- A queda como evento crítico: não apenas clínico, mas cultural
- O paradoxo da contenção: quando “proteger” se torna um risco
- Quedas previsíveis e não previsíveis: o que podemos controlar?
- A avaliação fisioterapêutica é fundamental, mas não basta
- Movimento não é academia: é vida 24 horas por dia
- Quando um residente cai, quase sempre se ativa um mecanismo defensivo
- Responsabilidade sistêmica: quando um residente cai, é uma questão de equipe
- O verdadeiro indicador não é “zero quedas”
- A família faz parte da tripulação
- A partir de amanhã: o que podemos fazer concretamente?
- E a tecnologia? Uma aliada, não um atalho
- Quando uma pessoa idosa cai, a ILPI tem uma escolha
Por: Ana Gaburri – Letizia Espanoli– Sente-mente® modelo.
Artigo traduzido por: Aline Salla – autorizado para Revista Cuidar®
Quando uma pessoa idosa cai, surge medo. Um medo grande, muitas vezes silencioso, que percorre os corredores das ILPI e chega até os escritórios da direção. Dá medo porque coloca em discussão a segurança, a competência, a imagem da organização. Dá medo porque, logo depois, chega a pergunta que pesa mais do que a própria queda: “de quem é a culpa?”
E assim, com muita frequência, a queda não se transforma em uma oportunidade de aprendizagem, mas em um processo de busca pelo responsável. Um nome para escrever em uma ata. Uma pessoa sobre quem descarregar o peso.
No entanto, se queremos realmente falar de qualidade do cuidado, precisamos mudar de perspectiva.
Precisamos ter a coragem de dizer com clareza: quando um idoso cai, não é apenas a pessoa que perde o equilíbrio. É a organização que o perde.
“Cada queda é uma fissura na confiança: não se repara procurando um culpado, mas reconstruindo juntos as condições de segurança e dignidade.”
A queda como evento crítico: não apenas clínico, mas cultural
A queda nunca é apenas um fato acidental. É um evento que revela algo: da pessoa, do seu corpo, da sua fragilidade… mas também do contexto que a cerca.
Um residente cai porque:
-
perdeu força e estabilidade;
-
sente dor ou apresenta instabilidade postural;
-
está desorientado;
-
tem uma urgência súbita;
-
o ambiente não é seguro;
-
ninguém interceptou um sinal precoce;
-
a rotina não sustentou suficientemente a autonomia e o movimento.
Portanto, a queda não é apenas um “acidente”. É um indicador. E, como todo indicador, pede que observemos o sistema.
O paradoxo da contenção: quando “proteger” se torna um risco
Quando um residente cai, a reação mais instintiva costuma ser “colocá-lo em segurança” por meio da contenção, física ou farmacológica.
É compreensível: o medo leva ao controle. Mas a literatura é clara: a contenção não previne quedas e muitas vezes aumenta sua gravidade.
Uma pessoa contida pode tentar se levantar mesmo assim, talvez à noite, talvez com urgência de ir ao banheiro. E a tentativa de ultrapassar uma grade ou se soltar de um cinto muda completamente a dinâmica da queda.
Uma queda que acontece quando a pessoa já está com os pés no chão, muitas vezes é menos perigosa do que uma queda que acontece durante um movimento forçado, desorganizado, “contra” uma restrição.
O resultado é um paradoxo cruel: a contenção é aplicada para evitar a queda, mas pode aumentar o risco de quedas mais graves.
E então a pergunta se torna inevitável:
estamos realmente protegendo… ou estamos apenas protegendo a nossa ansiedade?
Quedas previsíveis e não previsíveis: o que podemos controlar?
A literatura distingue entre:
Quedas não previsíveis
São aquelas ligadas a eventos clínicos súbitos: síncope, AVC, crises agudas, mal-estares repentinos. Quedas cujo momento exato não podemos prever.
Mas atenção: mesmo nesses casos podemos adotar uma prevenção inteligente.
Por exemplo:
-
elevar gradualmente a cabeceira antes de colocar a pessoa sentada;
-
favorecer uma passagem lenta para a posição em pé;
-
observar sinais de instabilidade ou mudanças em relação ao padrão habitual do residente;
-
identificar precocemente dor, infecções, desidratação, alterações da pressão.
A queda não previsível não é controlável em 100%, mas pode se tornar menos provável e menos grave se a equipe tiver instrumentos de observação e uma cultura de atenção.
Quedas previsíveis
Estão ligadas a fatores ambientais e organizacionais:
-
iluminação insuficiente;
-
obstáculos, pisos escorregadios;
-
dispositivos de auxílio indisponíveis ou inadequados;
-
calçados inadequados;
-
ausência de supervisão nos momentos críticos do dia.
E também aos fatores intrínsecos da pessoa:
-
déficits visuais;
-
perda de força;
-
instabilidade postural;
-
uso de medicamentos;
-
desorientação.
Nesses casos, a prevenção não é um “extra”: é responsabilidade direta da organização.
A avaliação fisioterapêutica é fundamental, mas não basta
Uma avaliação fisioterapêutica completa, atualizada e contextualizada é essencial para compreender:
-
quais habilidades motoras estão presentes;
-
quais são os riscos;
-
quais estratégias e dispositivos são indicados;
-
quais movimentos devem ser sustentados e treinados.
Mas há um ponto crucial que muitas vezes ignoramos.
Não basta ver como uma pessoa se movimenta com o fisioterapeuta se, nas outras 23 horas, essa mesma pessoa permanece imóvel em uma cadeira de rodas ou na cama.
Porque o corpo perde aquilo que não usa.
E a pessoa idosa que mora em uma ILPI muitas vezes vive em um contexto que reduz drasticamente as oportunidades de se mover. O movimento não é um momento isolado: é uma continuidade.
Movimento não é academia: é vida 24 horas por dia
As diretrizes internacionais nos lembram que a atividade física é um fator protetor tanto contra a síndrome da imobilidade quanto na prevenção de quedas.
Mas aqui é necessário um salto cultural.
O movimento não coincide com a ginástica em grupo.
Não coincide com a atividade programada duas vezes por semana.
Não coincide com “hoje tem fisioterapia”.
O movimento é um direito cotidiano.
É uma forma de habitar o próprio corpo e o próprio tempo.
Se a organização estrutura turnos, ritmos e procedimentos que levam os profissionais a fazer tudo no lugar do residente, então o declínio funcional se torna inevitável. E, com ele, aumentam as quedas.
A pergunta, portanto, não deveria ser:
“Quantas quedas tivemos?”
Mas sim:
-
“Quantas oportunidades de movimento oferecemos?”
-
“Quanto sustentamos a autonomia?”
Quando um residente cai, quase sempre se ativa um mecanismo defensivo
Perguntar “de quem é a culpa?” é a pergunta errada — e a ela se ligam outras:
-
quem estava de plantão?
-
quem deveria ter verificado?
-
quem preencheu a ficha errado?
-
quem não seguiu o protocolo?
Esse tipo de abordagem cria medo, rigidez e silêncio.
E quando uma organização trabalha com medo, ela não cresce: ela se endurece.
A queda passa a ser um “erro” a ser escondido, e não um fenômeno a ser compreendido.
Por isso, sim: “de quem é a culpa?” é a pergunta errada.
Porque as quedas quase nunca são responsabilidade de uma única pessoa.
Quase sempre são um evento sistêmico.
Responsabilidade sistêmica: quando um residente cai, é uma questão de equipe
Prevenir quedas não é tarefa de um único profissional. É uma responsabilidade distribuída, integrada e compartilhada.
É aqui que a ILPI realmente se torna uma equipe:
-
a direção tem a tarefa de criar um contexto em que não se aponta o dedo, mas se analisam processos. Um contexto em que o erro se torna aprendizagem, e não culpabilização;
-
o coordenador/responsável técnico tem o papel-chave de monitorar os processos organizacionais: escalas, rotinas, tempos assistenciais, continuidade dos planos de prevenção, comunicação entre profissionais;
-
a equipe de enfermagem tem a tarefa de identificar precocemente fatores clínicos de risco: dor, desidratação, infecções, efeitos colaterais de medicamentos, hipotensão, alterações cognitivas;
-
o fisioterapeuta tem o papel de valorizar as habilidades existentes, definir estratégias de mobilização segura e produzir indicações operacionais concretas para toda a equipe;
-
os cuidadores e técnicos de enfermagem são o coração da prevenção cotidiana: presença, relação, observação contínua. São eles que podem apoiar o residente a expressar seu máximo potencial motor, sinalizando rapidamente mudanças e fragilidades emergentes.
O verdadeiro indicador não é “zero quedas”
Uma ILPI sem quedas não é automaticamente uma ILPI de qualidade.
Porque pode ser uma ILPI em que:
-
todos estão contidos;
-
todos estão imobilizados;
-
todos estão sedados;
-
todos estão “seguros” porque não podem se mover.
Mas isso não é segurança. É renúncia.
Se nossa estratégia para prevenir quedas em pessoas com demência é amarrá-las a uma cadeira ou bloqueá-las na cama, precisamos dizer com honestidade:
não estamos promovendo qualidade de vida.
Estamos apenas limitando a vida.
A verdadeira pergunta é:
estamos criando um ambiente que sustenta liberdade e dignidade, ou estamos escolhendo o caminho mais fácil para reduzir o risco legal e organizacional?
A família faz parte da tripulação
Em uma cultura de responsabilidade sistêmica, a família também faz parte do processo. Ela deve ser informada, envolvida e acompanhada.
Porque muitas vezes os familiares também pedem:
“contenham, assim ele não cai”, movidos pelo medo.
A responsabilidade da equipe é construir uma aliança educativa, explicando que prevenir quedas não significa reduzir a liberdade, mas construir um contexto mais competente.
A partir de amanhã: o que podemos fazer concretamente?
Se queremos realmente passar da culpa para a responsabilidade sistêmica, podemos começar com ações simples e poderosas.
Medir, sim — mas medir bem:
-
percentual de contenções físicas e farmacológicas;
-
número de quedas;
-
locais das quedas;
-
horários e momentos do dia;
-
atividade em curso no momento da queda;
-
perfil das pessoas envolvidas.
Mas, sobretudo, começar a fazer novas perguntas:
-
qual é a história de vida do residente?
-
quais hábitos de movimento ele tinha?
-
quais movimentos o fazem sentir-se vivo e ativo?
-
que tipo de movimento pode ser integrado ao seu dia?
-
quanto tempo ele passa sentado ou na cama?
-
quais micro-oportunidades diárias podemos criar para manter força e equilíbrio?
-
o residente foi escutado? O que ele deseja?
-
a família realmente compreende o sentido das escolhas assistenciais?
E a tecnologia? Uma aliada, não um atalho
As novas tecnologias podem se tornar um apoio importante.
Sistemas inteligentes de monitoramento — como sensores de movimento e dispositivos preditivos — podem ajudar especialmente durante a noite ou em momentos em que a equipe não pode estar presente em todos os lugares ao mesmo tempo.
A tecnologia pode aumentar a segurança, mas não deve substituir a cultura.
Deve estar a serviço da relação, e não no lugar da relação.
Quando uma pessoa idosa cai, a ILPI tem uma escolha
Cada queda é um evento que nos questiona.
E diante desse evento, a organização tem dois caminhos:
-
procurar o culpado;
-
ou procurar o sentido.
O primeiro caminho gera medo.
O segundo gera competência.
Porque prevenir quedas não significa eliminar o risco ao custo da liberdade.
Significa construir um sistema capaz de manter equilíbrio:
-
entre proteção e dignidade,
-
entre segurança e autonomia,
-
entre controle e confiança.
E então, sim, podemos dizer com força:
quando uma pessoa idosa cai, não é apenas a pessoa que perde o equilíbrio.
É a organização que precisa aprender a reencontrá-lo.

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As ILPI serão cada vez mais essenciais para a sociedade.
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Eventos e Cultura
- A queda como evento crítico: não apenas clínico, mas cultural
- O paradoxo da contenção: quando “proteger” se torna um risco
- Quedas previsíveis e não previsíveis: o que podemos controlar?
- A avaliação fisioterapêutica é fundamental, mas não basta
- Movimento não é academia: é vida 24 horas por dia
- Quando um residente cai, quase sempre se ativa um mecanismo defensivo
- Responsabilidade sistêmica: quando um residente cai, é uma questão de equipe
- O verdadeiro indicador não é “zero quedas”
- A família faz parte da tripulação
- A partir de amanhã: o que podemos fazer concretamente?
- E a tecnologia? Uma aliada, não um atalho
- Quando uma pessoa idosa cai, a ILPI tem uma escolha
Por: Ana Gaburri – Letizia Espanoli– Sente-mente® modelo.
Artigo traduzido por: Aline Salla – autorizado para Revista Cuidar®
Quando uma pessoa idosa cai, surge medo. Um medo grande, muitas vezes silencioso, que percorre os corredores das ILPI e chega até os escritórios da direção. Dá medo porque coloca em discussão a segurança, a competência, a imagem da organização. Dá medo porque, logo depois, chega a pergunta que pesa mais do que a própria queda: “de quem é a culpa?”
E assim, com muita frequência, a queda não se transforma em uma oportunidade de aprendizagem, mas em um processo de busca pelo responsável. Um nome para escrever em uma ata. Uma pessoa sobre quem descarregar o peso.
No entanto, se queremos realmente falar de qualidade do cuidado, precisamos mudar de perspectiva.
Precisamos ter a coragem de dizer com clareza: quando um idoso cai, não é apenas a pessoa que perde o equilíbrio. É a organização que o perde.
“Cada queda é uma fissura na confiança: não se repara procurando um culpado, mas reconstruindo juntos as condições de segurança e dignidade.”
A queda como evento crítico: não apenas clínico, mas cultural
A queda nunca é apenas um fato acidental. É um evento que revela algo: da pessoa, do seu corpo, da sua fragilidade… mas também do contexto que a cerca.
Um residente cai porque:
-
perdeu força e estabilidade;
-
sente dor ou apresenta instabilidade postural;
-
está desorientado;
-
tem uma urgência súbita;
-
o ambiente não é seguro;
-
ninguém interceptou um sinal precoce;
-
a rotina não sustentou suficientemente a autonomia e o movimento.
Portanto, a queda não é apenas um “acidente”. É um indicador. E, como todo indicador, pede que observemos o sistema.
O paradoxo da contenção: quando “proteger” se torna um risco
Quando um residente cai, a reação mais instintiva costuma ser “colocá-lo em segurança” por meio da contenção, física ou farmacológica.
É compreensível: o medo leva ao controle. Mas a literatura é clara: a contenção não previne quedas e muitas vezes aumenta sua gravidade.
Uma pessoa contida pode tentar se levantar mesmo assim, talvez à noite, talvez com urgência de ir ao banheiro. E a tentativa de ultrapassar uma grade ou se soltar de um cinto muda completamente a dinâmica da queda.
Uma queda que acontece quando a pessoa já está com os pés no chão, muitas vezes é menos perigosa do que uma queda que acontece durante um movimento forçado, desorganizado, “contra” uma restrição.
O resultado é um paradoxo cruel: a contenção é aplicada para evitar a queda, mas pode aumentar o risco de quedas mais graves.
E então a pergunta se torna inevitável:
estamos realmente protegendo… ou estamos apenas protegendo a nossa ansiedade?
Quedas previsíveis e não previsíveis: o que podemos controlar?
A literatura distingue entre:
Quedas não previsíveis
São aquelas ligadas a eventos clínicos súbitos: síncope, AVC, crises agudas, mal-estares repentinos. Quedas cujo momento exato não podemos prever.
Mas atenção: mesmo nesses casos podemos adotar uma prevenção inteligente.
Por exemplo:
-
elevar gradualmente a cabeceira antes de colocar a pessoa sentada;
-
favorecer uma passagem lenta para a posição em pé;
-
observar sinais de instabilidade ou mudanças em relação ao padrão habitual do residente;
-
identificar precocemente dor, infecções, desidratação, alterações da pressão.
A queda não previsível não é controlável em 100%, mas pode se tornar menos provável e menos grave se a equipe tiver instrumentos de observação e uma cultura de atenção.
Quedas previsíveis
Estão ligadas a fatores ambientais e organizacionais:
-
iluminação insuficiente;
-
obstáculos, pisos escorregadios;
-
dispositivos de auxílio indisponíveis ou inadequados;
-
calçados inadequados;
-
ausência de supervisão nos momentos críticos do dia.
E também aos fatores intrínsecos da pessoa:
-
déficits visuais;
-
perda de força;
-
instabilidade postural;
-
uso de medicamentos;
-
desorientação.
Nesses casos, a prevenção não é um “extra”: é responsabilidade direta da organização.
A avaliação fisioterapêutica é fundamental, mas não basta
Uma avaliação fisioterapêutica completa, atualizada e contextualizada é essencial para compreender:
-
quais habilidades motoras estão presentes;
-
quais são os riscos;
-
quais estratégias e dispositivos são indicados;
-
quais movimentos devem ser sustentados e treinados.
Mas há um ponto crucial que muitas vezes ignoramos.
Não basta ver como uma pessoa se movimenta com o fisioterapeuta se, nas outras 23 horas, essa mesma pessoa permanece imóvel em uma cadeira de rodas ou na cama.
Porque o corpo perde aquilo que não usa.
E a pessoa idosa que mora em uma ILPI muitas vezes vive em um contexto que reduz drasticamente as oportunidades de se mover. O movimento não é um momento isolado: é uma continuidade.
Movimento não é academia: é vida 24 horas por dia
As diretrizes internacionais nos lembram que a atividade física é um fator protetor tanto contra a síndrome da imobilidade quanto na prevenção de quedas.
Mas aqui é necessário um salto cultural.
O movimento não coincide com a ginástica em grupo.
Não coincide com a atividade programada duas vezes por semana.
Não coincide com “hoje tem fisioterapia”.
O movimento é um direito cotidiano.
É uma forma de habitar o próprio corpo e o próprio tempo.
Se a organização estrutura turnos, ritmos e procedimentos que levam os profissionais a fazer tudo no lugar do residente, então o declínio funcional se torna inevitável. E, com ele, aumentam as quedas.
A pergunta, portanto, não deveria ser:
“Quantas quedas tivemos?”
Mas sim:
-
“Quantas oportunidades de movimento oferecemos?”
-
“Quanto sustentamos a autonomia?”
Quando um residente cai, quase sempre se ativa um mecanismo defensivo
Perguntar “de quem é a culpa?” é a pergunta errada — e a ela se ligam outras:
-
quem estava de plantão?
-
quem deveria ter verificado?
-
quem preencheu a ficha errado?
-
quem não seguiu o protocolo?
Esse tipo de abordagem cria medo, rigidez e silêncio.
E quando uma organização trabalha com medo, ela não cresce: ela se endurece.
A queda passa a ser um “erro” a ser escondido, e não um fenômeno a ser compreendido.
Por isso, sim: “de quem é a culpa?” é a pergunta errada.
Porque as quedas quase nunca são responsabilidade de uma única pessoa.
Quase sempre são um evento sistêmico.
Responsabilidade sistêmica: quando um residente cai, é uma questão de equipe
Prevenir quedas não é tarefa de um único profissional. É uma responsabilidade distribuída, integrada e compartilhada.
É aqui que a ILPI realmente se torna uma equipe:
-
a direção tem a tarefa de criar um contexto em que não se aponta o dedo, mas se analisam processos. Um contexto em que o erro se torna aprendizagem, e não culpabilização;
-
o coordenador/responsável técnico tem o papel-chave de monitorar os processos organizacionais: escalas, rotinas, tempos assistenciais, continuidade dos planos de prevenção, comunicação entre profissionais;
-
a equipe de enfermagem tem a tarefa de identificar precocemente fatores clínicos de risco: dor, desidratação, infecções, efeitos colaterais de medicamentos, hipotensão, alterações cognitivas;
-
o fisioterapeuta tem o papel de valorizar as habilidades existentes, definir estratégias de mobilização segura e produzir indicações operacionais concretas para toda a equipe;
-
os cuidadores e técnicos de enfermagem são o coração da prevenção cotidiana: presença, relação, observação contínua. São eles que podem apoiar o residente a expressar seu máximo potencial motor, sinalizando rapidamente mudanças e fragilidades emergentes.
O verdadeiro indicador não é “zero quedas”
Uma ILPI sem quedas não é automaticamente uma ILPI de qualidade.
Porque pode ser uma ILPI em que:
-
todos estão contidos;
-
todos estão imobilizados;
-
todos estão sedados;
-
todos estão “seguros” porque não podem se mover.
Mas isso não é segurança. É renúncia.
Se nossa estratégia para prevenir quedas em pessoas com demência é amarrá-las a uma cadeira ou bloqueá-las na cama, precisamos dizer com honestidade:
não estamos promovendo qualidade de vida.
Estamos apenas limitando a vida.
A verdadeira pergunta é:
estamos criando um ambiente que sustenta liberdade e dignidade, ou estamos escolhendo o caminho mais fácil para reduzir o risco legal e organizacional?
A família faz parte da tripulação
Em uma cultura de responsabilidade sistêmica, a família também faz parte do processo. Ela deve ser informada, envolvida e acompanhada.
Porque muitas vezes os familiares também pedem:
“contenham, assim ele não cai”, movidos pelo medo.
A responsabilidade da equipe é construir uma aliança educativa, explicando que prevenir quedas não significa reduzir a liberdade, mas construir um contexto mais competente.
A partir de amanhã: o que podemos fazer concretamente?
Se queremos realmente passar da culpa para a responsabilidade sistêmica, podemos começar com ações simples e poderosas.
Medir, sim — mas medir bem:
-
percentual de contenções físicas e farmacológicas;
-
número de quedas;
-
locais das quedas;
-
horários e momentos do dia;
-
atividade em curso no momento da queda;
-
perfil das pessoas envolvidas.
Mas, sobretudo, começar a fazer novas perguntas:
-
qual é a história de vida do residente?
-
quais hábitos de movimento ele tinha?
-
quais movimentos o fazem sentir-se vivo e ativo?
-
que tipo de movimento pode ser integrado ao seu dia?
-
quanto tempo ele passa sentado ou na cama?
-
quais micro-oportunidades diárias podemos criar para manter força e equilíbrio?
-
o residente foi escutado? O que ele deseja?
-
a família realmente compreende o sentido das escolhas assistenciais?
E a tecnologia? Uma aliada, não um atalho
As novas tecnologias podem se tornar um apoio importante.
Sistemas inteligentes de monitoramento — como sensores de movimento e dispositivos preditivos — podem ajudar especialmente durante a noite ou em momentos em que a equipe não pode estar presente em todos os lugares ao mesmo tempo.
A tecnologia pode aumentar a segurança, mas não deve substituir a cultura.
Deve estar a serviço da relação, e não no lugar da relação.
Quando uma pessoa idosa cai, a ILPI tem uma escolha
Cada queda é um evento que nos questiona.
E diante desse evento, a organização tem dois caminhos:
-
procurar o culpado;
-
ou procurar o sentido.
O primeiro caminho gera medo.
O segundo gera competência.
Porque prevenir quedas não significa eliminar o risco ao custo da liberdade.
Significa construir um sistema capaz de manter equilíbrio:
-
entre proteção e dignidade,
-
entre segurança e autonomia,
-
entre controle e confiança.
E então, sim, podemos dizer com força:
quando uma pessoa idosa cai, não é apenas a pessoa que perde o equilíbrio.
É a organização que precisa aprender a reencontrá-lo.

Preparados para dois dias de muitos aprendizados, trocas de informações e boas práticas?
Está chegando pela primeira vez ao Brasil o MPC – Meeting dos Profissionais de Cuidar, um encontro nacional com professores e especialistas nacionais e internacionais que trará conteúdos importantes para a formação de gestores e equipes no cotidiano das instituições.
Cada participante receberá 12 horas de formação totalmente participativa.
As ILPI serão cada vez mais essenciais para a sociedade.
E fortalecer quem cuida talvez seja uma das decisões mais estratégicas que uma instituição pode tomar hoje.
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Lote 1 promocional encerra dia 24 de março.
Desconto especial para grupos de 3 pessoas ou mais da mesma instituição.
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