Autora: Francesca Poletti – Revista Cura – Itália
Tradução autorizada para a Revista Cuidar  – Brasil.

Nota editorial

Embora a experiência relatada neste artigo aconteça no contexto domiciliar, as situações descritas atravessam o cotidiano das Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI).

A recusa durante o cuidado íntimo, as reações de agressividade, os dilemas entre segurança e autonomia e a tensão entre tempo institucional e tempo da pessoa são desafios frequentes nas equipes.

A narrativa, construída a partir de três pontos de vista, convida o leitor a ampliar o olhar. Mais do que buscar soluções imediatas, propõe uma reflexão sobre o modo como o cuidado é oferecido, sobre a centralidade da pessoa e sobre o impacto das pequenas escolhas no vínculo e na qualidade da assistência.

A leitura pode ser entendida como um exercício de prática reflexiva, fundamental para equipes que atuam em contextos complexos e altamente demandantes como as ILPI.

O que fazer se a pessoa idosa recusa a higiene?

Quanta complexidade e quantas nuances se escondem por trás de uma reação agressiva e hostil que temos dificuldade em interpretar?

Mais uma vez, a escrita delicada e profunda de Francesca Poletti, coordenadora do serviço domiciliar da Cooperativa G. Di Vittorio, nos convida a considerar todos os pontos de vista envolvidos, oferecendo-nos uma história a três vozes, na qual a atenção aos detalhes e ao percurso do cuidado é muito mais importante do que qualquer resultado, pequeno ou grande, que nos propomos alcançar.

Associação Cuidadosa

Olhar de vários ângulos

Acontece com frequência de eu me angustiar com os dilemas éticos que encontro, que me sufocam e me fazem perder a clareza. Como se, de um lado, estivesse a equipe que coordeno, do outro a família e, no meio, a pessoa. De um lado as normas de segurança, do outro as vontades individuais.

Pergunto-me se sou eu que equilibro tudo isso ou se, no fim, acabo sempre pendendo para um lado.

Hoje não tenho vontade de olhar para isso assim. Sinto que essa visão parcial está me tirando profundidade, como se me roubasse uma parte da história.

Acho que, para entender realmente o que se sente, mas sobretudo para compreender qual é a melhor decisão em uma situação difícil, preciso olhar com outros olhos.

Não devo apenas tentar me colocar no lugar do outro, mas observar e falar a partir de outro ângulo, talvez de vários.

Assim, para contar esta história, começarei tentando usar os óculos de uma filha, cuidadora (Carepartner – Parceiro de Cuidados) de sua mãe.

Quando a pessoa idosa recusa a higiene

Sou filha de uma senhora idosa, não muito magra, porque comer talvez tenha permanecido como um dos seus poucos prazeres.

Felizmente, meu trabalho me permite estar ao lado dela há anos. Há 10 anos ela recebeu diagnóstico de declínio cognitivo.

Há dois anos minha mãe não caminha mais, não se levanta sem ajuda.

Os poucos passos que ainda dá são apenas para ir ao banheiro, sempre com duas pessoas, eu e sua amiga de jogos de cartas, que ainda nos ajuda.

Esse esforço para levá-la ao banheiro talvez seja mais uma vontade minha de mantê-la ativa, de não deixá-la se apagar.

Não sou inexperiente, sou médica, mas há uma grande diferença entre trabalhar no hospital e cuidar de quem sempre cuidou de mim. É como se eu esquecesse como fazer, como se eu mesma me sentisse perdida.

Minha mãe dorme em uma cama com encosto ajustável, na própria casa, colocada na entrada. Assim consegue ver todos, mesmo falando pouco.

Está quase sempre serena, exceto quando fazemos a higiene. Nesse momento surgem mordidas, beliscões, gritos e choros.

Não aguento mais. Não tenho mais vida e o tempo com ela está se tornando difícil.

Decido procurar o serviço social para pedir ajuda.

A passagem para a cama hospitalar

É feita uma visita domiciliar. Conheço a coordenadora do serviço, muito gentil, mas que me diz algumas coisas difíceis de aceitar.

Não poderá ser sempre a mesma pessoa, haverá revezamento, o que garante continuidade. E, no momento da higiene, sendo tão difícil, será preciso tempo e paciência.

Começamos.

Depois de quatro ou cinco visitas, admito que foram praticamente as mesmas pessoas que vieram.

Elas se comunicam entre si, mas algo me prende ali, não consigo me desligar.

Elas fazem o trabalho e eu sei o que pensam, o que depois dizem com cuidado, é preciso uma cama hospitalar.

A amiga de longa data não consegue ajudar de forma eficaz. Não podem segurar minha mãe para contê-la, isso seria contenção.

Depois vão embora e eu fico pensando em quando faremos a higiene.

Será que acham que eu gosto de segurá-la à força para mantê-la limpa?

Reconheço o esforço. Testam estratégias, a coordenadora me liga, tentam soluções criativas. Trazem objetos sensoriais, que minha mãe rejeita. Mantêm-na coberta, cuidam do conforto, da temperatura e da privacidade.

Mas sinto que, no fundo, querem trabalhar com segurança.

Param de levá-la ao banheiro porque o espaço é pequeno.

Para mim, aquele espaço pequeno era uma forma de proteção, se ela caísse não iria longe.

Passam a usar o elevador de transferência. Tudo bem, ele já estava ali.

Assim, deixam de fazer aqueles poucos passos até o banheiro. A higiene passa a ser feita na cama, que é mais segura.

Dizem que assim é possível observar melhor a pele. Têm razão, certamente.

Pergunto-me por que a cama hospitalar. O que muda para minha mãe, que adora ficar encolhida na própria cama?

Claro, muda para eles a movimentação.

A coordenadora me tranquiliza, diz que a decisão é minha, que não impõem nada.

Mas penso que, se eu não decidir, talvez deixem de vir. Eu preciso deles.

A cama não tem rodas. Se eu a encostar na parede, talvez não consigam movê-la.

Decido reorganizar a casa, levar minha mãe para o quarto, porque é a única alternativa possível. Pelo menos ali haverá espaço.

Dizem que será melhor para ela, assim poderá ver o que fazem. Insistem muito nisso.

A cama chega. Minha mãe vai para lá.

As dúvidas de uma filha

O serviço continua.

Agora conseguem trabalhar, não me chamam mais fora de horário. Às vezes consigo não estar presente e quase me sinto de mais.

Mas minha mãe ainda chora e não quer ser tocada.

Eu confio e penso que também essa dor vai passar. Quem sabe encontrem uma estratégia, como dizem, para abrir uma brecha.

Hoje só sei isto. Pedi ajuda e encontrei exigências. Minha mãe antes via a magnólia e agora vê um muro. Antes bastava abrir a porta e ela estava ali, como quando eu saía da escola e a via esperando por mim.

Agora a encontro distante, em um quarto no fundo do corredor onde antes só dormia.

Às vezes tenho medo de esquecê-la.

Como médica, digo a mim mesma que tudo foi feito corretamente, que fiz bem ao usar equipamentos e técnicas seguras.

Que havia risco e eu a coloquei na cama.

Como filha, não sei.

O que eu teria desejado? Talvez algo que não serviria para nada. Tempo, paciência, calma, lentidão, empatia total.

Ou talvez algo que teria servido a mim, para que eu mesma, aos poucos, encontrasse a nossa solução.

O que fazer se a pessoa idosa recusa a higiene

Um dia, por acaso, estou na sala lendo. Os cuidadores estão no quarto e não ouço minha mãe reclamar no momento da higiene íntima.

Confesso que vou espiar.

Vejo que se sentaram à altura dos olhos dela, ambos os cuidadores, que agora trabalham em dupla. Estão ali, olham para ela e falam com ela. Param a cada gesto; explicam tudo o que vão fazer; colocam a música dela, uma vez comentei que gostava de Ranieri, e cantam com ela.

Nunca falam entre si.

Uma delas espreme a esponja, depois me explicará que é para que ela não sinta a água escorrendo. Toques delicados, olhos nos olhos, não a expõem na intimidade, nem desviam o olhar para conversar entre si.

No centro está ela, minha mãe, e não mais os medos dela ou os nossos.

Ela não precisa ser contida, ela se apoia neles, como se quisesse. Quando é virada de lado, parece abraçar a cuidadora que eu não tinha compreendido, eu também tão concentrada nos meus medos.

Minha mãe não chorou. Na próxima vez vou fazer como eles.

Por enquanto, porém, não digo nada: ainda quero ser a filha que sabe o que é melhor para a própria mãe.

Agora, porém, confio neles. Reconheço neles um ponto de referência para mim, mesmo que ainda seja difícil admitir.

O ponto de vista do cuidador

Chego e encontro Manila dormindo profundamente, mas preciso acordá-la, tenho 50 minutos.

Assim que começo a higiene, ela chora, grita, morde, me dá alguns beliscões.

Sinto-me frustrada, inadequada, incompetente.

Impotente.

Além disso, sinto dor nas costas, a cama é muito baixa.

Penso no que posso fazer. Penso nisso até em casa, não consigo desligar.

Falo com ela em voz baixa, uso música, explico o que vou fazer, digo que será rápido.

Converso com as colegas, mantenho a parte superior do corpo coberta.

Não consigo. Sinto-me profundamente inútil e quase obcecada por alcançar um objetivo que nunca chega.

É preciso o leito hospitalar, penso, falo com a filha.

Pelo menos isso podemos tentar resolver.

Um dia, por acaso, decido deixar do lado de fora da porta meus medos e minha insistência na segurança. Hoje quero simplesmente estar bem. Tenho uma colega muito competente, tento confiar nela e em mim.

Em vez de pensar no que falta, penso no que tenho: a vontade de Manila, minha motivação, minha profissionalidade.

Tocamos com delicadeza, explicamos cada gesto, usamos um ritmo lento, confio em mim.

Hoje foi um bom dia. Levo só isso comigo, e considero algo enorme.

O ponto de vista da coordenadora

Percebi logo que seria um atendimento estimulante, emocionante e difícil.

Diante das primeiras dificuldades, incentivo a reflexão, tentando deslocar o foco do pensamento recorrente, a segurança, para a qualidade do cuidado, que na verdade caminham juntas.

Buscamos estratégias.

Sinto-me desanimada quando preciso orientar a filha a solicitar o leito, porque sinto que devo fazê-lo.

Forneço todas as informações, as medidas, mas algo não me convence.

Paro tudo.

A orientação à equipe agora é outra: calma, vamos parar, dar tempo, estamos pressionando demais. A filha agora tem todos os elementos para decidir.

Acredito que essa obsessão pelo resultado, no curto ou no longo prazo, esteja nos desgastando lentamente. O processo de observação é mais importante e mais valioso ao longo do tempo. Então decido não fugir, permanecer, e pensar que, cedo ou tarde, talvez por acaso e não por estratégia, encontraremos uma forma simples e não triste de estar com essa senhora.

Com um rodízio equilibrado, com paciência, lembrando que estamos presentes apenas 3 horas das 168 da semana, podemos buscar um equilíbrio.

Um equilíbrio que salve quem?

Todos nós, do risco de deixar de sentir, focados apenas em alcançar um objetivo distante e mensurável.

Hoje, finalmente, eu acredito. Eu confio.

Box | Para a prática em ILPI: manejo da recusa de higiene

1. Reconheça a recusa como forma de comunicação
A resistência ao cuidado raramente é “teimosia”. Pode indicar dor, medo, desconforto, vergonha ou dificuldade de compreensão. Antes de agir, observe e interprete.

2. Priorize abordagem relacional antes da técnica
Sentar-se à altura dos olhos, chamar pelo nome, explicar cada ação e manter contato visual reduzem ansiedade e aumentam adesão ao cuidado.

3. Evite conversas paralelas entre profissionais
Durante o cuidado íntimo, o foco deve ser a pessoa. Conversas entre a equipe podem aumentar a sensação de exposição e insegurança.

4. Use previsibilidade e comunicação contínua
Antecipar o que será feito, respeitar pausas e manter um ritmo lento favorecem a cooperação, especialmente em pessoas com demência.

5. Atenção ao conforto sensorial
Temperatura da água, exposição do corpo, ruídos, iluminação e toque influenciam diretamente na aceitação do cuidado.

6. Música e referências afetivas podem ajudar
Elementos significativos para a pessoa, como músicas conhecidas, podem facilitar o vínculo e reduzir resistência.

7. Evite contenção 
Segurar a pessoa à força pode aumentar agitação e sofrimento. Priorize estratégias de adesão e abordagem gradual.

8. Reavalie o ambiente e os dispositivos
Cama, espaço físico e uso de equipamentos devem equilibrar segurança e qualidade de vida. Nem toda adaptação técnica melhora a experiência da pessoa.

9. Trabalhe em equipe e compartilhe estratégias
O manejo da recusa não é individual. Trocas entre profissionais ajudam a identificar abordagens mais eficazes.

10. Valorize pequenos avanços
Nem todo cuidado será “perfeito”. Reduções na resistência, menor sofrimento ou maior aceitação já são resultados significativos.

11. Inclua a família no processo
Escutar e orientar familiares ajuda a alinhar expectativas e fortalecer a continuidade do cuidado.

12. Cuide de quem cuida
Frustração, dor física e sensação de impotência fazem parte do processo. Espaços de escuta e supervisão são essenciais para sustentar a qualidade do cuidado.

Convidamos você a continuar essa reflexão conosco no MPC Brasil, que acontecerá nos dias 1 e 2 de outubro. Um encontro dedicado à prática do cuidado, à troca de experiências e ao desenvolvimento de estratégias para enfrentar os desafios reais do cotidiano em ILPI e no cuidado de longa duração.

Será um espaço para pensar junto, aprender com a prática e ampliar o olhar sobre o cuidado que oferecemos e o cuidado que queremos construir.

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