para cuidar de maneira humanizada.











Perfeito
Muito bom mesmo, precisamos parar e entender os gestos e movimentos que a pessoa idosa tenta passar, para cuidar de maneira humanizada.