Quando um residente chega ao fim da vida, não é só o corpo que precisa de cuidado. É toda uma história, uma família, uma teia de relações. E é exatamente aí que o Serviço Social faz a diferença.

“Quando alguém morre dentro da ILPI, não morre sozinho. Morre rodeado de histórias, de vínculos, de cuidadores que o conheciam pelo nome. E é dever de todos nós que isso aconteça com dignidade.”

O Brasil envelhece. Envelhe rápido, envelhece em grande número — e, muitas vezes, envelhe dentro de uma instituição. Não porque a família abandonou, mas porque o cuidado ficou além do que uma casa comum consegue oferecer. Nas Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI), um número crescente de residentes vive com doenças crônicas avançadas, fragilidade, limitações progressivas. São pessoas que chegaram até ali com história, com nome, com gostos e medos. E que, em algum momento, vão chegar ao fim da vida dentro daquelas paredes.

Esse é o cenário em que os cuidados paliativos deixam de ser um conceito médico e se tornam uma prática coletiva, interdisciplinar e profundamente humana. E é nesse espaço — muitas vezes silencioso, muitas vezes carregado de emoção — que o assistente social exerce um papel que vai muito além da burocracia. Ele é o elo entre o que o residente sente, o que a família consegue expressar e o que a instituição precisa garantir.

Paliativos não são sinônimo de desistência

Existe ainda, em muitos espaços, uma confusão entre cuidados paliativos e abandono terapêutico. Como se decidir por paliação significasse cruzar os braços. Nada mais equivocado.

Os cuidados paliativos, conforme a Organização Mundial da Saúde, são uma abordagem que melhora a qualidade de vida de pacientes e familiares diante de doenças que ameaçam a vida. O foco muda: em vez de curar, o objetivo é aliviar. Em vez de prolongar a vida a qualquer custo, a meta é preservar a dignidade e o conforto até o último momento.

No Brasil, o Ministério da Saúde reconhece os cuidados paliativos como parte integrante da atenção à saúde — e o Estatuto da Pessoa Idosa reforça que todo idoso tem direito a tratamento digno, à participação nas decisões sobre seu próprio corpo e à proteção contra qualquer forma de negligência.

Nas ILPI, aplicar essa abordagem significa construir um cuidado verdadeiramente centrado na pessoa. Significa perguntar: o que essa pessoa ainda quer? Do que ela tem medo? Quem ela quer por perto?

Associação Cuidadosa

O Serviço Social no coração da ILPI: muito mais do que formulários

Quando o assistente social chega à ILPI, sua primeira tarefa não é preencher papéis. É ouvir. É entender quem é aquela pessoa que está chegando — de onde vem, o que perdeu, o que ainda guarda.

A avaliação sociofamiliar, o Plano Individual de Atendimento (PIA), a articulação com a rede de saúde e socioassistencial: tudo isso compõe a atuação técnica. Mas o que transforma esse trabalho em cuidado de verdade é a postura ética e humanizada diante de cada caso.

No contexto dos cuidados paliativos, essa atuação ganha camadas especiais:

  • Facilitar rodas de conversa sobre finitude com residentes que querem — e podem — falar sobre a morte sem medo;
  • Promover oficinas com a equipe multiprofissional sobre direitos da pessoa idosa e humanização do cuidado;
  • Mediar conflitos familiares que surgem justamente quando o tempo começa a escassear;
  • Orientar famílias sobre o que são diretivas antecipadas de vontade e garantir que o residente participe das decisões, quando possível;
  • Articular com serviços externos de suporte — psicológico, espiritual, social — sempre que necessário.

“Garantir que o idoso participe das decisões sobre seu próprio cuidado não é apenas boa prática. É um direito previsto em lei e um imperativo ético.”

A família também precisa de cuidado

Quando um residente entra em processo de finitude, quem mais sofre nem sempre está dentro da ILPI. Está do lado de fora. É o filho que não consegue visitar com frequência. É a filha que sente culpa por ter deixado a mãe na instituição. É o casal que discute sobre o que fazer. É a família inteira carregando um luto que ainda não tem nome.

O sofrimento antecipatório é real. E ele exige acolhimento especializado — não julgamento. O assistente social é, muitas vezes, a primeira pessoa que escuta essa família sem cobrar, sem pressionar, sem emitir veredictos. E essa escuta qualificada pode transformar o processo de despedida em algo muito menos doloroso.

Acolher a família não é tarefa periférica. É parte central do cuidado paliativo. Uma família que se sente ouvida tende a colaborar mais com a equipe, a respeitar as decisões do residente e a atravessar o luto com mais serenidade.

A autonomia do residente: o centro de tudo

O Conselho Federal de Medicina reconhece, desde 2012, a validade das diretivas antecipadas de vontade — um instrumento pelo qual a pessoa pode registrar seus desejos terapêuticos antes de perder a capacidade de expressá-los. No contexto das ILPI, esse instrumento é ainda pouco utilizado e pouco conhecido.

O assistente social tem papel fundamental em mudar isso. Não como imposição, mas como abertura de diálogo. Muitos residentes querem falar sobre a morte. Querem dizer que não desejam ser reanimados a qualquer custo. Querem poder escolher quem ficará ao seu lado no momento final. O que falta, muitas vezes, é alguém que pergunte.

“Perguntar a um idoso sobre seus desejos não é antecipar a morte. É reconhecer que ele ainda está vivo — e que sua voz importa.”

Os desafios são reais — e precisam ser nomeados

Seria desonesto encerrar esse texto sem falar das dificuldades. Elas existem e são muitas.

A falta de políticas públicas específicas para cuidados paliativos em ILPI ainda é uma lacuna enorme no Brasil. A rede de apoio socioassistencial é frágil em muitos municípios. A resistência cultural diante da morte — dentro e fora das instituições — dificulta conversas necessárias. E as equipes, frequentemente sobrecarregadas, mal têm tempo para o básico, quanto mais para aprofundar questões tão complexas.

Reconhecer esses desafios não é derrotismo. É o primeiro passo para superá-los. E o Serviço Social, com seu compromisso ético-político com a defesa da vida, da dignidade e dos direitos humanos, é parte ativa dessa construção.

Cuidar até o fim: um compromisso de todos

Quando pensamos em cuidados paliativos, é fácil reduzir tudo à medicina — às medicações, aos sintomas, aos protocolos clínicos. Mas o fim da vida é um evento humano, e não apenas biológico. É permeado de afeto, de saudade, de medos não ditos, de últimas vontades.

O assistente social que atua em ILPI sabe disso de perto. Sabe o peso de uma família que chora no corredor. Sabe o valor de um residente que, pela primeira vez, consegue falar sobre a própria morte sem lágrimas. Sabe que seu trabalho é invisível para muitos, mas essencial para quem está atravessando um dos momentos mais delicados da existência.

Cuidar até o fim com dignidade não é responsabilidade de uma única profissão. É um compromisso coletivo — da instituição, da equipe, da família e da sociedade. E o Serviço Social, com escuta, com ética e com presença, ajuda a construir esse caminho.

About the Author: Célia Cristina

Assistente Social | Pós-Graduada em Gerontologia e Saúde Mental | Gestora da ILPI Bem Viver Casa de Repouso · Vila Velha/ES

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